AlineValek

A difícil vida do privilegiado

22 de April 2013 por Valek

privilegio

Privilégio é um assunto espinhoso — especialmente para quem os tem. Ter que ouvir as dificuldades dos que são diariamente oprimidos é incômodo não porque escancara os privilégios que os privilegiados sequer percebem que têm, mas porque é uma puta injustiça não reconhecerem que a vida do privilegiado não é esse mar de rosas, não! A vida do privilegiado é bastante difícil sim, de forma que precisamos falar sobre suas penúrias e sofrimentos, sobre seus dramas, sobre suas dificuldades nesse mundo tão injusto.

A vida do privilegiado é difícil, acima de tudo, porque ele é incapaz de se perceber como tal. Sozinho ele não consegue ver que ele é rodeado de privilégios, de facilidades que os outros não têm, mas que para ele não passam de coisas banais, absolutamente normais. E como ele sofre por causa disso! Ter gente dizendo o quanto ele é privilegiado enquanto ele só está andando tranquilamente de mãos dadas com a pessoa que ama: “nada de mais! eu não sou privilegiado, imagina!”. Ele sofre por nunca entender porque estão reclamando que os filmes e comerciais quase não mostram negros, afinal, ele nem tinha percebido que eles não apareciam!

A vida do privilegiado é difícil porque ele tem imensa dificuldade de se colocar no lugar do outro. Não daquele que tem mais, do ricaço que tem lancha, mansão e conseguiu estudar no  exterior, mas daquele que tem menos. Para o privilegiado, é impossível imaginar alguém que não tenha feito faculdade não por escolha, coisa que ele está acostumado a ter, mas por falta de. É sofrível para o privilegiado tentar entender que aos outros é negada a autonomia ao próprio corpo que ele mesmo tem e sempre teve. E como é difícil viver com o privilégio de sequer conseguir imaginar por que tipo de coisa tem que passar uma pessoa que tem menos que ele.

A vida do privilegiado é difícil porque nem se esforçando muito ele consegue fracassar. Ele se ressente por ninguém falar da imensa pressão que ele sofre por poder fazer o que quiser e ser o que quiser na vida. Não é uma dureza viver em um mundo que funciona para não te deixar na pior nem se você quiser?

A vida do privilegiado é difícil porque ele não pode sequer expôr seus sofrimentos sem ser olhado como alguém mesquinho, que reclama de barriga cheia. Quando o assunto é violência contra negros, contra gays, contra transexuais, contra mulheres, contra pobres, contra índios, o privilegiado sente-se excluído, até revoltado. Ele não consegue aceitar não ser o centro de um assunto e, em sua angústia, entra na discussão para lembrar os oprimidos: “mas e eu? vocês não ligam para o meu sofrimento?”

A vida do privilegiado é difícil porque ninguém leva a sério o seu sofrimento. Seus reclames são transformados em piada e eles não podem nem contar com o politicamente correto (que tanto desprezam) para defendê-los dessas brincadeiras de mau gosto. O privilegiado fica, então, acuado pela insensibilidade daqueles que insistem em apontar seus privilégios e ofendê-los usando essa palavra feia.

Ter gente lutando por coisas que para ele sempre foram tão acessíveis e bobas, isso sim, é querer ter privilégios. Ele, que mora no bairro certo, tem a cor de pele certa, tem o gênero certo e nasceu no corpo certo, é apenas alguém normal que conseguiu superar os obstáculos da vida, sem choramingar para ter privilégios. Mas ninguém reconhece isso.

Uma lágrima desliza sobre o rosto do privilegiado quando alguém fere seus sentimentos ao lembrá-lo de seus privilégios. E então ele enfrenta mais um calvário, que é a terrível sensação de culpa que o corrói por dentro quando ele finalmente percebe que pode ser um privilegiado. Atordoado, ele grita “eu não tenho culpa! Eu não tenho culpa!”, mas, na verdade, está apenas tentando fugir de algo mais doloroso que a culpa, que é a reflexão sobre uma estrutura que sistematicamente beneficia alguns enquanto oprime outros.

O privilegiado sofre porque ele não quer falar sobre isso. Ele não quer ouvir sobre isso. Ele quer poder continuar falando sobre seu sofrimento e dificuldades, sobre ter que pagar mais na balada, sobre ter que pagar impostos enquanto tem vagabundo (sic) recebendo ajuda do governo, sobre não saber como explicar para o filho porque dois homens estão se beijando, sobre o horror de não poder fazer piadas sobre estupro, sobre estar sofrendo censura porque fez um comentário racista que não foi aprovado num blog, sobre a empregada cheia de direitos trabalhistas que não se presta nem a fazer um mingau depois do horário de expediente, sobre ter que se apresentar ao exército enquanto as mulheres ficam na maior vida boa (embora ele, branco, de classe média e com um sargento ou coronel amigo do pai não tenha precisado servir de verdade, ao contrário daquele outro rapaz da periferia, que, mais que querer, precisava servir para conseguir sustento).

É duro ser um privilegiado, eu sei. Por isso o privilegiado precisa de ajuda, especialmente para enfrentar a parte mais difícil: enxergar seus privilégios.

***

“As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.

Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.

Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.

Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.

E assim o mundo começa a mudar.”

Da série de textos sobre Privilégios do Alex Castro. Leiam todos, de um por um. Uma, duas, doze vezes, sempre que você puder, sempre que você sentir aquela vontade incontrolável de dizer que uma minoria está “pedindo direitos demais”, sempre que surgir aquela coceirinha para dizer que os seus problemas sim, são mais graves do que os daquele grupo historicamente oprimido, sempre que você se sentir tentado a desviar o rumo de uma discussão sobre uma sociedade estruturalmente desigual para a culpa que fazem você, coitado, sentir por carregar o peso desses privilégios — até porque, como Alex Castro ainda fez questão de explicar, “ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele.”

***

Você conseguiu contar quantas vezes repeti as palavras “privilégio” e “privilegiado” no texto? Para alguns, vai parecer um descuido grosseiro, “não se repete tantas vezes umas palavra assim, essa autora não sabe escrever, vou lá nos comentários corrigi-la etc”. Por incrível que pareça, isso foi cuidadosamente pensado para ter um efeito. Você sabe dizer por que fiz isso? Sim. Para que o privilégio deixe de ser uma coisa invisível. Quem sabe assim, repetindo a palavra incansavelmente, ela consiga se materializar diante dos seus olhos, ganhar textura, cor, formato, volume e que você consiga perceber os privilégios que te cercam. Que eles são palpáveis, que eles têm peso. Que eles são isso: privilégios.

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A pessoa que não quero ser

04 de April 2013 por Valek

pinterest

Acho muito difícil seguir modelos. ”Quando crescer, quero ser igual (insira pessoa de sua admiração aqui)”. Além de alguns modelos serem simplesmente inalcançáveis, eu não sei dizer que tipo de pessoa eu gostaria de ser. Prefiro seguir por eliminação. Porque sei bem que tipo de pessoa eu NÃO quero ser.

A pessoa que não quero ser se preocupa demais em criticar a vida dos outros e escolhas alheias que nada interferem em sua própria vida.

A pessoa que não quero ser é aquela que faz comentários rudes e constrangedores porque acredita que está sendo “sincera”.

A pessoa que não quero ser é um monolito que acredita que tudo o que sempre foi deve continuar a ser, que não questiona as tradições, que tem pavor de mudanças.

Essa pessoa, a que não quero ser, vai fazer as coisas do jeito mais fácil, vai seguir a cartilha, vai fazer o que é esperado que ela faça.

A pessoa que não quero ser é aquela que não assume responsabilidade pelas coisas que diz ou faz.

Não quero ser a tia resmungona. Não quero ser a pessoa que chuta a poltrona da frente no cinema. Não quero ser a pessoa que coloca o som alto demais sem se importar com os vizinhos. Não quero ser a pessoa que corrige o português dos outros em público. Não quero ser a pessoa que faz montagens toscas para postar no Facebook.

Não quero ser a pessoa que comenta sem ler. Que chama a outra de vadia. Que agride desconhecidos pela internet. Que comenta “como fulana está gorda”. Que faz perguntas indelicadas. Que impede o companheiro de ter vida própria, como outro ser humano independente. Que se define pelas coisas que tem. Que vai limitar alguém por conta de seu gênero. Que se deixa limitar pelo que disseram que é mais adequado ao seu gênero. Que afirma coisas sem saber sobre o que está falando. Que não sabe dizer “não sei”. Que quer ter opinião sobre tudo.

Não ser essa pessoa é o trabalho mais difícil a qual me dedico. É um esforço diário. Então repito para mim mesma, o dia todo “não quero ser essa pessoa, não quero ser essa pessoa”, esperando que, no final das contas, tudo o que me resta ser que não seja essa pessoa me torne uma pessoa um pouco melhor.

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Opinião

28 de March 2013 por Valek

imagesIntellectual-kittyEu não tenho opinião sobre o Lollapalooza nem sobre as bandas que vão tocar no festival. Eu não tenho opinião sobre o Expressionismo Abstrato nem sobre o Romantismo Alemão do século XIX. Eu não tenho opinião sobre o último ganhador de um leão de Cannes na categoria Filme. Ou na maioria delas. Eu não tenho opinião sobre o SBT. Eu não tenho opinião sobre o folder que recebi hoje de manhã.

Eu não me meto a dar opinião sobre tudo que me aparece porque eu não tenho opinião sobre um monte de coisa.

E nem preciso.

Porque a maravilha da opinião, amigos, é que ela é um direito, mas nunca uma obrigação.

***

 

 

Existem as pessoas com as quais eu concordo, as pessoas das quais eu discordo, as pessoas que me fazem mudar de ideia e as pessoas que ignoro.

As pessoas com as quais eu concordo me fazem lembrar, eventualmente, que é impossível concordar integralmente com alguém o tempo todo.

Algumas pessoas das quais eu discordo me fazem perceber que nem sempre eu preciso ser inimiga de alguém por discordar de suas ideias.

As pessoas que me fazem mudar de ideia me fazem perceber que eu não preciso ficar de um “lado” para sempre.

As pessoas que eu ignoro, bem, essas me fazem lembrar que eu não preciso ter opinião sobre tudo e sobre todos, todo o tempo.

***

Estes dois pequenos textos foram publicados na minha página do Facebook, onde escrevo uma porção de coisas além dos textos que vocês acompanham pelo blog. Vai lá curtir.

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O casamento é superestimado

21 de March 2013 por Valek

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Frequentemente me perguntam quando é que eu vou me casar. Estou em um relacionamento há 5 anos e com essa pessoa divido as contas e a cama. Se isso não é estar casada, então não sei o que é.

Para os outros, casamento é outra coisa.

As coisas são o que dizemos que elas são. Se definimos que trabalho é aquilo que fazemos em um escritório, sob a supervisão de um chefe, 8 horas ou mais por dia, 5 dias por semana para ganhar dinheiro até o tão esperado dia da aposentadoria, então teremos pessoas perguntando a escritores, ilustradores, freelancers e músicos: “Tá, mas no que você trabalha de verdade?”

As pessoas nem precisam me perguntar isso. A cara delas quando digo com o quê trabalho já denuncia que elas não acreditam que eu trabalho “de verdade”. E com o casamento é a mesma coisa.

Engana-se quem (eu) acredita que seja a união, reconhecida legalmente, entre pessoas que se amam. O casamento é uma ideia muito maior do que isso, uma narrativa mais repetida em nossa cultura do que a história da Branca de Neve, do descobrimento do Brasil ou de Adão e Eva. E, como uma complexa narrativa, o casamento possui um vasto repertório de personagens, rituais, alegorias e simbologias que precisam ser seguidas para que seja considerado “de verdade”.

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Tudo começa com a ideia da alma gêmea.

Ouvimos desde sempre que não é possível ser feliz sozinho. Nos filmes, nas novelas, nos livros e em tudo quanto é história há um par romântico que sabemos estar predestinado ao ou à protagonista. Um exemplo do lobby do casório: quantas histórias de princesas da Disney NÃO giram em torno de casamento?

Assim como esses personagens, só estaríamos felizes e realizados ao encontrar essa alma gêmea. Logo, é esperado que você se case com aquele alguém que faz você feliz — como se não fosse absurdo depositar no outro a enorme responsabilidade de fazer você feliz.

Bem, e nessa narrativa repetida há mais tempo do que eu possa imaginar, o casamento é uma coisa mágica que une duas pessoas em uma só. Duas pessoas virando UMA SÓ, gente. Está até na Bíblia: “já não serão dois, mas uma só carne”. Eu acho isso pavoroso. Prefiro continuar sendo eu, tendo minha própria identidade, e estar ao lado de alguém que também tenha a sua. Mas vá lá; a sociedade considera casamento a criação de um monstro de duas cabeças.

“Então você não está casada com a sua cara metade?” Não. Nem ele nem eu somos metades. Somos seres humanos inteiros. Por experiência, aprendi que não há cilada maior do que buscar alguém que precise de mim para ser completo e ainda esperar que essa pessoa me faça feliz.

até tu, Mônica?

até tu, Mônica?

“Casamento tem que ser na igreja”

Toda essa história de encontrar alguém que nos faça feliz, uma alma gêmea feita para nos completar, reveste o casamento de uma aura mística que as religiões costumam explorar. Afinal, uma união tão especial tem que ser eterna, e para ser eterna tem que ser celebrada numa igreja, diante de deus, certo?

Ninguém precisa ser religioso para saber cada detalhe de um casamento na igreja. Está nos filmes, nas novelas, nos livros, nas revistas, em todos os lugares. A noiva de branco, entrando na igreja levada pelo pai; a marcha nupcial; os convidados acompanhando emocionados o pai entregar a noiva para o noivo, como se fosse uma posse; a troca de alianças; os votos; o momento em que se tem alguém contra o casamento que fale ou se cale para sempre; o “até que a morte os separe”, o “eu os declaro marido e mulher” e o “pode beijar a noiva”, roteiro decorado como fala de filme que a gente assistiu mais de vinte vezes.

Os problemas quanto a isso são dois, e não tem nada a ver com a cerimônia em si ou com quem ESCOLHE se casar assim. 1) Todos esperarem (e cobrarem) que você faça o mesmo, seguindo o roteirinho de subir no altar para se casar, mesmo que você não queira, mesmo que você não veja o menor sentido nisso. 2) A igreja deter o monopólio sobre o casamento, não aceitando como verdadeira qualquer união que fuja desse roteirinho.

Dispensar a aprovação da igreja nesse aspecto da sua vida não é o suficiente; ela, não satisfeita, tenta interferir nas leis CIVIS para impedir qualquer tipo de casamento que não a agrade.

“Esse negócio de se casar com uma pessoa do mesmo sexo não está no script! Meu deus, vocês estão estragando nossa historinha mágica! Han? O quê? Eles não vão se casar na igreja? Ah, não importa, o casamento é propriedade nossa! E se a gente não foi convidado para a festa, aí é que não vamos permitir que se casem MESMO. Hmpf.”

Será que é tudo pela festa?

Perguntaram para o meu sogro quando é que ele ia tomar vergonha na cara e se casar “de verdade” com a mulher com quem já vive há anos. É claro que a resposta que esperavam era quando seria a festa de casamento. Então ele respondeu: “Mas a gente casou. No cartório, sozinhos.” Achei genial.

Começo a suspeitar que só existe toda essa cobrança para que o casamento seja como manda o figurino porque esse roteiro inclui uma festa. E quase todo mundo adora festa. Então, quando me perguntam quando é que vou me casar, devem estar querendo saber mesmo é “quando você vai pagar para eu me empanturrar de bebida e coxinha de catupiry, dançar até cair, comer bolo e posar para as fotos com o vestido novo que eu não vou poder usar em outra ocasião?”

Então talvez seja por isso que tanta gente fica brava com casamento de pessoas do mesmo sexo: porque sabem que homofóbicos não serão convidados para a festa.

A grande dificuldade, afinal, é aceitar o diferente.

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A vida é um roteiro com cenas bem definidas, em que cada um de nós recebe um papel. Quem transgride esses papeis um tiquinho de nada é rejeitado. Porque olham para a vida do “diferente” e não conseguem entendê-lo. Não conseguem encaixá-lo em rótulos que já conhecem. Aí o cérebro trava.

Porque tudo isso é sobre o furor das pessoas que tentam, a todo custo, enquadrar o outro numa norma própria. Medir o mundo usando a si mesmo como régua.

Quem é que vai dizer que eu sou casada “de verdade”? Uma festa de casamento? O papa? Uma aliança no dedo? Um pedido de noivado? Um status de relacionamento no Facebook? Pelo menos nos meus documentos, o que vai dizer é uma certidão. Mas e na minha vida pessoal? Quem é que tem o direito de determinar isso? Minha família? Você?

E a principal questão: por que isso importa?

Tudo isso é superestimado. Especialmente a diferença que faz para os OUTROS algo que é, ou pelo menos deveria ser, totalmente PESSOAL.

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Valores da família

12 de March 2013 por Valek

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Não é lindo quando um político fala que defende os valores da família? Não que defende coisas palpáveis, como água encanada para todos, ou uma reforma no Ensino Médio, ou a construção de uma cidade subterrânea, ou a arrecadacão de impostos sobre a beleza, mas sim os “valores da família”. Essa coisa indiscutivelmente importante, mas que ninguém explica o que é.

Justamente por ninguém nunca dizer o que isso significa, é que podemos fazer um breve exercício de imaginação para preencher com algum sentido os “valores da família”. Que valores são esses, afinal?

Valores da família são as pequenas hipocrisias que mantêm a sociedade unida, apesar de tudo.

Valores da família são os momentos de constrangimento nas festas de fim de ano. É reencontrar a prima e dizer que ela emagreceu só pra parecer educado. É dizer para aquela parente distante que você nunca visita: “nossa, como você está sumida!”

Valores da família são os pais projetando nas crianças o que eles sempre quiseram ser mas não puderam, porque precisavam trabalhar duro e ganhar dinheiro para um dia poder ter filhos. É não querer que o filho assuma que gosta de rapazes por medo do que os vizinhos vão falar. É poder dar beijo de língua nas primas, porque elas não são exatamente família, né?

Valores da família são a macarronada e o frango assado de todo almoço de domingo com os pais. É a desculpa que todo mundo dá para não lavar a louça depois. É dividir o quarto com o irmão e ele pegar suas coisas sem pedir. É a mãe ver que a família está desmoronando quando encontra maconha na gaveta da filha. Ou uma camisinha. Ou um DVD do Rafinha Bastos.

Valores da família são os casamentos que não acabam por preguiça. Ou medo. Ou porque “o que iam dizer, meu deus?”. É poder criticar as escolhas daquela sua sobrinha artista, que não fez concurso público. É esperar que os seus filhos tenham a mesma religião que você.

Valores da família são as bonecas caríssimas que você dá para sua neta, mesmo que ela tenha pedido o boneco do Batman. É ser adolescente e gritar dramaticamente “eu nunca pedi pra nascer!” se a mãe ameaça dar bronca. É ir transar na casa do namorado ou da namorada porque os pais dele ou dela se importam menos com isso. Ou preferem nem imaginar o que vocês estão fazendo.

Os valores da família incluem todos os pitacos que você pode dar na vida dos seus parentes. Ou os comentários invasivos que você pode fazer sobre a família dos outros. Exatamente como fazem alguns políticos, ao acreditar que aqueles que não têm uma família com pai e mãe casados na igreja, filhos heterossexuais e casa própria sejam menos família, com menos valores.

Para os defensores dos “valores da família”, a família é um monólito. Um conceito estático e imutável que deve estar sempre acima de tudo e de todos. Como se as famílias deles valessem mais que as outras. Como se as famílias que eles consideram “certas” não estivessem cheias dessas pequenas controvérsias e momentos de constrangimento. Como se existisse família “certa”.

Nesse caso, não são os valores da família que precisam de defesa; mas nós é que precisamos nos defender de seus defensores.

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O que as palavras dizem sobre nós

28 de February 2013 por Valek

“Não pode xingar o coleguinha porque é feio”. Eu, se tivesse filha ou filho, ensinaria de outra forma. Quando você xinga alguém, está dizendo mais sobre você do que sobre aquela pessoa. Basicamente, os xingamentos que você usa só servem para revelar o quão babaca você é.

Não se trata de, ao chamar alguém de “viado”, estar dizendo que o “viado” é você. Isso lembra aquelas discussões de crianças em que uma chama a outra de “bobo”, e a outra, por não ter argumentos melhores, responde que “bobo é você”. Não é nada disso. Xingar alguém de “viado” ou “seu gay” significa apenas que você não amadureceu o suficiente e considera que uma orientação sexual seja ofensiva. Ofensivo mesmo é nos dias de hoje “gay” ainda ser usado como xingamento.

Da mesma forma, chamar uma mulher de “vadia”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” (é impressionante como não falta repertório para nos agredir) não diz nada sobre quem é essa mulher. Diz apenas que você é alguém que acredita que a conduta sexual de uma mulher define seu caráter. Que fazer sexo desvaloriza uma mulher, e, portanto, a torna merecedora de agressão. O curioso é que esse xingamento surge mesmo em situações que não têm nada a ver com sexo, como uma briga de trânsito ou uma rivalidade no ambiente de trabalho. Isso ainda diz mais: diz que para você importa mais a vida sexual dela do que qualquer coisa que ela tenha feito. Diz que você é alguém que agride outra pessoa por especular sobre o que ela faz com a buceta dela. Meio ridículo, não acha?

Ainda há os que tentam ofender uma pessoa chamando-a de gordo ou gorda (entre outras variações mais pejorativas). O negócio é que às vezes a pessoa é mesmo e sabe disso. Oras, ela tem espelho em casa. O problema está em quem usa isso como ofensa: na cabeça desse tipo de gente, ser gordo é algo ruim, negativo, motivo de vergonha. Quem aponta como falha de caráter e motivo de ofensa uma característica física como qualquer outra é que deveria ter vergonha. Porque ao dizer isso, você está se revelando uma pessoa pequena que se incomoda com o corpo dos outros. E todo mundo está vendo.

Aliás, só o fato de xingar alguém já diz muito sobre você. Se você faz isso, está dizendo que não consegue atacar o argumento e por isso ataca o argumentador. É alguém que, na impossibilidade de conciliar, deixar pra lá ou argumentar, agride.

As palavras revelam quem você é, e isso não vale apenas para xingamentos.

No dicionário, a palavra “vulgar” significa algo comum, banal, ordinário. Mas quem usa “vulgar” para se referir (olha que surpresa) ao comportamento de mulheres deu um significado totalmente novo à palavra: “vulgar” tornou-se a mulher que chama atenção, que veste roupas curtas, que dança funk, que beija muito, que não se comporta como uma dama, que “não se dá valor”. Muita gente usa essa palavra para designar qualquer coisa que tenha algum teor sexual: uma música pode ser vulgar, uma roupa, um livro, um programa de TV, uma pose. Se fosse só isso, tudo bem. O problema é que usam essa palavra para dizer que algo com algum teor sexual é, necessariamente, algo negativo. Não sei vocês, mas eu acredito que negativo mesmo é achar que sexo (e a liberdade sexual dos outros) seja algo tão condenável.

Um caso intrigante é quem usa o termo “politicamente correto”, geralmente acompanhado de uma escarrada metafórica no chão, para se referir a quem os chateia com questões como racismo, homofobia, machismo e que tais. Ser politicamente correto, aparentemente, significa ser chato, algo incomparavelmente mais “grave” do que distribuir agressões racistas, homofóbicas, machistas ou preconceituosas de modo geral sob o pretexto de estar apenas exercendo seu direito de liberdade de expressão. Não é preciso muito esforço para descobrir que quem usa essa expressão de forma pejorativa (ao mesmo tempo em que glorifica o termo “politicamente incorreto”) está gritando aos quatro cantos que não sabe o que significa liberdade de expressão e tampouco sabe como funcionam as coisas no mundo adulto: você é livre para dizer o que quiser, mas precisa aceitar as consequências do que diz.

É fácil entender uma pessoa se ela usa a palavra “mulherzinha” para ofender um homem; ou se ela xinga um negro de “macaco”; ou se começa uma expressão com “não sou preconceituoso, mas”; ou ainda se usa a palavra “vadia” de forma empoderadora; ou se fala “orientação sexual” ao invés de “opção sexual”; ou se fala em “patriarcado”; ou ainda se fala “a Babilônia vai cair”; ou até se escreve “deus” sempre em letra minúscula. As mesmas palavras que usamos para definir coisas e dar significado ao mundo à nossa volta também nos definem e nos revelam. A questão é: o que queremos que as palavras digam de nós?

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Gatos são mulheres que não se dão ao respeito

25 de February 2013 por Valek

Poucas expressões na língua portuguesa são tão escrotas quanto o “você tem que se dar ao respeito”. Além de soar mal, não faz muito sentido. Mas, como todas ouvimos isso desde pequenas, sabemos bem o que isso significa: temos que ser mulheres direitas, que não falam palavrão, não gostam de sexo, não mostram partes demais do corpo, não bebem, não se divertem. Uma mulher que se dá ao respeito comporta-se de acordo com regras que ninguém sabe quem inventou, e, por estarem aí há muito tempo, ninguém se incomoda em questionar “por que merdas ainda seguimos isso?”.

As “mulheres que não se dão ao respeito” são tão desprezadas e temidas porque não estão sob controle. Tem coisa que mais tira a sociedade do sério do que uma mulher que não pode ser controlada? Talvez tenha: um animal doméstico que não pode ser controlado.

Um gato é muitas coisas, menos obediente. Você pode tentar ensiná-lo a dormir apenas na caminha que você arrumou para ele, mas, se ele quiser, vai se esparramar na mesa de jantar e tirar uma soneca ali mesmo. Ele vai subir na geladeira, entrar em armários e gavetas sem a sua permissão e não vai esperar pela sua aprovação para eleger a cadeira do seu escritório como o lugar onde ele vai passar a tarde dormindo – e deixar uma espessa camada de pelos.

Assim como as mulheres ditas vulgares, gatos são vaidosos e entregues aos prazeres que consideramos imorais, como a autonomia ao próprio corpo. Não têm vergonha de exibir sua anatomia perfeita, sua confiança ao andar e um olhar que apenas quem é dono de si consegue ostentar. Com a mesma falta de vergonha, deitam-se como esfinges ou derramam-se com a pança à mostra, porque não consideram que suas barriguinhas salientes sejam ofensivas ou até mesmo indesejáveis.

A sensualidade dos gatos constrange os mais moralistas. Seu andar rebolativo, a cauda em riste para indicar que está de bom humor, o miado fino e dissimulado emitido para cativar os mais sensíveis, tudo é tipicamente feminino.

Gatos são vadias. Esfregam-se, massageiam, rebolam, fazem charme e lambem sem pudores. Para alguns, mostram-se reservados e até mesmo ariscos; para outros, doam-se com intensidade, ainda que não permitam que sejam dominados. Não adianta exigir ser amado por um gato ou acreditar que você tem o direito de receber qualquer sentimento de um felino. O amor é dele e ele dá para quem quiser. Assim são as mulheres que não se dão ao respeito: amam quem querem, quando querem, do jeito que querem. Odiá-la por não ser correspondido é ser incapaz de amar alguém que seja livre.

É por essas e outras que gatos e vadias atraem ódio e incompreensão. Não é raro ouvirmos, geralmente vindo de quem não conhece gatos nem nunca conviveu com um, que estes animais são “traiçoeiros”. Mulheres que vivem sua sexualidade livremente, da mesma forma, são consideradas “sem caráter”, como se conduta sexual pudesse determinar se você é uma pessoa boa ou má. E não é que as vadias e os gatos também têm em comum a tendência de serem julgados como “interesseiros”?

Tanta liberdade incomoda. Não é por acaso que mulheres que tenham saído um pouquinho da linha e gatos sejam alvos de tanta violência. Os que não aceitam o comportamento nem de um nem de outro recorrem aos argumentos mais intolerantes possíveis para justificar a violência que empregam como punição por não poder dominá-los: “gatos são animais do demônio”, “com essa roupa curta, é claro que ela estava pedindo”, “gato bom é gato morto”, “não se dá ao valor e ainda quer ser respeitada”.

No final das contas, a aversão a gatos e o uso da expresão “você tem que se dar ao respeito” são boas formas de descobrir quem é que não consegue lidar com a liberdade dos outros. E, pessoalmente, quem eu vou evitar a todo custo.

***

Tem um texto bem completo falando sobre a relação dos gatos com o feminino em diversas culturas. Leiam.

Mais textos felinos:

Vadio, mas ela gosta
Zen gatismo
Viver com gatos

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Quando a ficção não funciona

02 de October 2012 por Valek

Quantos livros já fizeram você chorar? Eu mesma não saberia responder a essa pergunta. Mas vamos lá, pense. Quantas vezes você já se envolveu tanto com um personagem a ponto de chorar por sua morte ou por um momento de superação?

Bem, você sabe que, pelo menos na maioria das vezes, aquele personagem não existe e as coisas pelas quais ele passou na história não são reais. Ainda assim, você sente aquele aperto no peito quando ele passa por situações difíceis, ou sorri quando o personagem se dá bem, ou é tomado por ansiedade quando ele passa por um momento de tensão, ou ainda derrama algumas lágrimas quando ele morre.

A leitura é uma incrível tecnologia de simulação de realidade. Você incorpora os personagens. Você vive o que ele vive, vê o que ele vê, sente o que ele sente.

Talvez nada nessa vida consiga nos apresentar tão bem a essa experiência quanto a ficção. Ler ficção é, acima de tudo, desenvolver a habilidade criativa de ser outra pessoa. De viver o mundo dessa pessoa. De estar na história dessa pessoa.

Mas tem algo errado aí. A ficção está fazendo seu trabalho, e muito bem, como sempre fez, mas muita gente é incapaz de viver essa experiência. Ou de passar essa experiência dos livros para a vida real.

São pessoas que não percebem que cada pessoa ao seu redor é um ser humano tão único e complexo quanto elas próprias. E que cada um desses seres humanos é protagonista de sua própria história.

São pessoas que não veem problema em determinado tipo de piada, porque se elas não se ofenderam, então não deve ofender mais ninguém. São pessoas que, se conseguiram alguma coisa na vida, acham que todo mundo que se esforçar como elas também vai conseguir. São pessoas umbiguistas. Para elas, pessoas diferentes do seu padrão ou são inconcebíveis ou são inaceitáveis. Ou não existem, ou não deveriam existir.

São pessoas que não se incomodam em serem estúpidas e babacas com os outros em comentários na internet, já que não imaginam que há uma pessoa do outro lado, muito menos tentam se colocar no lugar dela.

E o papel da ficção é justamente esse. A ficção permite que a gente se coloque no lugar do outro. “A literatura nos ensina que existe um Outro e que ele é diferente de nós”. Mas não está funcionando. O que está faltando? Se nem a ficção é capaz de ensinar a essas pessoas o que é empatia, então o que será?

Talvez você concorde comigo: ler é bem mais que juntar letrinhas. E a melhor leitura é aquela que não só ofereceu boas horas de entretenimento, mas aquela que fez de você mais humano.

Todas as imagens desse post foram tiradas do site Underground New York Public Library. Esse projeto é um bom exemplo do que é uma pessoa exercitando a empatia. Vale a visita.

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Zerei mais um livro

25 de September 2012 por Valek

Não me lembro de ter lido um livro tão rápido desde Como a Starbucks Salvou a Minha Vida. Mas a leitura de Jogador Nº1, de Ernest Cline, é tão viciante quanto videogame: depois que você começa a jogar, não tem como parar antes de zerar.

Já disse que ando muito fã de ficção para adolescentes. Jogador Nº1, no entanto, não foi criado para ESTA geração de adolescentes. Quem foi adolescente na década de 80 vai curtir muito mais o livro e as inúmeras referências à cultura pop da época. Os adolescentes de agora vão curtir também: o livro é sobre uma juventude imersa em uma realidade virtual hiperconectada.

Essa realidade virtual é um sistema chamado OASIS, onde se passa a maior parte da história. OASIS é uma espécie de “Second Life”: as pessoas se conectam ao jogo, criam seus avatares, fazem compras e negócios, estudam, se relacionam, ou participam de missões e batalhas, como em “World of Warcraft”. Tudo isso em uma imersão bastante realista.

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A história começa quando o criador desse jogo, o multibilionário e geek James Halliday, morre. Em seu testamento, transmitido para o mundo todo via OASIS, Halliday revela que deixará toda a sua herança para quem encontrar um easter egg que ele escondeu no jogo. Para encontrá-lo e vencer o jogo, o jogador precisa encontrar as três chaves (de cobre, jade e cristal) e passar por três portões.

O detalhe é que Halliday viveu sua adolescência nos anos 80. Ele é um super nerd. Então é claro que as pistas e desafios para encontrar o easter egg são todas relacionados a jogos, filmes, bandas e personagens da sua década favorita.

Doidos para colocarem as mãos na fortuna de Halliday, aparecem milhões de “caça-ovos”, jogadores que passam a estudar obstinadamente sobre a cultura pop dos anos 80 e revirar o OASIS em busca de alguma pista.

Cinco anos se passam e ninguém encontra nada. Até que aparece um nome no Placar, indicando que alguém conseguiu chegar à primeira chave: Parzival. O nome do avatar de um rapaz de 18 anos que mora em uma favela às margens de Oklahoma. Wade Watts, narrador do livro.

É um jogo. Com páginas no lugar do joystick.

O mais legal de Jogador Nº1 é que a narrativa é mais parecida com um jogo de videogame do que com um romance. O leitor passa, junto com Wade, por vários desafios, sobe de nível, pega itens raros, participa de batalhas, faz aliados e quebra a cabeça para descobrir o significado dos enigmas deixados por Halliday. Exatamente como em um jogo de aventura.

Depois que Wade (Parzival, dentro do OASIS) consegue a primeira chave, começa uma disputa alucinante. Art3mis, Aech, Daito e Shoto são outros avatares que estão no páreo e ficam no topo do Placar a maioria do tempo.

O problema é que a “caça ao ovo” não é uma inocente brincadeirinha de adolescentes gamers. Há uma fortuna em jogo. A IOI (ai-ou-ai), uma corporação gigantesca e inescrupulosa, está disposta a tudo para vencer esse jogo. Cheia de recursos, trapaças e uma equipe inteira de especialistas, ela coloca avatares de seus funcionários dentro do OASIS (os chamados Seis) para encontrar o ovo e colocar as mãos na herança de Halliday.

Um futuro negro aguarda os usuários do OASIS se a IOI vencer o jogo. De posse do OASIS, a empresa pretende acabar com a liberdade dos usuários de usar o sistema de graça, restringindo assim o acesso de uma parte importante da vida das pessoas. Seria como alguém cobrar pelo uso do sol.

Muito mais que correr para ser o Jogador Nº1, os “caça-ovo” precisam vencer o jogo para impedir que a IOI tome o que lhes é mais precioso: o OASIS.

“Sair de casa é superestimado”

Uma das questões muito abordadas no livro é essa divisão entre “real” e “virtual”. Embora toda a construção da história leve a acreditar que existe essa divisão, pelo fato dos personagens criarem “avatares” com uma aparência bem diferente e não possuírem na vida real a mesma popularidade ou recursos que possuem no jogo, entre outras coisas, eu percebi que não: real e virtual são a mesma coisa.

E não apenas em Jogador Nº1. Podemos não ter um sistema tão sofisticado como o OASIS, mas vivemos imersos em uma realidade virtual. Criamos avatares para transitar por esse mundo, muitas vezes, drasticamente diferentes do que somos na vida real.

Acho que o livro acaba mostrando o quanto essas duas realidades estão conectadas. As ações de Parzival dentro do jogo influenciam o que acontece fora dele – até mesmo colocando em risco o próprio Wade. Da mesma forma, coisas que Wade faz no mundo real são determinantes para mudar o destino do jogo.

O que fazemos na internet também faz parte das nossas vidas. Insistir nessa separação entre real e virtual é negar que o que fazemos na internet nos define e tem o poder de impactar o mundo “offline”. É se apegar a uma visão bastante caduca. É abrir margem para que as pessoas fujam da responsabilidade de assumir as consequências do que fazem na internet. É não reconhecer que o chamado “ativismo de sofá” é sim capaz de mudar uma realidade. Porque se por um lado a internet é usada por pessoas irresponsáveis que disseminam ódio e preconceito, ela pode ser usada para disseminar informação – a arma mais efetiva para mudar a mente das pessoas.

Você, em algum nível, é seu avatar. A diferença é que, assim como quando Wade entra no OASIS e se torna Parzival, você tem poderes inimagináveis quando está conectado. A questão é: você também usa seus conhecimentos para lutar pelo mundo no qual você acredita?

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As feministas é que são chatas

05 de July 2012 por Valek

Alguns acham que fãs de futebol são chatos. Outros insistem que chatos são os evangélicos. Outros discordam, acham que chatos são os gays. É particularmente difícil determinar a chatice que define um grupo de pessoas, mas parece haver um consenso sobre as feministas: elas é que são chatas.

É claro que existe um universo de chatice explorado diariamente, mas a chatice das feministas é de uma proporção tão gigantesca que a chatice de pessoas desagradáveis como as que assoviam para você na rua acabam passando em branco.

Tem gente que diz que mulher não pode sair de roupa curta. Tem que se valorizar. Mas sair sem maquiagem não pode, tem que ser feminina. Outros dizem que tem que alisar o cabelo, porque cabelo crespo ou indomável não pode ser bonito. São pessoas que vão olhar para alguém que não se encaixa no padrão e dizer “ih, você precisa se cuidar”. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar. Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.

~chatiado~

Tem gente que diz que, se uma mulher não quer transar com um cara que foi legal com ela, ela é uma vaca por deixá-lo na friendzone. Mas tem gente que também diz que se a mulher transa com quem quer, quando quer, ela é uma vadia. Há quem diga que o sexo desvaloriza a mulher, então ela precisa se “guardar”. Essas pessoas devem achar que buceta se desgasta com o uso. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que diz que homem não serve pra cozinhar. Que é um completo retardado que não é capaz de fazer sozinho a mais simples das tarefas domésticas sem fazer algo errado ou sem chamar a mulher para ajudar, afinal, ela é que foi feita pra isso. Essas pessoas também dizem que homem é uma criatura rasa e descontrolada que vai querer enfiar o peru em qualquer mulher que vê pela frente. Tem gente que diz que homem com sensibilidade não pode, porque é “gay”. E ainda tem gente que diz que é o homem quem tem que pagar a conta. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que adora quando as mulheres tiram fotos de lingerie e publicam na internet, desde que não sejam gordas, velhas, feias, ou que usem lingerie bege. Tirar a roupa para protestar também não pode. Porque há quem diga que as mulheres até podem lutar por seus direitos, mas não podem “lutar demais”. Essas pessoas é que definem quem pode ficar nua, aonde, por qual motivo e para quem elas devem se mostrar. Mas as feministas é que são chatas.

Querem cagar regra sobre o que a mulher pode ou não fazer com seu próprio corpo. Mas as feministas é que são chatas.

Feministas são chatas porque falam de assuntos que ninguém quer ouvir (porque, quem sabe, se não falassem tanto de estupro, ele magicamente deixaria de existir). Feministas (e estamos falando de homens e mulheres) são as malas sem alça que desconstroem as mensagens da mídia e questionam tudo. Tudo porque acreditam na ideia radical que mulheres são seres humanos.

É, as feministas são chatas. E eu, que escrevi isso, devo ser também.

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