AlineValek

O que aprendi na (faculdade de) publicidade

06 de February 2012 por Valek

Foi na colação de grau, semana passada, que minha passagem pelo curso de Publicidade e Propaganda foi definitivamente encerrada. Ufa. Como vocês acompanharam parte importante da minha vida acadêmica pelo blog, achei que seria o melhor momento para compartilhar um pouco do que aprendi nos últimos quatro anos.

Primeira lição, crianças: publicidade não é mágica

Nem foi preciso tudo isso para aprender o mais importante

Sei lá quantas disciplinas fizeram parte da minha grade curricular. Mas tudo, tudo mesmo, poderia ser reduzido a três grandes ensinamentos que tive logo nos primeiros semestres.

O Prof. Delamare, em uma de suas primeiras aulas, deu a melhor definição do que é um publicitário: “é aquele cara que consegue conversar, no mínimo, dois minutos sobre qualquer assunto”.

Na época, eu achava difícil imaginar como seria possível saber sobre tanta coisa. Não só é possível, como é necessário. Tanto que até hoje busco saber sobre os mais variados assuntos, porque sei que vou precisar usar em algum momento. Cada job também é um aprendizado. Aposto que consigo conversar mais de dois minutos sobre previdência complementar. Mas é melhor mudar de assunto, né?

não sei do que cês tâo falando, bicho

 

Criar conceito, destruir preconceito

Aprender a criar um conceito forte para vender a marca ou o produto é essencial. Mas, antes disso, eu aprendi algo mais importante. Adivinha com quem. É, foi o Prof. Delamare que jogou a real: “como publicitários, vocês vão ter que, muitas vezes, vender produtos que vocês não gostam, falar sobre coisas que vocês não gostam, falar com um público que vocês não gostam.

Ele deu um exemplo: o job era fazer um anúncio para uma coletânea de música brega. Você não gosta, mas você vai ter que falar dos pontos positivos do produto para conseguir vender. E aí?

E aí que preconceito não combina com a profissão. Bem, não é o que a gente vê por aí: publicitários super descolados, aparentemente com uma cabeça aberta, mas que no fundo são um poço de ignorância. Não os julgo, é mesmo muito difícil abrir mão dos preconceitos.

Nunca me esqueci do que o Delamare ensinou. Isso mudou a minha vida para sempre. Aprendi que, antes de torcer o nariz para qualquer coisa, é preciso conhecer aquilo. Ver o outro lado. Entender porque as pessoas gostam. Entender porque não gostam. Enfim, entender as pessoas. Claro, ainda tenho preconceitos. Acabar com eles é um trabalho diário.

Também aprendi sobre redação

Foi no mesmo semestre que comecei a estagiar em uma agência que conheci a Raquel Cantarelli, professora de Redação Publicitária. E foi quando ela me ensinou a máxima: “o texto precisa ser uma conversa”.

Parece simples, mas é. Isso determinou muita coisa no meu trabalho como redatora e em todos os meus textos. Inclusive aqui no blog. Esse ensinamento foi muito além da publicidade. E acho que isso importa mais do que qualquer coisa que eu tenha aprendido com diretores de criação ou com textos de redatores pica grossa.

O que a faculdade não ensinou

Coitado de quem terminou o curso achando que está preparado. A faculdade não ensina nem metade do que é ser publicitário. Coisa que só aprendi mesmo na prática, por mais que eu ainda tenha o que aprender.

A faculdade não ensina a escrever, coisa que a gente vê quando recebe alguns briefings. Não ensina que foi você quem estudou para fazer aquilo, mas a palavra final é do cliente, então engole aí o orgulho e refaz.

A faculdade também não ensina como é o mercado. Ame-o ou deixe-o, esse é o mote. A publicidade exige que você seja apaixonado por ela, porque você vai precisar abrir mão de muita coisa para continuar nela. Por causa dela, vai ter que lidar com gente com mais ego do que ideias, ou com mais pretensão do que deveria por ter ideias. Vai ter que calar e ralar, porque amanhã tem mais job na mesa.

vai achando que isso aqui é glamour, vai

Quatro anos é muito tempo. Mas se não fosse trabalhar como publicitária ao mesmo tempo em que fazia o curso, certamente eu não teria aprendido tanto.

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Preguiça de ler

23 de May 2011 por Valek

Redatores são constantemente lembrados, seja por recomendações sérias de seus diretores de criação, ou por zoações amigáveis de seus duplas diretores de arte, que as pessoas têm preguiça de ler. “As pessoas não leem. Diminui esse texto, resume aquele ali, dá uma enxugada no título, etc.” Este post bem que podia ser um mimimi de quem ainda acredita que a gente não escreve texto de apoio à toa, que as pessoas lêem sim; eu até queria, mas não vou escrever sobre isso. Preciso concordar que sim, as pessoas têm preguiça de ler. E não falo isso gratuitamente. Tirei isso de um fato recente, do qual muitos de vocês já devem ter ouvido falar.

O livro de português “Viver e Aprender” (parte da coleção didática criada para o Ensino de Jovens e Adultos) virou notícia e assunto na internet. A mídia alardeou que o MEC teria comprado livros que ensinam os alunos a falarem “errado”. O polêmico trecho diz que a pessoa pode falar “os livro”, desde que saiba que, dependendo da situação, pode sofrer preconceito linguístico. Foi o suficiente para o mundo desabar. Absurdo! A educação vai ser nivelada por baixo! Estão acabando com o português! Imagina se o jeito dessa gente pobre falar “os livro” pode ser legitimado, etc, etc.

Não vou me aprofundar na questão linguística, porque já fiizeram muito melhor o Alex Castro, o Diego Jiquilin no blog da Lola, o Helio Schwartsman na Folha, e este artigo na Terra Magazine. E isso para não citar o vídeo onde os escritores Marcelino Freire e Cristóvão Tezza rebatem com bom humor a babaquice da Globo em atacar o livro sem nem saber do que está falando.

Aí entra a preguiça de ler. Com base em apenas um trecho de uma única página, já vimos todos os tipos de comentários afoitos e indignados pelo twitter e blogs afora (principalmente na mídia). Ninguém teve a preocupação de ler um pouco mais sobre o assunto. De entender do que se trata o livro, em que contexto aquela lição “dos livro” estava sendo dada. Muitos nem sabiam que o livro didático é destinado ao EJA e não a crianças.

Boa parte da culpa é da própria educação que recebemos na escola. Aprendemos com base no “certo” e “errado”. O modelo de ensino no qual a maioria de nós foi alfabetizado não contemplava a crítica, o questionamento. E agora que isso está começando a mudar, queremos que a próxima geração continue aprendendo com métodos já ultrapassados?

A escola também falhou, no caso de muita gente, em ensinar a ler. Até na faculdade vemos pessoas com clara deficiência de leitura e interpretação de texto. E é gente “limpinha”, não esses pobres que falam “os livro”. Quando não estão com preguiça de ler, não conseguem entender o que estão lendo.

Mas o pior é quem sequer se dá ao trabalho de entender um assunto ou procurar saber mais sobre ele, e sai por aí falando besteira. Do jornalismo a gente não pode esperar muito mesmo. Até porque, apesar de indignados com o tal livro que relativiza o uso da norma culta, são eles os que cometem erros grotescos, mesmo sendo profissionais que supostamente deveriam falar português impecavelmente. Triste foi ver gente instruída, bem informada, e até redatores (!!!) proferindo comentários típicos de um bobalhão como Alexandre Garcia.

Que ter domínio da língua culta é essencial para quem trabalha com Redação Publicitária, disso não temos dúvidas. Mas a publicidade não seria a mesma se os redatores escrevessem como um promotor público. Olhem para qualquer bom anúncio e vocês verão uma linguagem coloquial, gostosa de ler. Nem na literatura a norma culta é seguida com rigor. Nem você, caro leitor erudito, fala da mesma forma que escreve.

A língua é das pessoas, não dos dicionários e gramáticas. A linguagem é viva, e não é o uso que as pessoas fazem dela que irá matá-la. Pelo contrário. E sobre essa incrível propriedade da nossa língua, Alex Castro diz:

A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.

O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.

Todos comemora.

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Orígenes Lessa, redator

17 de March 2011 por Valek

Sem dúvidas essa foi a descoberta que mais me impressionou nesses últimos dias. Na verdade, sempre fico impressionada quando vejo que tal escritor ou tal poeta também já escreveu para a propaganda, como é o caso por exemplo, de Olavo Bilac e até do autor de Como a Starbucks Salvou a Minha Vida.

Foi no livro de outro redator, Roberto Menna Barreto, que encontrei o nome de Orígenes Lessa. À primeira vista, é um nome esquisito. Mas para mim, é muito familiar. A sensação foi de cruzar na rua com um velho conhecido. E o que ele estava fazendo ali, afinal? No início da carreira de Barreto na publicidade, Lessa era ninguém menos que o redator mais foda da JWT, lá pelo final dos anos 50.

 

Nunca vi sequer uma peça publicitária dele. Mas a sua escrita eu conheço desde bem antes de saber que existia a profissão de redator. Ele já figurava nos meus livros escolares e foi o autor de dois dos livros que marcaram a minha infância: Memórias de um Cabo de Vassoura e Confissões de um Vira-Lata. Geniais. Claro que a bibliografia dele é bem mais extensa, incluindo contos, romances, ensaios e até reportagens.

Daí que o cara volta, comigo já adulta, e mostra que ainda tem algo importante para me ensinar. Dessa vez, não na matéria de Português; mas em Propaganda.

No início do livro “Criatividade em Propaganda”, Roberto conta como foi começar na carreira de redator em uma grande agência. Fala dos bloqueios, dos erros, dos jobs que viravam pesadelos. Não conseguia produzir. Até que um dia, Lessa chegou puto na agência. Tinha acabado de ler um excelente conto do jovem redator, publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil. Não conseguia entender como alguém capaz de escrever algo daquele tipo não conseguia escrever nada que prestasse durante o expediente. Roberto ficou desesperado. Explicou que tentava seguir as regras, mas eram tantas!

Então Orígenes Lessa responde com o que considero uma grande verdade. Reproduzo abaixo:

Roberto, propaganda… é uma merda! O melhor anúncio não vale um bom conto ou um bom poema. A não ser para o imbecil que anuncia e para o imbecil que compra! Propaganda serve sabe para quê? Para se ganhar dinheiro mais fácil. Para se ter tempo! Tempo de escrever, de ler, tempo de produzir coisa séria!

Sabe o que é propaganda, rapaz? Olhe para este lápis. Você tem de fazer um anúncio sobre este lápis. Você fixa este lápis e rebusca na cabeça o que você pode dizer – não importa o que, nem como – capaz de levar o cara que vai ler a comprar este lápis. Você tem de convencer o sujeito, só isso!

E pensando bem, ver as coisas simples assim ajuda bem mais na criação do que acreditar que fazemos anúncios ou as pessoas morrem. Não foi por acaso que Lessa se tornou o redator mais importante da JWT. Ou um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.

 

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Como a Starbucks salvou minha vida

29 de December 2010 por Valek

Imagine que isso seja um briefing: criar uma campanha para a Starbucks, com tudo o que a empresa acredita, que fale sobre os produtos, mas que envolva e emocione o público. Pensou em um filme de 30 segundos, ou em um anúncio inteligente com uma baita fotona? Um redator fez bem melhor do que isso. E nem era job.

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Ainda não sei dizer porque esse título me chamou tanto a atenção, se caberia muito bem em um livro de auto-ajuda. Só sei que ele estava lá, em alguma seção aleatória da livraria, e eu o peguei. Eu nem queria comprar um livro. Mas se a história fosse tão cativante quanto o resumo da quarta capa, então quem sabe valesse a pena?

É basicamente isso: o livro conta a história de um ex-diretor de criação da JWT de Nova York, que se vê na rua da amargura quando é demitido aos 53 anos. Velho, falido, divorciado, com um tumor no cérebro e nenhum plano de saúde, Michael Gates Gill recomeça do zero quando aceita o emprego de servir café em uma loja da Starbucks.

Confesso que a primeira sensação ao pegar o livro foi schadenfreude: era a história real de um publicitário poderoso que perdia tudo na vida. Mas não teve como não me identificar com o personagem, ainda mais depois de descobrir que Mike era redator.

A narrativa é uma delícia. Pude acompanhar Mike e sentir sua dificuldade em se adaptar ao novo emprego e ao novo estilo de vida (tendo que pegar trem e metrô durante uma hora e meia de viagem, todo dia, para chegar à Starbucks da 93 com a Broadway), ao mesmo tempo em que conhecia um pouco de seu passado em flashbacks na medida certa.

Mas não é esse o ponto que me levou a escrever este post.

Mike conseguiu nesse livro o que talvez nenhuma de suas campanhas premiadas tenha conseguido em sua carreira publicitária: ele mostra um lado da Starbucks que poucos conhecem, e envolve o público com o universo da marca, de uma forma que a publicidade tradicional não conseguiria.

Fiquei apaixonada pelo ambiente de trabalho que ele descreve, pela relação da loja com seus consumidores, pela relação dos funcionários com a loja, e pela variedade de cafés que ele apresenta durante a narrativa. Se eu não conseguir um emprego lá, quero pelo menos sentar e tomar um Tall Latte. É, histórias têm esse poder.

Atingir o público dessa forma, conseguir essa ligação com sua marca, e até quem sabe, fazê-lo chorar (como eu chorei várias vezes), não é, afinal, o objetivo da publicidade?

Não estou dizendo com isso que o livro seja uma propaganda deliberada para a Starbucks. Ele não é. A questão é perceber que, para ser mais efetiva, a publicidade precisa parecer cada vez menos com… publicidade.

Pessoas: é o que importa quando você trabalha com comunicação... ou servindo café

Mike ao lado de Crystal, a gerente de Starbucks que lhe deu um emprego

Quem faz parte de uma geração old school da propaganda (como Mike) ainda vai demorar para entender que hoje vale mais se aproximar das pessoas para levar experiências legais ligadas à marca do que uma superprodução de 30 segundos na Globo.

Se você é publicitário, vale a pena ler “Como a Starbucks salvou minha vida” sob essa perspectiva, e refletir sobre este aspecto da nossa profissão. Mesmo se não for, a leitura é deliciosa. É como um bom copo de café: você precisa experimentar.

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Tesão e trabalho

14 de September 2010 por Valek

Isso de ser redator não é para quem gosta de escrever. E para a gente começar a conversar, você precisa ter bem claro na cabeça que uma coisa é ser redator; outra é gostar de escrever. Acontece de alguém entrar nessa e pertencer aos dois conjuntos (nossa, eu não uso esse termo desde as aulas de matemática na primeira série). Mas uma hora, esse alguém: a) de tanto ser redator, deixa de gostar de escrever; ou b) por gostar tanto de escrever, desiste de ser redator. Bem, estou há pouco tempo na profissão. Então tudo o que posso dizer é que ainda estou na fase de ser redatora e gostar de escrever.

Por que são duas coisas bem diferentes? Basicamente, gostar de escrever significa tesão. É aquele prazer em criar as próprias histórias, dar vida aos seus personagens, escrever o quanto e o quê vier na telha. Claro que envolve boas doses de sofrimento e angústia criativa. Mas ainda assim, você faz pelo seu prazer. Algo bem egoísta mesmo. Foda-se as regras, estruturas e técnicas. Quem gosta de escrever, escreve primeiro para si mesmo.

Redator não: escreve sob demanda. Escreve o que o cliente quer, muitas vezes sobre coisas que não gosta, e às vezes nem entende. Precisa ser inteligente, criativo, surpreender. Mas precisa ser persuasivo sempre. E para isso, precisa seguir algumas regrinhas. Claro que envolve a mesma angústia criativa. Muitos tem tesão pela coisa. Mas é bem diferente: você está escrevendo porque é o seu trabalho.

É meio que como ser puta. Ok, todo publicitário é meio puta, por motivos óbvios (aquela velha piadinha: passamos o dia abrindo as pernas para o cliente, sempre chegamos tarde em casa e nossos pais não sabem direito qual o nosso trabalho). Imagine que o seu trabalho é transar a semana inteira, mas prazer mesmo você sente quando transa nas horas de folga – porque quer, quando quer, e com quem quer. Ah, viu só? Quando relaciona com sexo, fica mais fácil de entender.

A vontade de falar sobre isso surgiu quando conheci o blog de uma dupla de redatores. Adorei cada um dos textos. Curtos, precisos, engraçados, uma delícia de ler. E mesmo se eu tivesse chegado ao blog sem saber que era escrito por dois colegas de profissão, eu saberia de cara.

Primeiro, porque estava super bem escrito. Apesar de conhecer ótimos blogs, acho cada vez mais difícil encontrar blogueiros que saibam escrever (atenção, outro ponto importante: saber escrever, gostar de escrever e ser redator raramente são conjuntos que se cruzam).

Outra coisa foi reconhecer em todos os textos cada um dos recursos que o redator usa em seu trabalho. As tais regrinhas da persuasão, sabe? Tudinho ali. É nessas horas que acho uma merda ser redatora. Eu podia simplesmente rir com o texto e achar legal, como a maioria dos leitores fazem. Mas não: leio analisando, como quem disseca uma rã. Aí consigo ver, claro como a água, o mecanismo por trás do texto. Não tem muita graça ver um show de mágico quando você também é um. Fico mais preocupada em entender o truque do que admirar a mágica. “Hm! Olha lá, olha lá! Tá usando retórica aristotélica!” Claro que o texto não deixa de ser bom, mas você entendeu.

É nessa hora que eu me preparo para receber algumas pedradas, mas preciso desabafar. Um texto de blog elaborado assim, para atingir seu público de forma deliberada, do jeitinho que a publicidade ensina, perde boa parte de sua personalidade. Aquela personalidade bem própria de quem gosta de escrever. De quem escreveu pelo tesão, pela necessidade de satisfazer primeiro a si mesmo, para só depois se lembrar (caso se lembre) de que depois alguém vai ler aquilo (caso alguém leia). Coisa de blog raiz, blog moleque. Um texto sem essa personalidade soa profissional demais.

Entendo que hoje em dia, blog é mais do que forma de expressão: também é profissão. Cada blogueiro tem um objetivo, e o de muitos é ganhar dinheiro – nada mais justo e digno. Mas a tal da personalidade dos textos é o maior indicativo de sucesso de um blog “monetizável”, não acham?

Já um texto com estrutura persuasiva está vendendo algo – no mínimo uma ideia. Mas se o texto está lá, supostamente para oferecer o prazer da leitura, e não tem o objetivo de vender nada, ou me convencer de alguma coisa, por que raios foi escrito dessa forma tão publicitária? Assim, só para me convencer que é bom? Esse esforço é desnecessário. Um texto bom não precisa da persuasão para me convencer disso.

Claro que essa é uma visão bem particular de quem está imersa o tempo inteiro em títulos, textos de apoios, e todas as fórmulas publicitárias de escrever. Quando saio da agência, tiro o jaleco de redatora e abro a gaveta dos personagens e das histórias malucas. Imagino que seria deprimente viver o tempo inteiro como redatora. Seria como trabalhar na cozinha do McDonald’s, e ao chegar em casa, preparar um baita Big Mac no jantar.

Aqui eu procuro escrever algo diferente do que preenche a minha rotina na agência. Se quiser ler títulos, recomendo que procure um anuário de propaganda.

Cada post que escrevo é um parto. Em parte, porque sou a leitora mais crítica deste blog. É difícil chegar em algo que me agrade. Também é difícil porque não tenho uma fórmula pronta a seguir. Vou sendo guiada pela tal angústia criativa, e como você já deve ter percebido, não me importo nem um pouco se o texto vai ficar muito grande nesse processo.

É isso mesmo. Lamento dizer, mas a última coisa com a qual me preocupo é em agradar você. Embora seja muito gratificante saber que tenho tantos leitores que leem até o último ponto dos meus textos quilométricos, e ainda me dão feedbacks incríveis, não é essa a minha maior motivação.

Anota aí: no dia em que eu passar a escrever só para o público gostar, pode saber que terei saído da intersecção entre quem é redator e quem gosta de escrever. Nesse dia, eu vou ser mais ou menos como uma puta bem profissional: o que já me deu tanto prazer vai ser só o meu trabalho.

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Briefing de Microconto

30 de June 2010 por Valek

Aquele atendimento fazia bem mais que só encaminhar email do cliente: ele sempre acrescentava um URGENTE no final.

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Retrospectiva em 140 caracteres

30 de December 2009 por Valek

Não importa que o ano já esteja experimentando seus derradeiros momentos, agora que o calendário quase se esgota; a gente só tem a sensação que o ano acaba mesmo com uma daquelas manjadíssimas retrospectivas (ou com a tal maratona de São Silvestre, um clássico dos 31′s de dezembro).

Por mais que eu não seja exatamente do tipo que adoooora um reveillón, que se veste de branco com uma roupa íntima colorida pra chamar dinheiro, que sai por aí estourando champanhes, comendo lentilhas e cumprindo as mais desvairadas simpatias, sinto que alguns rituais têm lá seu gostinho quando cumpridos. É como usar uma espada, com um golpe limpo, preciso e cruel, para arrancar a cabeça daquela criatura que já agoniza, somente à espera de seu golpe de misericórdia. Okay, okay, dramatizei demais. Mas vocês entenderam a essência da coisa, né?

E como esse ano passou voando, rápido e certeiro como uma mensagem de 140 caracteres, nada mais justo que uma retrospectiva à moda do Twitter. Vai aí a seleção dos meus tweets sobre os assuntos mais relevantes do ano. Separei por categorias, caso você seja um daqueles leitores “new generation” que não conseguem ler nada com mais de 140 toques. Sirva-se! (meus comentários aparecem em negrito, assim ó)

Adeus ano velho!!!


#Acontecimentos Memoráveis

1. Na minha cabeça, só consigo aplicar às palavras “ideia” e “linguiça” as novas regras ortográficas.

2.    Opaaa! Dia do desenhista que emoção! (15 de abril, marquem em seus calendários!)

3.    Só sei de uma coisa: um país com nível de escolaridade tão baixo não devia estimular seus profissionais a não fazer faculdade. #prontofalei (sobre a queda do diploma de jornalismo)

4.    Não acredito. Agora até meu pai @elsiosoares tem twitter. O que tá acontecendo com esse mundo?

5.    Parece que a morte de um astro é mais relevante que um golpe de estado. Enqto isso, em #Honduras… http://migre.me/2YEX

6.    A onda conservadora e a batata da onda. Agora só posso comer o salgadinho rosa? http://migre.me/3s2d

7.    Feliz Dia do Escritor! 25 de julho! \o/ (via @robertodenser)

8.    Pela primeira vez, entrei no cheque especial! Sem dúvidas, um momento inesquecível.

9.    Comercial das havaianas: homem sendo objetificado sexualmente e idosa falando de sexo. Não precisou de mais nada para incomodar as pessoas.

10.  Que tipo de roupa um HOMEM precisaria usar para causar a mesma confusão que a “puta” da Uniban? #pense

11.   Meu irmão sobre #Rio2016: “Foda-se, tanto faz. O mundo vai acabar em 2012 mesmo” XD

12.   Copa do Mundo e Olimpíadas inspiram um patriotismo vesgo nas pessoas. #prontofalei

13.   Só alguém com mentalidade muito medieval pra querer dar à internet o mesmo tratamento de rádio e TV nas eleições.

14.   Parece que finalmente estou no GWave, mas não faço ideia de como mexer nisso…

15.   Remember, remember, the 5th november… RT @dbastos saudemos o dia de guy fawkes tentando explodir alguma coisa. todos. agora. comigo.

16.   Eu vi e adorei o ensaio da Playboy com a @youngporra. Minha foto favorita é a que ela está dentro de uma gaiola, vestindo só um corselete…

17.    Qual é o retardo de pessoas que lutam pelo direito de discriminar e ofender gays, sendo contra o PL 122?

18.   I´m an oldschool retweeter! RT @RenataLocutora Eu fico mesmo é com RT raiz, o RT moleque, o RT arte!

19.   Dia mundial de combate à AIDS e ao preconceito. #red (o dia em que o Twitter se pintou de vermelho por uma causa nobre)

20.   Justo no dia em que o #iesb pode ir pelos ares em um atentado contra #Ahmadinejad eu não estarei presente. Tsc. (dia da visita do malucão iraniano ao Brasil)

21.   O que está acontecendo com essas blogueiras que ficam com crise de identidade e fecham seus blogs? Pô…

#Universo publicitário

22. Huahauhau! Calvin explicando muito bem meu processo criativo: http://tinyurl.com/6ptx64 (via @radfahrer)

23. Semana literalmente punk: job de campanha na agência, apresentação do seminário de semiótica, e trabalho final da Funyl. Espero sobreviver.

24. Resultado da semana tensa: Campanha aprovada na agência. Ganhar primeiro lugar na Funyl. Sucesso total no seminário de Semiótica.

25. “Ai ai… Quando vão entender que viral é EFEITO, e não causa – e que não é sinônimo de mal-feito?” Luli Radfahrer

26. O engraçado de ser publicitária: minha mãe não faz a mínima ideia do que eu realmente faço.

27. Ser publicitário é como ser puta. Você trabalha até tarde da noite e seus pais não sabem direito o que vc faz. (essa é do @mr_numbersix)

28. A Bees tem cada ideia de jirico pro IESB, que eu não sei quem é pior: quem cria, quem aprova, ou quem perde um tweet falando dessa merda.

29. Chico Buarque by publicitários: (sen-sa-cio-nal XD) http://filli.blogspot.com/2009/09/desconstrucao.html (ser retuitada pelo Marcelo Serpa: acho que vai até pro meu currículo, hein!)

30. Eu já sei o que acontece quando me dizem: “Vou te passar um job que você vai adorar…”

31. Saber escrever textos curtos e simples é uma arte. No meu caso, uma arte abstrata.

32. A retórica aristotélica é meu pastor e nada me faltará.

33. Jingle bells, Jingle bells. Acabou o título. #JobDeNatal

34. Depois do filme “Atividade Paranormal” tô pronta para fazer muitos jobs fantasmas.

35. Esse negócio de só escrever sob demanda cansa. E muito. #BloqueioMental


#Vida Acadêmica

36. Você acha que pessoas que fazem pesquisas são chatas?

37. Acabo de me tornar mãe. Esse Relatório Final de Pesquisa foi um verdadeiro parto.

38. Eu estava doida pro semestre acabar… mas agora que está acabando, começo a me sentir um pouquinho vazia.

39.    Pra ele não esquecer RT @caviloos: ALINE, GRAVA ISSO EU VOU SER UM ALUNO EXEMPLAR SEMESTRE QUE VEM (e não é que ele cumpriu mesmo?)

40. Menções na faculdade: SS (super star) MS (muita sorte) MM (mais ou menos). Com 3 Super Stars e 2 Muita Sorte, acho que tô bem esse semestre. (mas no seguinte acabei tirando 1 Super Star e 4 MS, de “Muita Sacanagem”)

41. Passei a manhã lendo sobre Semiótica. É impressionante. (mais impressionante ainda é como alguns professores conseguem acabar totalmente com o interesse dos alunos por uma matéria. Dá-lhe, Rita!)

42.    Complicado isso do IESB demitir os professores…

43. Dúvida. Depois de toda a reviravolta no IESB no final do semestre passado, será que pelo menos o prédio continuará lá quando eu voltar?

44. RT @caviloos “Eu odeio o pessoal da minha sala”

45. Eu já disse hoje que odeio as pessoas da minha sala? … Ah, tá.

46. Hoje eu constatei empiricamente que cursar faculdade definitivamente não confere a ninguém inteligência e senso crítico.

47. Tive um insight incrível esse final de semana, que, se não acabar virando meu TCC, vai pelo menos chegar a ser meu pré-projeto. (e vai virar mesmo, me aguardem!!)

48.    Perto da hora de ir para a facul, bate o desânimo. Chego lá e tenho que ouvir cada boçalidade de alguns primatinhas semi-evoluídos. Pff.

49. “Oi, Aline! Ainda não fiz a dissertação de ética, tava pensando em pegar a sua que o prof gostou e mudar o contexto pra entregar pra ele.” – Ajudem-me a criar uma boa resposta pra esse animal.

50. Ao animal que me pediu a dissertação para “mudar o contexto” e entregar para o prof, respondi o email com cópia para TODO MUNDO DA SALA.

51. Uma professora que fala “tipologia” em vez de “tipografia” TRÊS VEZES SEGUIDAS não merece o meu respeito.

52.   Rita Brasil, favor desista de ser professora. Obrigada.

53.   Lição do FDS: A faculdade é um jogo feita apenas para os professores vencerem – não importa o que aconteça.

54. Oficialmente, acabou o semestre mais tenebroso da minha vida acadêmica. Quinto semestre, aí vou eu.

#Polêmicas

55. A imprensa é anacrônica mesmo. Daí a crise. Não percebem q é mt + interessante termos acesso direto à fonte sem precisar deles.

56.    Não tem jeito. Sou fã assumida desse cara, cada vez mais. Ele tinha que ser presidente pelo menos uma vez: @cris_buarque

57. Se existem coisas como coronelismo na nossa política, a culpa é só nossa. Mais do que tuitar, é preciso saber votar e exercer cidadania.

58. Tá certo, já passou da hora dos dinossauros do poder serem extintos. Tirem o Sarney, mas pensem em quem vão deixar entrar agora, PORRA.

59. Mais do que lutar por #forasarney, temos que lutar para que Educação Política seja parte do Ensino do nosso país desde cedo. #prontofalei

60. No blog da Lola: “Meu maior anseio como mulher não é ter filhos, mas sim ser uma mãe capaz de criá-los de uma forma a respeitar o próximo”

61. É impossível haver democracia em um Estado que privilegia a Igreja. Me lembra Idade Média. #foravaticano

62. Ai, que preguiça desse mundo escroto misógino do caralho. [literalmente]

63.   “Não adianta ser sujeito na hora de escolher, se o CONTEXTO pode te transformar em vítima da sua própria escolha.” #lingerieday

64. O mais engraçado é sermos todos miscigenados, fazermos piadas como se fôssemos brancos, e acharmos que ainda assim não existe raça.

65.    Racistas que não se acham racistas: “Se você não vê o problema, então VOCÊ É O PROBLEMA.” (by @AlexCastroLLL)

66. Bom saber que se um cara me dopar e me violentar agora só vai pegar no máximo 2 anos de cadeia. http://bit.ly/p6fgm (via @tuliovianna)

67.   Defender cotas SÓ p pobres é ignorar a diferença gritante entre um pobre branco e um pobre negro. http://migre.me/5kxq

68. Por que RAIOS uma análise política de candidatas a presidenciáveis tem que descer ao nível de “essa dá medo” ou “essa não dá tesão”?

69. “Os resultados nos fazem refletir que a criminalização do aborto está condenando mulheres negras à morte”

70. “A desigualdade leva à religião, e quanto mais religiosas as sociedades, mais desiguais são”

71. Incrível. Pessoas que conseguem acreditar em deus, mas não conseguem acreditar na probabilidade da existência de vida em outros planetas.

72. “A principal função da liberdade de expressão é: sem ela, como saberíamos quem são os idiotas?” Alex Castro

73. Não assumimos que somos privilegiados para continuar acreditando que vivemos em uma meritocracia.

#Cinema

74. Ontem fui assistir UP. O filme é genial, com certeza um dos melh… ESQUILO! …melhores filmes já feitos na história da animação.

75. Hoje assisti ao filme Terra Fria, com Charlize Theron. Quero ver quem é macho de assistir e não sentir o mínimo de empatia pela personagem.

76. Inglorious Basterds: o que posso dizer? Foda. \m/ Não recomendado para maricas.

77. Besouro: super bem produzido, roteiro sem hipocrisia, excelente abordagem sobrenatural, cenas de luta perfeitas. Recomendo! ;)

78. Oh Ewya, por que não nasci em Pandora? #Avatar #QueroSerNavi


#Coisas da Autora

79. A prisão dos 140 caracteres. É agora ou nunca que aprendo a ser pontual ao escrever: ninguém tem todo o tempo e todo o espaço do mundo…

80. “Não te considero uma igual, porque não quero me comparar a uma mulher. Para sermos iguais, você precisa ser homem”: http://migre.me/DbP

81.    All men are caught in an inescapable network of mutuality. Martin Luther King Jr. (essa vai até pra minha apresentação de Sociedade em Rede)

82. Já teve a sensação de que a sua vida é um tetris?

83. Para alguns, organizar os emails e deletar todo o lixo da caixa de entrada é inútil. Para mim, é quase uma terapia.

84.   Quero ser Wikipedista!

85. O Skoob é o meu novo orkut.

86. “Iniciar um blog signfica q um dia ele será abandonado sem comida e sem assunto. Não me tome como exemplo. Jamais abandone seu blog” by @3df

87. Agora eu sou uma quatro olhos! ^^

88. Eu não esperava que meu Desafio Redator valendo convites pra o Gwave e Orkut ia render tanta participação e ideias! http://twitpic.com/quzy4

89. Hoje é dia de Punk’d em massa… Até meus chefes caíram! Putz! (você pode ler mais sobre o incrível caso do aniversário falso aqui)


#Lado Negro da Força

90. Sabe quando a incompetência das pessoas é tão grande que te dá PREGUIÇA ao invés de raiva?

91. Julho só me lembra uma coisa: inferno astral. Mas dia 29 acaba. Queiram os deuses que sim.

92. Caralho, esse nerdcast é muito retardado. Não tenho paciência.

93. Pro inferno essa TIM. “Sem fronteiras” é o abuso desse plano maldito.

94. Estou cada vez mais adepta da misantropia.

95. Se você me acha megera, estúpida, arrogante, ranzinza e intolerante… é, você tem razão. #prontofalei

96. Vou começar a distribuir #unfollow na vida real também.

97. Não passo adiante algo que alguém me PEDIU para divulgar. Sou só eu que sou assim?

98. Pq maldade dá tanto prazer? #SithFeelings (dizem que isso se chama Schadenfreud)

99. Que foi? Se não gostou de algo que eu falei, dá unfollow. Não tuito para fracos.

100. Que os deuses me dêem paciência. Porque se me derem força, eu vou quebrar esse fucking computador em pedaços.

101. Bons tempos eram aqueles de pura selvageria onde você resolvia os assuntos com uma pessoa enfiando um machado no crânio dela.

102. “As pessoas acham que ser um supergênio é divertido, mas não sabem quão difícil é tolerar todos os idiotas do mundo” (Calvin & Haroldo)

103. Pessoas com QI de caramujo deviam ser banidas do Twitter. Unfollow e block é pouco.

104. Frustração é o nome do ano de 2009 para mim. Abs a todos os envolvidos.


Por pouco e seriam 140 momentos de 2009 em 140 caracteres. Mas resolvi parar no 104 antes de encher a paciência de vocês. Se achou pouco, é só me seguir aqui, ué. E nem adianta vir de mimimi, vocês já estão avisados: não tuíto para fracos!

That’s all, folks. A gente se vê em 2010, com post novo e tudo! ;)

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Desafio Redator

30 de November 2009 por Valek

Antigamente, todo mundo queria estar na “crista da onda”, mas hoje a moda é mesmo estar na Wave. Só que o Google, pelo menos por enquanto, está liberando o acesso a esta “inovadora” ferramenta apenas para alguns poucos escolhidos. Já faz algumas semanas que entrei para este “seleto” grupo de usuários iniciais, mas foi só dia desses que recebi do Google alguns convites para distribuir para quem eu quisesse. Antes que as pessoas começassem a me pedir achando que é festa de Cosme e Damião, pensei em algo mais interessante para a distribuição.

Então surgiu o Desafio Redator. Qual era o objetivo da brincadeira: criar títulos para a imagem abaixo. Os mais persuasivos e criativos ganhavam convites para o Google Wave (e alguns do novo Orkut que estava comigo dando sopa).

Não imaginei que tanta gente ia participar e que a brincadeira ia render tantos títulos (entre os interessantes e os que fariam meu diretor de criação se jogar pela janela); a página do desafio recebeu cerca de 590 visitas em apenas 1 dia. Antes mesmo de anunciar os vencedores, já estavam me sugerindo que eu comentasse as ideias, e decidi usar o blog (novinho em folha) pra isso. Fiz abaixo uma seleção de alguns títulos para detonar comentar.Então, vamos nelson que a hora é elson.

@MichaelGalli

1 em cada 5 redatores usam a primeira idéia


Já vou começar com a ideia que mais se destacou. Quando a brincadeira começou, os títulos tendiam primeiro para ideias mais institucionais e de conscientização, que utilizavam a fórmula “1 em cada 5″. Algo bem foto-legenda mesmo. E aí aparece alguém com a mesma ideia, mas usando uma “gracinha” metalinguística voltada para o escopo do próprio desafio: o universo do redator. Foi impossível não deixar escapar uma risadinha. O cara fez um título bem “primeira ideia”, justamente para falar sobre redatores que ficam na primeira ideia, satirizando até mesmo a situação manjadíssima da foto-legenda – do qual ele também faz uso. E por isso consegue despertar uma reação. E é esse o objetivo do redator ao escrever um título: encontrar uma maneira de impactar quem está lendo.

Entretanto, essa frase tem um erro gritante de português, e por isso foi desclassificada. O mesmo erro também foi encontrado em vários outros títulos que seguiram a fórmula “1 em cada 5″:


@caviloos

1 de cada 5 brancos gostam de BlackMusic


O erro está na concordância verbal; afinal, ninguém diz “A cada 5 brancos, 1 gostam de Black Music” ou “A cada 5 redatores, 1 usam a primeira ideia”. O certo seria “1 em cada 5 redatores usa a primeira ideia” (e atenção, “ideia” não leva mais acento). Redator pode até ficar na primeira ideia, mas nunca pode descuidar do português.

@ericssonbarbosa

O aborto apaga vidas.

@rafanoris

Uma em cada 5 crianças que navegam pela internet é alvo de pedófilos.

@ericssonbarbosa

Preserve o meio ambiente, evite as queimas desordenadas.


Aqui, alguns exemplos de como as pessoas acham que escrever para conscientização é simples. Embora a imagem possua inúmeras possibilidades, tiveram que forçar um pouco mais a cabeça para chegar em títulos que vendessem produtos. Isso acontece porque escrever mensagens de conscientização é ficar na zona de conforto. Parece que basta colocar “aborto”, “pedófilos”, ou “preserve o meio ambiente” em um título para despertar alguma reação nas pessoas.

É claro que não dá pra passar batido por esses temas, mas um texto precisa ir um pouco além para conseguir despertar uma reação sincera das pessoas. A gente escuta tanto sobre “preservar o meio ambiente”, que a frase já está esvaziada de sentido. Não significa mais muita coisa. E aí está o desafio do redator: como ir além disso? É preciso ter uma sensibilidade muito aguçada e saber bem sobre o que está falando para mexer com o emocional do público. E tudo o que temos quando apelamos para o fácil são mensagens superficiais, que, quando não estão dizendo da forma errada, não dizem absolutamente nada.

@???????

cotas: uma retratação em forma de preconceito. Diga NÃO as cotas.


Vou manter anônimo o autor dessa pérola, por razões bem óbvias. Lembra o que eu falei aqui em cima? Duvido seriamente que o animal que escreveu esse título sequer saiba o que está falando. Além do texto apelando para o fácil, da estrutura óbvia, da mensagem vazia (que não diz nada além do evidente preconceito do autor), temos uma falta de noção e sensibilidade que por si só já valiam um prêmio. Tudo bem você ser contra as cotas, não desconsiderei seu título por discordar do seu ponto de vista. Você pode até defender a volta da sociedade escravocrata, por que não? Se quiser, pode até vender a ideia do nazismo e do extermínio em massa, que por mim tudo bem. Mas querido, você vai precisar ir muito, muito além disso e escrever algo mais inteligente. Continue estudando. A propósito, já ouviu falar de Goebbels?

@hi_tanpopo

tenha senso de equipe, e compartilhe suas idéias. ou vai queimar seus neurônios sozinho?!

@ericssonbarbosa

Alub: Aqui quem queima neurônios se destaca.


Aqui, temos duas linhas de pensamento bem bacanas. Depois de escrever bastante, o Ericsson consegue desenvolver um título mais vendedor, para um cursinho de pré-vestibular, demonstrando que um redator não pode parar nas (cinquenta, cem) primeiras ideias para chegar a um título melhor. Onde quer que as boas ideias estejam, é preciso muita caminhada para chegar até elas. E o que diferencia os bons (e criativos) publicitários do resto é justamente essa distância percorrida: os fracos ficam no meio do caminho.

No título da Júlia, temos um bom conteúdo, mas pouca forma. Esse é outro aspecto importante: o refinamento do texto. Cortar, trocar, reescrever, arredondar, pensar na melhor estética – sem piedade. Um longo e disforme “tenha senso de equipe, e compartilhe suas ideias. ou vai queimar seus neurônios sozinho” pode ser lapidado e enxuto até atingir uma forma de “Compartilhe ideias. Não queime neurônios sozinho” ou “Quem trabalha em equipe não queima neurônios sozinho”, e ainda pode melhorar.

@AlexCastroLLL

Dar uma e brochar é normal. Tome viagra e dê a segunda, a terceira, a quarta…


A ilustre participação do Alex Castro apócrifo também é um bom exemplo de um texto que precisa de refinamento para chegar a uma forma mais persuasiva. Uma forma de resolver seria “Mantenha o fogo depois da primeira” ou “Continue aceso na segunda, terceira, quarta…”. Assim é possível manter o humor, acrescentar a persuasão, deixar o nome do produto (Viagra) só na assinatura, e fugir de termos como “dar uma” e “brochar”, que de tão explícitos e óbvios tiram o tesão da interpretação.

Por isso redatores fogem de títulos “foto-legenda”. É brochante.

@thiago_ir

Pior que ficar de cabeça quente e se queimar, é ter que reconhecer que estava errado e se curvar aos outros.

@Ramostm

Aqueles dias te deixam desconcertada e de cabeça quente? Novo íntimos absorve 4x mais que os absorventes comuns. Íntimos

@LandNick

Desculpem amigos, mas perdi a cabeça por aquela mulher!


Aqui, alguns exemplos de títulos redundantes com a imagem. O que mais observei nessa brincadeira foi a necessidade das pessoas ficarem explicando a imagem. Título não é feito para explicar a imagem. Não podemos esquecer que a imagem também fala; logo, imagem e texto devem ter vozes próprias. O engraçadinho @3df (que até fez uns textos bem bacanas) deu um bom exemplo de como tirar o tesão do leitor com um título foto-legenda: “Cinco palitos de fósforos, sendo o da direita queimado”.

Mais uma coisa importante: isso de usar pergunta em título é coisa de Polishop. “Aqueles dias te deixam desconcertada e de cabeça quente?” Céus… Que os deuses da propaganda não permitam que alguém escreva isso em um anúncio de verdade, e o atinjam com um raio antes disso. Como já diria minha professora de Redação, Raquel Cantarelli, quando você usa uma pergunta em um título, se a resposta para ele for “não”, você já perdeu um público que não vai nem terminar de ler o anúncio. Com um ajuste simples, já ficaria bem melhor: “Para dias que te deixam de cabeça quente” e na assinatura: “Intimus. Absorve 4x mais que os outros absorventes”.

Lembrando que a assinatura é tão importante quanto o título. Até a marca do produto é um importante elemento para o sentido da mensagem.

@eduardodosreis

Quanto mais você deseja se parecer com os outros, mais você se queima. Tenha estilo, use fulanimdetal.

@mbselmy

Como Publicitário, ele é um ótimo Bombeiro. Assina: PA (Publicitários Anônimos)

@MichaelGalli

Quem age por impulso no mercado de hoje não dura muito tempo. (Marketing Galli’s S/A – Consultoria)


No título do Eduardo, temos uma mensagem que nos diz que a gente se queima quando tenta parecer com os outros (ideia boa, mas lembra da dica de refinamento de texto?). No final, diz que ter estilo mesmo só usando a…? E aí hesita em assinar usando uma marca de verdade. Se tivesse assinado como, sei lá, Levi’s, ele conseguiria fechar a mensagem com um sentido mais completo. Quando estiver criando um anúncio, nunca subestime a capacidade da marca em falar por si só. Basta folhear alguns anuários para perceber isso.

O título assinado pelos Publicitários Anônimos traz uma mensagem de humor relacionado ao dia-a-dia do publicitário, que às vezes tem que trabalhar “apagando incêndios” para os clientes da agência. É possível até ter uma dupla interpretação da imagem a partir do texto: o fósforo seria o job apagado pelo publicitário apagador de incêndio, ou seria o próprio publicitário, esgotado, cansado dessa penosa tarefa? Daí a importância da assinatura para fechar o sentido do título, que nesse caso também precisa de um refinamento.

O Michael parece saber mais do que ninguém da importância da assinatura; afinal, usou para autopromoção. Além do inteligente oportunismo, conseguiu um título consistente, que consegue ir além e trazer um novo sentido para a imagem, falando bem o que se propõe a dizer. Não é o tipo de título que apela para o emocional ou para o humor explícito, mas é o tipo de texto que desperta um estalo do lado esquerdo do cérebro: o hemisfério da razão.

@Mayara_Regia

2009 está no fim. A quem você dará poder nos próximos quatro anos? Eleições 2010.

E para finalizar os comentários, um dos melhores títulos, na minha opinião. Conseguiu surpreender por abordar um tema dentro da linha de conscientização que exige um pouco mais do que somente apelar para o fácil, além de abordá-lo em um momento bastante oportuno, às vésperas de ano de eleição.

Fiquei bastante satisfeita com a experiência, e parece que muita gente também gostou de exercitar a criatividade. Já estão me perguntando quando será o próximo Desafio Redator. Embora eu ainda tenha um bocado de convites para o Google Wave, acho que vou ter que pensar em outra premiação; mas tão logo espero poder contar novamente com o entusiasmo de todos vocês para mais uma rodada de muitas ideias, títulos e comentários. Porque um bom redator não fica na primeira ideia – e nem no primeiro desafio.

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Microconto do desencontro

27 de November 2009 por Valek

Era uma vez um mundo com dois lados. A gente entrou junto e saiu separado: eu desencantei, ele ficou deslumbrado.

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