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Baseado em fatos reais
Algumas coleções começam assim: deliberadamente, antes mesmo de conseguir o primeiro item. Quero colecionar selos. Moedas antigas. Anões de jardim. Mangá tal vai ser publicado, vou colecionar. Outras começam depois que o cara já tem um item e, hm, isso é legal, vou conseguir outros e colocar todos juntos na prateleira. Mas a coleção dela não. Ela só começou com isso depois que percebeu que já tinha muitos.
Ela colecionava recifenses. E não era como colecionar objetos, em que dava para colocar tudo em potinhos e exibir na prateleira. Eles faziam coisas, se moviam muito, interagiam entre si e com pessoas diversas, e na maioria das vezes, nem sabiam que estavam sendo colecionados. Então imagina que trabalhão seria para Lia colocar todos eles na sua estante.
Quando ela se deu conta que tinha muitos deles, e que aquelas pessoas amontoadas na listinha do twitter tinham algo em comum, percebeu que eram recifenses colecionáveis. A partir de então, o que Lia fazia era descobrir e observar.
Ela usava um caderninho preto, daqueles moleskines que nem pauta tinha, e escrevia com uma letra meio torta o nome deles, com arrobinha e tudo. Ao lado, colava uma etiquetinha com a foto ou com a imagem que melhor representava cada um. Fazia anotações que ninguém ia entender, mas não ligava: não colecionava isso para os outros mesmo.
Algumas anotações eram cheias de detalhes, outras bem vagas. “Cara de boina, fala pouco” ou “compõe tão bem quanto Chico Buarque” ou “saia rodada, coisas floridas, tons terrosos, igual ao cabelo. Gosta de dar ideias de fim de semana, redatora, mas tem bom gosto para fotografias como ninguém” ou “blogs com os melhores nomes ou qualquer coisa do tipo, apelido curioso, cabelo bem encaracolado (será que ainda usa assim?), escreve escreve escreve, confuso fuso horário, não tá em Recife, mas esse não me engana” ou “gosta de achar vídeos bizarros, e se satisfaz quando passa para os outros mas ninguém tem coragem de ver” e assim por diante, por muitas e muitas páginas.
Esses pequenos detalhes é que davam a Lia prazer de colecionar. Porque o melhor de sua coleção era que crescia em quantidade e em profundidade: ela podia descobrir novos recifenses, ou descobrir coisas novas nos recifenses que já tinha. Isso porque ela conseguia interagir com eles, e a cada conversa tinha algo novo para catalogar (o que não seria possível se ela colecionasse figurinhas de jogadores de futebol ou objetos da Hello Kitty).
Muita gente dizia que nordestino era tudo igual. Alguns até achavam que do sudeste pra cima, era tudo baiano. Mas Lia via o quanto eram diferentes as pessoas do nordeste, com características tão peculiares, tão próprias e notáveis; mas os recifenses, uau. Não era nenhuma tara, mas Lia os achava interessantíssimos. Não tinha um recifense igual ao outro, então ela não corria risco de ter nada repetido em sua coleção.
E Lia já tinha tantos, que chegou a um ponto em que ela não precisava procurar. Os recifenses é que iam até ela, achando que ela também era de lá. Isso facilitou as coisas, e Lia até gostou da ideia de parecer de Recife. Pesquisou blogs, abriu google maps, descobriu bandas, e selecionou alguns vídeos para ver se conseguia ensaiar aquele sotaque inconfundível. Não chegou nem perto de conseguir. Logo ela, brasiliense naturalizada, que mal conseguia balbuciar seu mineirês de origem, tentando arriscar o recifês avançado.
Um dia, Lia esbarrou com um recifense em carne e osso. Foi em um almoço com amigos; ela já tinha ouvido falar dele, mas não imaginava que ele se parecia tanto com o Otto. Ficou emocionada. Tirou sua caderneta da bolsa sob a mesa, e disfarçadamente anotou “redator, veio da Espanha, coca-cola com gelo e sem limão, salada na mesma proporção que o filé”. Com um sorrisinho satisfeito e os olhos brilhando, fechou o moleskine e colocou de volta na bolsa.
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Depois de um tempo, Lia finalmente foi ao Recife. E seu interesse em conhecer a cidade não era exatamente pelas praias. Ela só teve um pequeno probleminha no aeroporto: desconfiaram da bagagem dela depois de descobrir uma mala cheia de caderninhos pretos.