Foi difícil, mas terminei. E não falo apenas da faculdade, mas de outra coisa que tumultuou a minha vida: o meu trabalho final. Para quem ainda não sabe, meu projeto de conclusão de curso, em dupla com o Cavi Loos, foi a produção de uma temporada piloto de cinco episódios para um seriado de internet. Isso porque eu sou maluca e encarei o desafio de fazer algo que não domino, correndo todos os riscos possíveis, só para experimentar algo diferente.
Ainda penso que podia ter escolhido a segurança de ter feito algo que eu já faça bem para garantir a qualidade do resultado. Mas aprender a trabalhar uma narrativa audiovisual valia o risco. E olha que não foram poucos: corremos o risco de não conseguir terminar tudo a tempo da entrega, e sequer tínhamos a garantia de uma boa nota (embora, no final das contas, tenhamos tirado a nota máxima).
Da criação do roteiro ao fim das edições, foram uns três meses. Para imaginar a correria, considere ainda que as gravações das cenas dos cinco episódios foram feitas em apenas seis dias (dois finais de semana mais dois dias), sem verba alguma, e que todo o trabalho, que precisaria de uma equipe de, no mínimo, 14 pessoas, foi feito por uma equipe de 4 pessoas. Eu diria que foi um milagre, se eu acreditasse nisso. Mas foi mesmo um puta trabalho e dedicação dos envolvidos, tanto da equipe quanto dos lindos do elenco.
Agradeço a cada um deles não só por terem ajudado o seriado a acontecer, mas principalmente pelo aprendizado. Entre tantas coisas, posso destacar o que aprendi com o Caio Lins, diretor de elenco, em relação à construção de personagens. Foi incrível observar ele orientando os atores, mostrando grande intimidade com os personagens que criei, como se ele mesmo os tivesse criado – aliás, como se eles existissem mesmo. A liberdade do elenco ao construir os personagens com a interpretação me fez perceber que só quando o criador perde o controle de sua criação é que ela ganha vida. Isso com certeza vai me ajudar a escrever histórias com personagens mais vivos e convincentes. E é claro, também aprendi com os inúmeros erros. É, parece clichê, mas é isso mesmo: é com eles que a gente aprende.
Por isso, estou disponibilizando o roteiro para download (é só clicar aqui). Sei que existem uns malucos que leem de tudo e também vão querer ler isso. O que é ótimo, porque comentários e críticas serão muito, muito bem-vindas. Sério, me escrevam. Tenho certeza que posso aprender com vocês também.
Ah, e o mais importante: vocês podem ver os episódios no canal do Não Repara a Bagunça no YouTube. A temporada piloto está sendo publicada durante esta semana: todo dia, um novo episódio, às 17h. Assinem o canal, é mais fácil. Alguma coisa nesse processo todo tinha que ser, né? ;)
Enquanto o seriado que estou produzindo não fica pronto, queria compartilhar com vocês outro trabalho que produzi na faculdade, com meus amigos do Pele de Cordeiro. É uma proposta de manifesto em favor da leitura, e como tem tudo a ver com o que falo por aqui, achei interessante postar.
Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).
Your mind, a wild monkey
Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).
A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.
Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.
O que eu vejo: só texto
Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.
Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.
Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.
O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.
Redatores são constantemente lembrados, seja por recomendações sérias de seus diretores de criação, ou por zoações amigáveis de seus duplas diretores de arte, que as pessoas têm preguiça de ler. “As pessoas não leem. Diminui esse texto, resume aquele ali, dá uma enxugada no título, etc.” Este post bem que podia ser um mimimi de quem ainda acredita que a gente não escreve texto de apoio à toa, que as pessoas lêem sim; eu até queria, mas não vou escrever sobre isso. Preciso concordar que sim, as pessoas têm preguiça de ler. E não falo isso gratuitamente. Tirei isso de um fato recente, do qual muitos de vocês já devem ter ouvido falar.
O livro de português “Viver e Aprender” (parte da coleção didática criada para o Ensino de Jovens e Adultos) virou notícia e assunto na internet. A mídia alardeou que o MEC teria comprado livros que ensinam os alunos a falarem “errado”. O polêmico trecho diz que a pessoa pode falar “os livro”, desde que saiba que, dependendo da situação, pode sofrer preconceito linguístico. Foi o suficiente para o mundo desabar. Absurdo! A educação vai ser nivelada por baixo! Estão acabando com o português! Imagina se o jeito dessa gente pobre falar “os livro” pode ser legitimado, etc, etc.
Não vou me aprofundar na questão linguística, porque já fiizeram muito melhor o Alex Castro, o Diego Jiquilin no blog da Lola, o Helio Schwartsman na Folha, e este artigo na Terra Magazine. E isso para não citar o vídeo onde os escritores Marcelino Freire e Cristóvão Tezza rebatem com bom humor a babaquice da Globo em atacar o livro sem nem saber do que está falando.
Aí entra a preguiça de ler. Com base em apenas um trecho de uma única página, já vimos todos os tipos de comentários afoitos e indignados pelo twitter e blogs afora (principalmente na mídia). Ninguém teve a preocupação de ler um pouco mais sobre o assunto. De entender do que se trata o livro, em que contexto aquela lição “dos livro” estava sendo dada. Muitos nem sabiam que o livro didático é destinado ao EJA e não a crianças.
Boa parte da culpa é da própria educação que recebemos na escola. Aprendemos com base no “certo” e “errado”. O modelo de ensino no qual a maioria de nós foi alfabetizado não contemplava a crítica, o questionamento. E agora que isso está começando a mudar, queremos que a próxima geração continue aprendendo com métodos já ultrapassados?
A escola também falhou, no caso de muita gente, em ensinar a ler. Até na faculdade vemos pessoas com clara deficiência de leitura e interpretação de texto. E é gente “limpinha”, não esses pobres que falam “os livro”. Quando não estão com preguiça de ler, não conseguem entender o que estão lendo.
Mas o pior é quem sequer se dá ao trabalho de entender um assunto ou procurar saber mais sobre ele, e sai por aí falando besteira. Do jornalismo a gente não pode esperar muito mesmo. Até porque, apesar de indignados com o tal livro que relativiza o uso da norma culta, são eles os que cometem erros grotescos, mesmo sendo profissionais que supostamente deveriam falar português impecavelmente. Triste foi ver gente instruída, bem informada, e até redatores (!!!) proferindo comentários típicos de um bobalhão como Alexandre Garcia.
Que ter domínio da língua culta é essencial para quem trabalha com Redação Publicitária, disso não temos dúvidas. Mas a publicidade não seria a mesma se os redatores escrevessem como um promotor público. Olhem para qualquer bom anúncio e vocês verão uma linguagem coloquial, gostosa de ler. Nem na literatura a norma culta é seguida com rigor. Nem você, caro leitor erudito, fala da mesma forma que escreve.
A língua é das pessoas, não dos dicionários e gramáticas. A linguagem é viva, e não é o uso que as pessoas fazem dela que irá matá-la. Pelo contrário. E sobre essa incrível propriedade da nossa língua, Alex Castro diz:
A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.
O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.
Isso de ser redator não é para quem gosta de escrever. E para a gente começar a conversar, você precisa ter bem claro na cabeça que uma coisa é ser redator; outra é gostar de escrever. Acontece de alguém entrar nessa e pertencer aos dois conjuntos (nossa, eu não uso esse termo desde as aulas de matemática na primeira série). Mas uma hora, esse alguém: a) de tanto ser redator, deixa de gostar de escrever; ou b) por gostar tanto de escrever, desiste de ser redator. Bem, estou há pouco tempo na profissão. Então tudo o que posso dizer é que ainda estou na fase de ser redatora e gostar de escrever.
Por que são duas coisas bem diferentes? Basicamente, gostar de escrever significa tesão. É aquele prazer em criar as próprias histórias, dar vida aos seus personagens, escrever o quanto e o quê vier na telha. Claro que envolve boas doses de sofrimento e angústia criativa. Mas ainda assim, você faz pelo seu prazer. Algo bem egoísta mesmo. Foda-se as regras, estruturas e técnicas. Quem gosta de escrever, escreve primeiro para si mesmo.
Redator não: escreve sob demanda. Escreve o que o cliente quer, muitas vezes sobre coisas que não gosta, e às vezes nem entende. Precisa ser inteligente, criativo, surpreender. Mas precisa ser persuasivo sempre. E para isso, precisa seguir algumas regrinhas. Claro que envolve a mesma angústia criativa. Muitos tem tesão pela coisa. Mas é bem diferente: você está escrevendo porque é o seu trabalho.
É meio que como ser puta. Ok, todo publicitário é meio puta, por motivos óbvios (aquela velha piadinha: passamos o dia abrindo as pernas para o cliente, sempre chegamos tarde em casa e nossos pais não sabem direito qual o nosso trabalho). Imagine que o seu trabalho é transar a semana inteira, mas prazer mesmo você sente quando transa nas horas de folga – porque quer, quando quer, e com quem quer. Ah, viu só? Quando relaciona com sexo, fica mais fácil de entender.
A vontade de falar sobre isso surgiu quando conheci o blog de uma dupla de redatores. Adorei cada um dos textos. Curtos, precisos, engraçados, uma delícia de ler. E mesmo se eu tivesse chegado ao blog sem saber que era escrito por dois colegas de profissão, eu saberia de cara.
Primeiro, porque estava super bem escrito. Apesar de conhecer ótimos blogs, acho cada vez mais difícil encontrar blogueiros que saibam escrever (atenção, outro ponto importante: saber escrever, gostar de escrever e ser redator raramente são conjuntos que se cruzam).
Outra coisa foi reconhecer em todos os textos cada um dos recursos que o redator usa em seu trabalho. As tais regrinhas da persuasão, sabe? Tudinho ali. É nessas horas que acho uma merda ser redatora. Eu podia simplesmente rir com o texto e achar legal, como a maioria dos leitores fazem. Mas não: leio analisando, como quem disseca uma rã. Aí consigo ver, claro como a água, o mecanismo por trás do texto. Não tem muita graça ver um show de mágico quando você também é um. Fico mais preocupada em entender o truque do que admirar a mágica. “Hm! Olha lá, olha lá! Tá usando retórica aristotélica!” Claro que o texto não deixa de ser bom, mas você entendeu.
É nessa hora que eu me preparo para receber algumas pedradas, mas preciso desabafar. Um texto de blog elaborado assim, para atingir seu público de forma deliberada, do jeitinho que a publicidade ensina, perde boa parte de sua personalidade. Aquela personalidade bem própria de quem gosta de escrever. De quem escreveu pelo tesão, pela necessidade de satisfazer primeiro a si mesmo, para só depois se lembrar (caso se lembre) de que depois alguém vai ler aquilo (caso alguém leia). Coisa de blog raiz, blog moleque. Um texto sem essa personalidade soa profissional demais.
Entendo que hoje em dia, blog é mais do que forma de expressão: também é profissão. Cada blogueiro tem um objetivo, e o de muitos é ganhar dinheiro – nada mais justo e digno. Mas a tal da personalidade dos textos é o maior indicativo de sucesso de um blog “monetizável”, não acham?
Já um texto com estrutura persuasiva está vendendo algo – no mínimo uma ideia. Mas se o texto está lá, supostamente para oferecer o prazer da leitura, e não tem o objetivo de vender nada, ou me convencer de alguma coisa, por que raios foi escrito dessa forma tão publicitária? Assim, só para me convencer que é bom? Esse esforço é desnecessário. Um texto bom não precisa da persuasão para me convencer disso.
Claro que essa é uma visão bem particular de quem está imersa o tempo inteiro em títulos, textos de apoios, e todas as fórmulas publicitárias de escrever. Quando saio da agência, tiro o jaleco de redatora e abro a gaveta dos personagens e das histórias malucas. Imagino que seria deprimente viver o tempo inteiro como redatora. Seria como trabalhar na cozinha do McDonald’s, e ao chegar em casa, preparar um baita Big Mac no jantar.
Aqui eu procuro escrever algo diferente do que preenche a minha rotina na agência. Se quiser ler títulos, recomendo que procure um anuário de propaganda.
Cada post que escrevo é um parto. Em parte, porque sou a leitora mais crítica deste blog. É difícil chegar em algo que me agrade. Também é difícil porque não tenho uma fórmula pronta a seguir. Vou sendo guiada pela tal angústia criativa, e como você já deve ter percebido, não me importo nem um pouco se o texto vai ficar muito grande nesse processo.
É isso mesmo. Lamento dizer, mas a última coisa com a qual me preocupo é em agradar você. Embora seja muito gratificante saber que tenho tantos leitores que leem até o último ponto dos meus textos quilométricos, e ainda me dão feedbacks incríveis, não é essa a minha maior motivação.
Anota aí: no dia em que eu passar a escrever só para o público gostar, pode saber que terei saído da intersecção entre quem é redator e quem gosta de escrever. Nesse dia, eu vou ser mais ou menos como uma puta bem profissional: o que já me deu tanto prazer vai ser só o meu trabalho.
Post escrito para o Concurso de Blogueiras da Lola
Só descobri mesmo que eu era menina aos 5 anos. Vou te contar que foi uma descoberta espantosa; mas não foi assim, do nada. Eu já suspeitava que eu fosse menina. Eu gostava de rosa, usava cabelo Chanel, e já tinha ouvido falar de uma tal perereca que talvez tivesse tudo a ver com o caso.
A culpa é toda dela.
“Meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.” Resumindo, foi assim que descobri. Eu estava no Jardim I, toda besta com a abertura das aulas extra-classe, aquelas atividades que a escola cria para manter a pirralhada ocupada e os pais despreocupados. Claro que eu fiquei doida para fazer karatê. Eu era pequena, mas não era boba. Assistia desenho animado e sabia da grande aplicação prática que a luta teria quando eu tivesse idade para entrar para a Liga da Justiça. Ok, nem tanto. Mas parecia ser divertido e as roupas eram mais legais.
Lembrei minha mãe do início das aulinhas e ela disse algo sobre comprar o vestido. Protestei, dizendo que queria mesmo era fazer karatê, mas ela respondeu de cara: “Ah, não senhora. Nem pensar”. E eu ali, sem entender por que não podia. Sabe criança que insiste? Então. Aí ela explicou: “meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.”
Ai que saco. Preferia estar dando porrada em alguns meninos.
Só nesse episódio descobri o que significava ter uma vagina. Não fiquei revoltada. O mundo caiu na hora, mas na semana seguinte, eu já estava toda serelepe no balé com meu collant cor-de-rosa (embora não deva ter feito as aulinhas por mais de um mês). Na verdade, a partir dali, comecei a me acostumar com a condição de portadora de uma vagina. Comecei a me acostumar em não ter muita opção.
Eu na infância
Então era isso: eu soube exatamente o momento em que me descobri menina. Mas não posso dizer o mesmo da descoberta do meu feminismo. Quer dizer, como é que isso aparece? Bem que eu queria dizer que sou feminista desde criancinha, mas isso foi um processo. E teve muito mais a ver com a inocência de achar que eu podia fazer o que eu quisesse, do que com a frustração de não poder fazer.
Apesar de ter sido criada em uma família conservadora e cristã (e por consequência, altamente machista, onde era minha a obrigação da louça suja e das camas desarrumadas, nunca do meu irmão), passei longe de ser a mocinha ideal. Alguma coisa deu errado.
(As Barbies estavam lá, fazendo parte da minha formação, e mesmo assim, alguma coisa deu errado. Talvez porque eu soubesse que eu é que as manipulava – e não o contrário. Nas minhas brincadeiras, onde eu já mostrava algum talento para desenvolver histórias mirabolantes, Barbies e Cavaleiros do Zodíaco faziam parte da mesma história, inclusive com as bonecas desempenhando papel de heroínas. Eu sei, eu sei. Assistia desenho demais.)
Quem disse que RPG não é coisa de menina?
O negócio é que quanto mais eu crescia, mais me sentia à vontade no universo de coisas predominantemente masculinas. Quadrinhos, super-heróis, animes, vídeo-games, heavy metal. Eu sempre era a única jogadora do meu grupo de RPG. Meu sonho era trabalhar na Marvel, e eu já produzia meus próprios quadrinhos.
Dessa vez, ninguém precisava me dizer “meninos fazem quadrinhos, meninas fazem comida”. Eu já sabia. Mas fazer o quê, se eu tinha talento para histórias e nenhuma para culinária?
Experimenta dizer que mulher não pode alguma coisa.
E então, um dia resolvi ser publicitária. Trabalharia na área de criação, onde ainda havia muito mais homens do que mulheres. Mais uma vez, ninguém me disse “meninos fazem criação, meninas fazem atendimento”, apesar da grande maioria das mulheres desempenharem esse papel (sórdido) na publicidade.
Posso dizer que uma coisa continuou a mesma, da época do RPG aos tempos atuais: sempre fui vista como uma igual. E acho que aí está a origem do meu feminismo. Não no fato de ser discriminada, mas no fato de ser aceita em um universo que não foi feito para as mulheres, e ainda assim, ser tratada como igual. E por que não seria? Afinal, minha vagina pouco tem a ver com a minha capacidade de fazer as coisas. Fora os orgasmos múltiplos, é claro.
Ainda não acabou
Mesmo não seguindo a cartilha da boa moça, descobri que podia ser aceita – e o melhor: fazendo o que eu realmente gostava. Essa era uma descoberta realmente espantosa. Definiu a minha vida! Mas se isso era tão bom, não entendia por que ainda havia uma sociedade que ensinava que meninos fazem karatê e meninas fazem balé.
Foi quando conheci o blog da Lola e da Marjorie (não necessariamente nessa ordem). Com elas, minha visão de mundo se expandiu. Fiquei mais sensível ao que antes parecia invisível. Comecei a entender que tudo fazia parte de uma construção social, cuja função era manter todos em seus devidos lugares. Percebi que era uma grande besteira acreditar que as coisas eram assim só porque deus quis.
Acredito que as coisas podem ser diferentes. Que homens e mulheres possam ser o que bem entenderem. Que a igualdade que eu experimentei com as pessoas do meu meio possa ser vivida na sociedade como um todo. Aí um dia não vai importar se você tem ou não uma perereca, porque nesse dia (e espero que seja logo) ninguém mais vai ensinar o que é coisa de menino e o que é coisa de menina. Se você também acha isso, parabéns. Você também é um goddamn feminista.
Vira e mexe estou às voltas com as mesmas crises de sempre. Não as crises políticas, tampouco as financeiras – embora estas sejam responsáveis pela metade dos problemas de todo mundo -, mas as crises autorais. Aquelas, de deixar escritores em desespero. Se eu pelo menos fosse um, o quadro não estaria tão ruim.
Cheguei a uma fase em que o menor dos problemas é o backspace teimando em diminuir, retroceder, fazer desaparecer as linhas escritas com tanto suor, tanto sofrimento. Sequer existe algo para ser apagado. Se fosse em outros tempos, teria o estranho prazer em encher minha lixeira com papéis amassados, que eu arrancaria da máquina de escrever depois de surrar no papel palavra por palavra, com aquele tec tec que encheria toda a sala – e minha cabeça. Hoje as teclas estão todas aqui e cada um dos dedos já sabe seu lugar, mas olho para elas e a tela continua vazia.
Quer dizer, e todas aquelas histórias que eu tinha? Todos aqueles assuntos? Tem uma hora em que simplesmente acaba? E aí depois de todo esse tempo sem escrever, volto assim, de mãos vazias, e tudo o que resta para compartilhar é essa coisa meio confessional – e confesso: isso nunca fez meu estilo -, mas só porque não quero deixar essa tela em branco. Só porque não posso deixar mais um dia em branco.
Achei que sendo redatora eu estaria mais perto de trabalhar com o que eu gosto. Mas, ao mesmo tempo em que crio e escrevo bastante, acho que nunca estive tão distante de trabalhar com o que eu gosto. Publicidade não é tesão o tempo inteiro. Acho que literatura menos ainda – exceto se você for um badalado escritor que ganhe dinheiro fácil, tipo Paulo Coelho ou Stephenie Meyer. Mas a questão é que na publicidade o meu escrever está condicionado ao que o cliente quer, ao que ele precisa. E no meu esforço de chegar a ser uma boa redatora (já que falta aquele talento maroto, aquele talento raiz, que imagino ter sido um belo atalho na vida dos grandes e premiados redatores), eu me anulei no mais importante: deixei de escrever para mim mesma. Deixei as minhas histórias de lado para me empenhar em escrever histórias para marcas. Continuo entretendo o público, contando histórias. Mas não as minhas.
Não que seja um problema escrever sob essas circunstâncias. Eu escolhi publicidade, afinal. Acho que se eu tivesse escolhido qualquer outra coisa, tipo Letras, eu seria uma puta pedante chata e limitada. Mas acho que essa coisa de ser “artista” equilibra as coisas. Saber que posso sentar aqui e contar uma história, e saber que haverá alguém do outro lado para ler, e saber que o que eu escrever não vai precisar ser aprovado por ninguém antes disso acontecer.
Tipo agora. Vê se um troço todo “meu querido diário” como esse seria aprovado, se não fosse meu desespero em escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas se tem uma coisa que aprendi com um amigo foi nunca me desculpar por nada que eu escreva ou publique. Porque decidi que vou escrever sem pudor, sem escrúpulos, sem vergonha. Soltar o braço. É isso ou me conformar em não saber mais o som que o teclado faz quando digito furiosamente, sem parar.
Agora se me dão licença, preciso acordar cedo amanhã. A redatora ainda tem um monte de jobs esperando por ela.
Chega um certo período no semestre em que fica difícil manter a regularidade na postagem. Mas o que eu mais queria era voltar a escrever por aqui, isso me ajudaria bastante a escrever no trabalho; ando passando por muitos bloqueios ultimamente. Esses dias encontrei um texto antigo do qual nem lembrava mais ter escrito. Resolvi compartilhar aqui no blog, mesmo sendo tão autobiográfico. Já fica o aviso que é um texto pessoal e um pouco extenso. Continue a ler por sua conta e risco.
Não importa quantas vezes eu já tenha visto aquelas fotos. É sempre como ver algo que já faz parte de um outro mundo, não apenas outra época. Aquela Aline de dois anos brincando na areia era uma eterna curiosa quanto à natureza dos adultos. Eram criaturas confusas que ela não conseguia entender, embora se preocupasse bastante com o que eles poderiam pensar dela. Essa Aline de hoje já não tem tanto interesse assim. Vê o quanto todos eles (inclusive ela) não são lá grandes coisas.
Aquela Aline, de olhos puxadinhos quando sorria, cabelo curtinho, anelado e revolto, não cresceu. Ela não se transformou em outra pessoa. Ela não se transformou na Aline que ganhou um irmão bebê e começou uma coleção invejável de Barbies. Essa daí simplesmente surgiu. E após essa, uma Aline que brincava de Lego, de Power Rangers com os amigos do prédio, assistia desenho animado, e que a mãe cortava a franja bem reta e curta, no alto da testa. E após essa, uma Aline que ganhou uma irmã caçula, se mudou para a Ocidental e não tinhamais nada a ver com todas as outras. Ela não era adorável nem tinha todos aqueles amiguinhos. Era uma pré-adolescente de rosto estranho, corpo desajeitado, de conceitos pouco definidos, reprimida, pouco habilidosa, mas tentava se encontrar. E de onde surgiu a Aline que abusava da maquiagem, arrumou namorado, andava de preto, cheia de colares e anéis, curtia lá seu rock meio punk, meio hard rock, meio grunge, meio sei lá o quê? Por todos os deuses, de onde essa doida surgiu? Onde ela estava na história até agora?
E então essa criatura cheia de rebeldia, com uma visão nada resignada de mundo, deixou outras Alines entrarem na história. Uma Aline de cabelão preto e muito comprido. Uma Aline que de tanto ficar em casa, ganhou um tom amarelo e pálido na sua pele antes tão morena. Uma Aline que não suportava ouvir Nirvana, embora uma Aline que tivesse vindo antes adorasse. Teve até uma Aline que estudava pra concursos públicos e tentava passar na UnB pra Artes Plásticas. Outra que não se esforçava muito para arrumar um bom emprego, e fazia uns freelas de graça só pra ganhar experiência. Uma Aline que teve alguns namorados por longos períodos de tempo, e que por conta disso aprendeu muito, mas tornou-se desagradável e irremediável em muitos aspectos. Uma Aline que viu, através do irmão que começou a experimentar a fase da rebeldia, que esse negócio de ir contra a família não levava a lugar nenhum.
E veio outra, que foi contratada por uma empresa de TI e logo virou assistente do gerente de projetos, passando a coordenar e receber tarefas importantes. Esta passou na faculdade, e diferente de uma Aline que quase fez Artes Plásticas, e de outra que queria fazer História, e de outra (coitada) que tentou Desenho Industrial, essa foi bem-sucedida e tinha tudo a ver com Publicidade. Essa Aline, que conheceu o Marcos no primeiro semestre e se tornou a melhor amiga dele, também não é a mesma que um dia deu a louca e resolveu beijá-lo, na casa dele. Essa é a Aline sortuda que conseguiu um bom namorado. A outra, a “apenas amiga”, esquivou do beijo que ele tentou roubar um dia, e ficou sozinha.
A Aline que assumiu a partir daí, apareceu meio que sem ninguém perceber. Era meio desesperada, meio histérica, envolvida demais com tudo que fazia. Ela tinha boas idéias, era engajada, cheia de projetos, mas com pouquíssimo tempo para se dedicar aos amigos. Sim, um dia até houve uma Aline que escrevia cartas, participava de fóruns, e veja só, até tinha melhores amigas. Mas a seguinte perdeu o contato com muitas pessoas, porque não concordava com o egoísmo com o qual eles a tratavam. Também não se sentia confortável quando percebia que eles estavam, na verdade, se dirigindo a uma Aline que ficou pra trás na história há um tempão, que não gostava mais das mesmas coisas que eles, nem via mais graça nas piadas que eles acham o máximo. Não dá para exigir que uma Aline fique por tempo indeterminado, a história precisa continuar.
Quais Alines virão daqui em diante? Virá uma que se dedica a escrever, ou uma que é uma chefe megera, ou ainda uma que é uma mãe divertida e cheia de coisas pra ensinar? Quais Alines virão?
Passei pelas fotos como quem agradece a cada uma daquelas escritoras (pequenas ou grandes) pela parcela de contribuição que trouxeram à história, seja pelos altos, seja pelos baixos. E olho para aquela pequenininha, que nem dez meses tinha, no colo da mãe magrela que lhe dava mamadeira, e penso em lhe dizer: “Você ficou com a melhor parte da história. Seria tão ruim se você tivesse que largar tudo isso e vir aqui viver os meus problemas; mas venha me visitar de vez em quando, para que eu não me esqueça que é da sua história que eu estou cuidando agora.”
Ainda no ano passado, escrevi sobre a força das mulheres nos quadrinhos – como autoras e produtoras. Hoje é a vez de voltar a falar de mulher nos quadrinhos – mas de uma que vem de dentro deles: a Mulher Hulk, que completa neste mês de março seus 30 anos de existência. Foi criada no mesmo ano da fundação do National Woman History Project, uma organização educacional que traz como tema em 2010 “Writing Women Back into History”. Guardem bem isso.
Jennifer Walters, uma advogada idealista (com um histórico de defesa dos direitos de minoria, liberdades civis, e de proteção a indivíduos vitimados por corporações pouco éticas) é baleada e quase perde a vida, se não fosse seu primo Bruce Banner (isso mesmo, o Hulk) realizar uma transfusão de sangue improvisada que a salva – e infesta seu organismo com radiação gama. Essa alteração em seu sangue a transforma em uma forma de vida feminina superforte e esverdeada, tal qual seu monstruoso primo, mas com a grande diferença (e vantagem) de manter sua inteligência e autocontrole após a transformação. A tendência é essa até fora dos quadrinhos: quando o poder sobe à cabeça de alguns homens, ficam irracionais e selvagens.
Todo o carisma da personagem se deveu a isso. Não era uma descerebrada movida pelo instinto de destruir tudo o que via pela frente. Vamos combinar que os roteiros da maioria dos quadrinhos da década de 80 não eram lá geniais, mas o humor da Mulher Hulk era cativante. No entanto, o título próprio da Mulher Hulk durou só 20 edições na época. Depois disso, levou a vida como integrante dos Vingadores, Quarteto Fantástico, e até chegou a fazer dupla com o amigão da vizinhança. Passou muito tempo levando uma vida errante, mas depois do sucesso do último filme de Hulk , essa grande personagem (grande mesmo) pode dar a volta por cima e figurar em uma adaptação para o cinema.
Oh! E agora, quem poderá nos defender?
Mas não é porque ela é grande, verde e ESMAGA que a vida seria mais fácil. Ainda que seja uma mulher de personalidade, inteligente, espirituosa, advogada competente e heroína poderosa, o atributo que é levado em consideração pelos outros em primeiro lugar acaba sendo seus seios, e o resto de seu corpão que preenche as roupas minúsculas e provocativas das quais os desenhistas gostam de abusar. É como uma fã da heroína disse aqui: a objetificação da personagem através de capas hiper-sexualizadas fez com que a She-Hulk fosse vista bem mais como uma personagem que o público gostaria de levar para a cama, do que como uma personagem que o público admirasse pela personalidade. E não é o que acontece sempre? Agora imagine se o mesmo critério valesse para os homens: o Superman, com aquela cara de paisagem e jeitão sem-graça, seria um fracasso absoluto. E você também, leitor homem, que apesar de não usar cueca por cima da calça está bem longe de ser um sex symbol, teria dificuldades em ser bem-sucedido ou até mesmo manter seu emprego se seus atributos físicos valessem mais do que seu potencial e competência.
Mas nem com os superpoderes da She-Hulk metade dos problemas das mulheres estariam resolvidos. Talvez aqueles engraçadinhos, que acreditam que o ponto alto do dia de uma mulher é quando eles resolvem nos abordar no meio da rua, pensassem duas vezes antes de invadir nosso espaço com comentários abusivos sobre nosso corpo, se não quisessem ter o crânio esmagado ali mesmo (eu pelo menos, esmagaria sem dó). Agora, se mesmo com todas as conquistas da mulher em relação a seu espaço no mercado de trabalho, ainda existe uma grande desigualdade de salários e postos ocupados (ou acha que é pura coincidência que a profissão mais mal-remunerada, a de empregada doméstica, seja ocupada quase totalmente por mulheres?), não seria com os poderes da She-Hulk que seria possível reverter essa situação. Ela mesma sabe a dificuldade que é galgar degraus em uma carreira quando se usa salto alto.
And justice for us
E por isso o mês de março é tão importante, não só para a She Hulk, mas para todas as mulheres. Não para ganhar flores e mensagens dizendo o quantos somos fortes, especiais, que o mundo não seria nada sem a nossa beleza, e toda essa baboseira sem sentido. O dia 8 de março não é uma data de comemoração. É uma data de protesto. Uma data que hoje resgata o centenário da luta das mulheres trabalhadoras por uma sociedade com condições mais iguais.
Em 1910, Lena Lewis, uma das principais representantes do movimento feminista norte-americano, declarou que não era uma época para celebrar nada, mas um dia para antecipar as lutas que viriam, “quando poderemos eventualmente e para sempre erradicar o último vestígio do egotismo masculino e seu desejo de dominar as mulheres”.
Hoje é o dia em que lembramos o mundo de escrever as mulheres de volta em sua história. E que, se algum poder for concedido a nós, mulheres, que não seja o da invisibilidade. Mas, como a She Hulk, o da força.
[Publicado originalmente em 18 de janeiro de 2009]
Definitivamente não foi uma escolha minha. Se fosse, eu teria escolhido algo que me fizesse sentir bem, algo que eu conseguisse fazer mantendo uma freqüência regular que não me machucasse com tanta exigência. Mas aí, quando me perguntaram o quê eu realmente queria fazer (já que eu reclamava tanto disso), não soube exatamente o que responder.
Na última festa que fui, reuni-me com alguns novos amigos. Foi mais interessante ficar ouvindo as histórias que eles tinham para contar do que arriscar uma participação mais central. Não é meu forte contar histórias sobre mim, e é o que se espera nesse tipo de confraternização. Enquanto eu estava ali ouvindo, e tomando nota mental de qualquer detalhe que pudesse ser interessante usar depois, percebi que estou mais envolvida com isso do que eu realmente gostaria.
Muito prazer, meu nome é Aline. E sou uma escritora.
Talvez eu sempre soubesse disso, mas como geralmente é uma coisa estranha de se dizer, algo estranho de se declarar (ao menos que você já tenha pelo menos um Best Seller publicado), foi algo que tive que assumir (dolorosamente) com o tempo, especialmente com um diálogo que tive há algum tempo.
-Eu não sou muito boa nisso. Não sou boa o suficiente para ganhar dinheiro com isso. Muitas outras pessoas fazem design melhor do que eu. Muitas pessoas fazem desenho profissional de uma forma que eu nunca vou conseguir. Eu ia achar muito legal trabalhar como redatora ou na parte de planejamento, mas ainda é muito cedo para que eu consiga.
-Então… O que você realmente quer fazer?
Aquela era uma pergunta difícil, mesmo para uma pessoa que sempre acreditou ser movida por suas melhores convicções. Mas não era uma pergunta tão simplista que iria me pegar. Não mesmo.
-Quero trabalhar para mim mesma. – Naquela hora até pareci triunfante. Cheguei até a acreditar que era a resposta que eu precisava encontrar para a minha vida decadente e sem estilo fazer algum sentido.
-Ah, mas isso é muito vago. Trabalhar pra você mesma fazendo o quê? Desenhando? Criando para publicidade? Escrevendo? Fazendo projetos? Você tem que saber o que você quer.
Quase perguntei de volta se ele sabia o que queria. Ser versátil às vezes é dureza, e ele também sabe disso. Eu pensei em responder que o queria mesmo era escrever. Poder viver disso. Eu ainda não sei exatamente como é possível viver disso sem precisar ser muito famosa… Mas foi o que pensei na hora, não me recriminem ainda.
-Talvez eu devesse ser só dona de casa.
Essa conversa acabou mais ou menos por aí. Mas as outras conversas continuaram dentro de mim, enquanto na festa eu invejava a forma como as pessoas pareciam tão misteriosas e inteligentes contando histórias daquela forma, fumando como se fosse um ato sexual. Eu apenas prestei atenção, ouvia as histórias, soltava comentários assertivos pouco relevantes, apenas porque fazia parte de ouvir.
Comecei a me sentir incomodada com algo em mim. Como se eu fosse uma farsante. De tudo que eu sabia sobre escritores, era quase certo que fumar fazia parte do processo criativo (ou era algo como uma afirmação pessoal necessária para intimidar as idéias certas). Então… era isso. Eu não conseguia me dizer escritora, pois, além de escrever, eu precisava fumar, beber, ou consumir algum outro tipo de droga qualquer, e ter histórias para contar quando outras pessoas estivessem lá para ouvir. Céus, nem café eu bebo. Além do mais, sempre acreditei que um bom escritor devia ter pelo menos um gato (Neil Gaiman adora falar dos seus, por exemplo), mas de alguma forma, isso ia contra os meus princípios.
E além do mais… o que eu andava escrevendo nos últimos tempos? Alguma coisa? Revirei meus arquivos e vi uma série de pastas com tudo o que restou de coisas antigas, muitas jamais lidas por ninguém além do meu olhar crítico e reprovador, que costuma deletar dois parágrafos enquanto escrevo um. É uma média desanimadora.
Mas eu precisava fazer algo a respeito. Alguém que não fuma, não consegue contar histórias em festas, não consegue se dizer escritora (muito menos outra coisa qualquer), não bebe café, não tem um gato e não consegue acabar suas histórias precisa tomar atitudes drásticas.
A primeira delas foi me apresentar como uma escritora, bem ali, no início do post. Já que não há melhor forma de definir alguém que escreve (seja lá o que for) como escritor. Então não me julguem mal; não tenho nenhum Best Seller publicado.
Jurei para mim mesma no início do ano (seres humanos de recesso não podem ser considerados aptos para ponderar o que devem ou não fazer em promessas de ano novo) que iria ser menos criteriosa e escrever qualquer história de merda que me viesse à cabeça (eu já comecei uma, e não me lembrava que eu conseguia digitar tão rápido até escrevê-la numa noite qualquer).
Daí o blog, que nesta questão é praticamente uma regra de três (a solução para todos os problemas), surge como o escape de todas essas idéias, para que o fim delas não se resuma a ficarem esquecidas e intocadas em uma pasta no meu computador. Com isso, abro mão do meu olhar crítico e reprovador para adotar o olhar crítico e reprovador de terceiros, que não é necessariamente melhor, mas pelo menos não apaga dois parágrafos a cada um que eu escrevo.
Depois dessa experiência, não sei se poderei dizer que sou escritora com tanta ênfase. Não sei se poderei dizer que amo fazer isso. Definitivamente, não foi uma escolha minha (acostumem-se, adoro repetir frases durante os textos), e não é algo que eu considere prazeroso. Escrever é um ato de angústia, é trabalhoso moldar a imaginação esteticamente para que possa ser transmitida aos outros, é um saco se sentar na frente do computador com um monte de idéias na cabeça que você não vai conseguir definir. E é ainda pior quando você não fuma para pelo menos manter alguma pose de criativo; acredite.
Mas se quiserem me convidar para festas, sim, eu vou com todo prazer.