AlineValek

Dicas para quem lê muito na internet

18 de March 2013 por Valek

Neu eu acredito ainda, mas resolvi gravar um vídeo. Como o fim do Google Reader está próximo, recebi algumas dicas de como se virar sem ele e resolvi compartilhar com vocês. Como continuar acompanhando uma infinidade de blogs e sites? Como continuar tendo uma leitura dinâmica e prática na internet?

Testei algumas opções e mostro três delas para ajudar você a se decidir: The Old Reader, BlogLovin e o Feedly. Se você está usando outro leitor de feeds e gostando, deixe sua experiência nos comentários! :)

Ah, aproveita e assina o feed do meu blog, vai.

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Zerei mais um livro

25 de September 2012 por Valek

Não me lembro de ter lido um livro tão rápido desde Como a Starbucks Salvou a Minha Vida. Mas a leitura de Jogador Nº1, de Ernest Cline, é tão viciante quanto videogame: depois que você começa a jogar, não tem como parar antes de zerar.

Já disse que ando muito fã de ficção para adolescentes. Jogador Nº1, no entanto, não foi criado para ESTA geração de adolescentes. Quem foi adolescente na década de 80 vai curtir muito mais o livro e as inúmeras referências à cultura pop da época. Os adolescentes de agora vão curtir também: o livro é sobre uma juventude imersa em uma realidade virtual hiperconectada.

Essa realidade virtual é um sistema chamado OASIS, onde se passa a maior parte da história. OASIS é uma espécie de “Second Life”: as pessoas se conectam ao jogo, criam seus avatares, fazem compras e negócios, estudam, se relacionam, ou participam de missões e batalhas, como em “World of Warcraft”. Tudo isso em uma imersão bastante realista.

Aperte Start

A história começa quando o criador desse jogo, o multibilionário e geek James Halliday, morre. Em seu testamento, transmitido para o mundo todo via OASIS, Halliday revela que deixará toda a sua herança para quem encontrar um easter egg que ele escondeu no jogo. Para encontrá-lo e vencer o jogo, o jogador precisa encontrar as três chaves (de cobre, jade e cristal) e passar por três portões.

O detalhe é que Halliday viveu sua adolescência nos anos 80. Ele é um super nerd. Então é claro que as pistas e desafios para encontrar o easter egg são todas relacionados a jogos, filmes, bandas e personagens da sua década favorita.

Doidos para colocarem as mãos na fortuna de Halliday, aparecem milhões de “caça-ovos”, jogadores que passam a estudar obstinadamente sobre a cultura pop dos anos 80 e revirar o OASIS em busca de alguma pista.

Cinco anos se passam e ninguém encontra nada. Até que aparece um nome no Placar, indicando que alguém conseguiu chegar à primeira chave: Parzival. O nome do avatar de um rapaz de 18 anos que mora em uma favela às margens de Oklahoma. Wade Watts, narrador do livro.

É um jogo. Com páginas no lugar do joystick.

O mais legal de Jogador Nº1 é que a narrativa é mais parecida com um jogo de videogame do que com um romance. O leitor passa, junto com Wade, por vários desafios, sobe de nível, pega itens raros, participa de batalhas, faz aliados e quebra a cabeça para descobrir o significado dos enigmas deixados por Halliday. Exatamente como em um jogo de aventura.

Depois que Wade (Parzival, dentro do OASIS) consegue a primeira chave, começa uma disputa alucinante. Art3mis, Aech, Daito e Shoto são outros avatares que estão no páreo e ficam no topo do Placar a maioria do tempo.

O problema é que a “caça ao ovo” não é uma inocente brincadeirinha de adolescentes gamers. Há uma fortuna em jogo. A IOI (ai-ou-ai), uma corporação gigantesca e inescrupulosa, está disposta a tudo para vencer esse jogo. Cheia de recursos, trapaças e uma equipe inteira de especialistas, ela coloca avatares de seus funcionários dentro do OASIS (os chamados Seis) para encontrar o ovo e colocar as mãos na herança de Halliday.

Um futuro negro aguarda os usuários do OASIS se a IOI vencer o jogo. De posse do OASIS, a empresa pretende acabar com a liberdade dos usuários de usar o sistema de graça, restringindo assim o acesso de uma parte importante da vida das pessoas. Seria como alguém cobrar pelo uso do sol.

Muito mais que correr para ser o Jogador Nº1, os “caça-ovo” precisam vencer o jogo para impedir que a IOI tome o que lhes é mais precioso: o OASIS.

“Sair de casa é superestimado”

Uma das questões muito abordadas no livro é essa divisão entre “real” e “virtual”. Embora toda a construção da história leve a acreditar que existe essa divisão, pelo fato dos personagens criarem “avatares” com uma aparência bem diferente e não possuírem na vida real a mesma popularidade ou recursos que possuem no jogo, entre outras coisas, eu percebi que não: real e virtual são a mesma coisa.

E não apenas em Jogador Nº1. Podemos não ter um sistema tão sofisticado como o OASIS, mas vivemos imersos em uma realidade virtual. Criamos avatares para transitar por esse mundo, muitas vezes, drasticamente diferentes do que somos na vida real.

Acho que o livro acaba mostrando o quanto essas duas realidades estão conectadas. As ações de Parzival dentro do jogo influenciam o que acontece fora dele – até mesmo colocando em risco o próprio Wade. Da mesma forma, coisas que Wade faz no mundo real são determinantes para mudar o destino do jogo.

O que fazemos na internet também faz parte das nossas vidas. Insistir nessa separação entre real e virtual é negar que o que fazemos na internet nos define e tem o poder de impactar o mundo “offline”. É se apegar a uma visão bastante caduca. É abrir margem para que as pessoas fujam da responsabilidade de assumir as consequências do que fazem na internet. É não reconhecer que o chamado “ativismo de sofá” é sim capaz de mudar uma realidade. Porque se por um lado a internet é usada por pessoas irresponsáveis que disseminam ódio e preconceito, ela pode ser usada para disseminar informação – a arma mais efetiva para mudar a mente das pessoas.

Você, em algum nível, é seu avatar. A diferença é que, assim como quando Wade entra no OASIS e se torna Parzival, você tem poderes inimagináveis quando está conectado. A questão é: você também usa seus conhecimentos para lutar pelo mundo no qual você acredita?

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Fal Azevedo, me identifico

29 de August 2012 por Valek

Aí que estou de bobeira na livraria (sempre vou à livraria para matar o tempo, não para comprar livros) e encontro o Sonhei que a neve fervia. Ouvi muita gente falar desse livro, mas não conhecia ainda trabalho da autora – só mesmo o blog e uma peça adaptada de seu romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leites. Ela até estava na plateia, mas como na época eu ainda não sabia who the fuck is Fal Azevedo, eu não fui lá dar um abraço nela e dizer: “cara, você é demais”. Porque hoje em dia eu faria isso, sem dúvidas.

Nem estou tão acostumada assim a ler não-ficção, mas a linguagem do livro é uma delícia. Cheguei até a sentir que eu estava, sei lá, invadindo a privacidade dela por estar lendo coisas tão íntimas. Por outro lado, eu me sentia parte do que ela estava narrando. Uma pequena amostra de porque me identifiquei tanto com a Fal:

Minha mãe tem um lance esquisito com telefones tocando: ela atende. Meio da refeição, meio do filme, conversa, aflição pra fazer xixi, nada detém minha mãe ou a impede de, neuroticamente, tirar aquela porra do gancho e mandar um “Oláááá!” (sim, ela atende o telefone assim). Não passa pela cabeça dela deixar aquele treco tocar até derreter. Oh, não, jamais. Ela tem que atender, é mais forte que ela. Eu? Pufffff. Na grande maioria das vezes, nem sei onde o telefone está. E não, nem me dou ao trabalho de olhar quem é no visorzim cagueta. Não quero atender. Quando eu estou ocupada, quando eu não estou ocupada, de noite, de dia, o fixo, o celular, o dos outros, no meio do trânsito, eu não quero atender. Nunca, ninguém. Não quero falar no telefone. Não quero falar. Simples assim.

Outro trechinho genial (nem preciso dizer que me imaginei nessa cena):

Prédio comercial é uma armadilha para pessoas como eu, que já sou tonta na vida normal. Dentro duma multinacional, sou meu próprio Peter Sellers. Saí no andar errado duas vezes. No escritório chique do cliente idem, na frente duma secretária que parecia feita de biscuit, derrubei um cinzeiro, na sala do cara (num carpete desta grossura) derrubei um copo d’água, gaguejei para dizer meu nome, e, quando saí e entrei no táxi, não sabia pronde ia.

– Para onde vamos?

– O senhor espera só um pouquinho preu me lembrar?

Quer dizer, Mundo Real 10, eu 0.

Enfim, a Fal é uma gostosura. Sonhei que a neve fervia é um livro de angústias, mas também de risos. É um livro escrito na base de “drops” (pequenos trechos sobre coisas diversas na vida da narradora, como os trechos acima) e pequenas conversas, que juntas formam uma conversa única, cheia de mineirices como “procê”, “cousa e tale” e “pronde”. Como não amar?

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Leitura voraz

01 de August 2012 por Valek

Parece que existe uma tendência a pessoas, à medida que envelhecem, preferirem não-ficção a ficção. Não sei o quanto isso é verdade, mas sei que hoje continuo tão fã de ficção quanto já fui quando mais jovem. E não apenas isso, como também tenho lido ficção para adolescentes. E gostado muito.

Sou do tipo que acha On The Road um saco, mas que fica sem fôlego com Jogos Vorazes.

Quando Jogos Vorazes estreou nos cinemas, prometia ser o “novo Harry Potter” em termos de sucesso adolescente. Isso foi o suficiente para me deixar com o pé atrás: já imaginei uma história bobinha, estilo Crepúsculo, com personagens jovens e belos, romances açucarados e muito efeito especial para pouca história. O que aconteceu foi: eu realmente achei o filme bobo.

Mas nunca se deve julgar um livro pelo filme. Fui convencida por uma adolescente (sim, isso mesmo) a ler a trilogia escrita por Suzanne Collins e me surpreendi. Primeiro, pelo fato de um livro tão violento e extremamente político ser considerado literatura para adolescentes. É óbvio que o filme não mostra nem metade dessa violência toda. Do livro, escorre sangue.

Vamos lá: a história trata de um futuro distópico em que Panem, o país antes conhecido como América do Norte, é dividido por doze distritos comandados por uma Capital tirânica. Cada distrito produz um tipo de recurso: por exemplo, o Distrito 1 produz artigos de luxo, o 4 é da pesca e o 11 é da agricultura. Os distritos, que antes eram 13, já se rebelaram contra a Capital, no período histórico conhecido como Dias Escuros; mas a Capital os subjugou e destruiu o 13º distrito.

Para lembrar o país do insucesso da rebelião e do poder da Capital, foram criados os Jogos Vorazes. Uma espécie de reality show em que são escolhidos um garoto e uma garota (de 12 a 18 anos) de cada distrito para serem jogados em uma arena e lutarem entre si até a morte.

No meio disso tudo está Katniss, protagonista e narradora da história. É pelos olhos da garota que entramos no cenário cruel da arena dos Jogos; mas, antes disso, é através dela que conhecemos as condições precárias de sua vida no distrito 12.

Há coisas mais difíceis para um jovem enfrentar do que um conflito amoroso.

Collins conseguiu criar não apenas um universo rico e assustador, mas também uma trama sobre adolescentes que não gira em torno de um romance. O romance está lá, sem dúvidas; mas de uma forma bem diferente. Katniss não é a mocinha que idealiza e busca um amor romântico. Rola um clima entre ela e Gale, seu melhor amigo no Distrito 12, mas ela não leva isso muito a sério. Já seu envolvimento com Peeta, seu colega de arena, é pura encenação. O filme não deixa isso muito claro, mas Katniss não ama Peeta, e sente atração não por ele, mas pela sobrevivência – afinal, seu romance com o garoto favorece os dois diante do público e dos patrocinadores dos Jogos Vorazes.

Embora esse conflito Peeta vs. Gale esteja presente durante toda a série (não entendo qual é o problema da protagonista ficar com os dois), Katniss tem outras preocupações. Como, por exemplo, não morrer de fome, de sede, trucidada por algum animal, ser assassinada, ter sua família morta ou ainda ajudar a liderar uma revolução.

Gosto da forma como Collins concentra a narrativa na sobrevivência. É impossível não empatizar com Katniss e sentir a mesma angústia de não conseguir encontrar água na arena, ou de ter que caçar para sustentar a irmã e a mãe no Distrito 12. Mesmo as estratégias para ela se dar bem nos Jogos, como a escolha do seu figurino e sua atuação nas entrevistas, tratam-se disso: sobrevivência. E Katniss dá um duro danado para sobreviver a tudo que acontece na história. Durante os três livros, perdi a conta de quantas vezes ela foi seriamente ferida, passou fome, frio, sede, ou quantas vezes ela passou perto da morte. As coisas não são nada fáceis para Katniss; tanto que, mesmo sabendo que ela é a narradora e ainda resta livro pela frente, cheguei a acreditar que ela fosse morrer em vários momentos. É maravilhoso quando o autor cria situações inusitadas não para salvar seu protagonista, mas para colocá-lo em apuros.

O livro tem lá seus defeitos. Achei que Collins terminou o segundo e o último livro com muita pressa. A narrativa segue num ritmo interessante e de repente acontece algo, as coisas ficam confusas, e quando você vê, o livro acabou. Também não fiquei muito satisfeita com o final da saga; ficou Harry Potter demais para o meu gosto. Isso e a falta de sexo (apesar de existir muita tensão sexual na história) foram as únicas coisas que fizeram eu me lembrar que estava lendo um livro para adolescentes.

De resto, o livro é tenso, cheio de cliffhangers que me deixaram grudada ao livro, querendo saber logo a continuidade dos acontecimentos, um desfile de personagens interessantes e muita maturidade ao colocar temas espinhosos como violência, política e mídia no centro da história.

Aos moldes da nossa própria mídia, o sofrimento e a matança são transformadas em entretenimento.

A política do “pão e circo” que leva tantos jovens à morte para deleite do público é uma forte ferramenta de opressão. Ao colocar na arena adolescentes dos doze distritos e estabelecer que só um pode sair vivo, a Capital está, na verdade, garantindo que os distritos vejam uns aos outros como oponentes, jamais aliados. Essa é a função do entretenimento não só em Panem, mas em nosso próprio mundo: manter as coisas como estão. Preservar o status quo. Não deixar que os oprimidos comecem uma revolução.

Mas Katniss desafia o poder da Capital para todo mundo ver, em plenos Jogos, transmitidos pela televisão. É tão emblemático ter uma heroína que se volte para esse sistema opressor e diga que “não, vocês não podem me controlar”, que considero essa cena, no final do primeiro livro, uma das mais emocionantes e a mais importante de toda a série.

É assim que Katniss, de tributo participante dos Jogos Vorazes no primeiro livro, faz sua transição para o movimento rebelde, no segundo livro. No último, ela se transforma no próprio símbolo da revolução, o Tordo, e vai à guerra. Por mais que muita gente torça o nariz, Katniss é uma heroína bem longe de ser passiva: ela toma decisões e ajuda a mudar o destino da história. Fico aliviada de ter uma personagem como ela como referência para os jovens, em contraposição a outros padrões tão nocivos e tão naturalizados pela mídia que são impostos a nós desde muito cedo.

É lindo ver esse tipo de mensagem em um livro para adolescentes: torço para que eles (especialmente as garotas) entendam que, assim como Katniss, podem também começar uma revolução.

Para quem ainda não leu: bem, é sabido que não dá para agradar todo mundo. Tem gente que acha que Katniss é uma heroína fraca, tão passiva quanto uma Cinderela. Tem gente querendo jogar um balde de água fria em quem esperava finalmente ver uma história protagonizada por uma heroína fodona, como quem diz “lamento, não foi dessa vez! Fica para a próxima, garotas!” E sobre isso eu escrevi neste post. Não deixem de ler.

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Razões pra gente fazer sexo

15 de June 2012 por Valek

Se tem uma coisa que não dá para escapar de ser na vida é virgem. Todo mundo nasce sendo e tem gente que fica sendo a vida inteira. Eu já fui virgem há muito, muito tempo atrás, em uma galáxia não muito distante, mas ainda consigo me lembrar razoavelmente bem do que significa viver nesse universo.

O virgem vive em um mundo cercado de apelo sexual. Na TV, nas músicas, nos filmes, nas piadas, nos videogames, nos livros. Não dá para escapar. É como se todos falassem um outro idioma que ainda não ensinaram na escola, mas dá pra aprender o básico da conjugação verbal assistindo o Porn Tube.

Na infância, existe uma curiosidade em relação ao assunto, especialmente porque desafia os adultos, que dizem que isso não é conversa pra criança (e dizer isso é pedir pra elas se interessarem, just saying). Nessa idade, eu tinha uma noção superficial da coisa mesmo sem nunca ter visto um pinto na vida – exceto pelos livros de ciência.

Já na adolescência, o bicho pega: a pressão começa a aparecer e ser virgem vai se tornando um fardo cada vez mais pesado. É claro que isso se manifesta de diferentes formas para garotas e garotos. Para eles, a pressão é no sentido de fazer logo e não correr o risco de ser o último cabaço da turma. Para elas, a pressão é para que seguremos a periquita e esperemos o momento “certo”, a pessoa “certa”, por mais que estejamos doidas pra dar. Para eles, é um teste de virilidade. Para elas, um teste de resistência.

Até a Madonna já foi virgem

É por isso que o virgem, nesse estágio de sair do casulo, é um coitado tão sofredor que, não por acaso, acaba se tornando um personagem perfeito para comédias e filmes de adolescentes. American Pie é um bom péssimo exemplo do uso desse estereótipo. Na época em que o filme fez sucesso, eu e boa parte dos meus colegas éramos virgens, e, mesmo sendo uma pobre virgenzinha, eu não entendia como podiam gostar de um filme tão boboca. Aquilo era uma tragédia. Bem diferente de filmes como Submarine, que tive a felicidade de conhecer essa semana.

Ok, Submarine não é sobre um garoto meio loser que perde a virgindade. Isso está presente na história, mas é só um detalhe. Submarine conta a história de Oliver, um adolescente meio estranho cheio de devaneios sobre a vida, a morte e outros pensamentos esquisitos, que tem como objetivo transar com sua namoradinha Jordana, uma garota tão estranha quanto ele próprio, e salvar o casamento dos pais, ameaçado por um suposto affair entre a mãe e o vizinho, um guru místico pop star.

Além da narrativa cativante, a forma que o filme (no caso, Oliver, já que o filme é contado do ponto de vista dele) aborda o sexo é no mínimo interessante. O garoto nos conta como ele consegue saber se os pais transaram: se o botão do regulador de luz do quarto está no meio, ou seja, ajustado para ligar a meia-luz, então é porque fizeram. O negócio é que o quarto não fica à meia-luz há sete meses, e Oliver acha isso preocupante.

Oliver tem bons motivos para se preocupar. A menos que os envolvidos sejam assexuais, um bom indicativo de que um relacionamento é saudável é a ocorrência de momentos um-sobre-o-outro (sejam eles casados ou tico-tico-no-fubá). E é aí que entra o outro lado da tal pressão sobre os virgens: se, por um lado, existe uma pressão doentia para que os virgens transem logo, por outro, existe uma pressão para que eles contenham seus desejos e esperem até o casamento. Tá achando que ser virgem é moleza?

e mão dada, pode?

Esses jovens casais que não deixam o quarto à meia-luz (até porque, dividir o mesmo quarto, só depois do casamento) também são conhecidos como a tal geração “Escolhi Esperar” – representada pela sugestiva figura de uma mão. Orgulhosos de suas virgindades, seguem determinados na escolha de só inaugurarem seus genitais com as devidas alianças na mão esquerda, porque, aparentemente, é assim que deus gosta de sexo.

Ser virgem é bastante difícil, eu sei, eu já fui. Por isso, é de se admirar quem simplesmente escolhe ser virgem. Cada um deve ter autonomia sobre o seu corpo e fazer suas próprias escolhas, sim; o problema é quando o jovem é impelido a suprimir seu tesão, como se isso fosse torná-lo melhor que as outras pessoas. Ser virgem, assim como transar, não torna uma pessoa superior ou inferior a ninguém. E tudo bem que não deve ser verdade que se você segurar um espirro sua cabeça explode, mas impedir o corpo de suprir suas necessidades fisiológicas, quando existem, não é lá muito saudável.

Não bastasse todos esses problemas cabeludos que os virgens já têm, eles ainda têm a tendência de fantasiar sobre o sexo como se fosse a entrega de um Oscar. O que só complica mais as coisas. Eu já disse algumas vezes que, em muitos casos, o que estraga um filme é uma expectativa muito alta. A mesma coisa vale pro sexo. Quer saber? Aí vai um spoiler (não sobre Submarine, mas sobre a primeira vez): não é nada demais. Não desce nenhum anjo do céu, não tem fogos de artíficio e não se ganha nenhum super-poder. Então pode ser um pouco frustrante pra pessoa que se guarda achando que isso vai tornar o sexo de alguma forma mais especial e fuén.

Oliver, pelo contrário, não tem a menor pretensão de se guardar. E, para convencer Jordana a transar com ele, o garoto faz uma listinha fofa com as razões para eles fazerem sexo.

3 – Se vamos nos decepcionar, por que esperar?

Já dizia a música: façamos, vamos amar. O importante é ter vontade e deixar rolar, sem pressa, sem pressão. Razões pra gente fazer sexo é o que não falta. Razões para ver Submarine também não. A única coisa que estraga esse filme é você deixar de vê-lo.

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A espiã que sabia que era demais

26 de April 2012 por Valek

Amanhã, como todos sabem, é a estreia do filme Avengers, mais uma produção milionária que leva o universo dos quadrinhos da Marvel para os cinemas. Eu não estava tão empolgada, e, para falar a verdade, eu estava com um medinho de assistir o filme. Motivo? A minha personagem favorita de todos os tempos estaria nele, e as superproduções para o cinema costumam decepcionar os fãs mais fervorosos.

O negócio é que eu vi o filme (em uma espécie de pré-pré-estreia) e me surpreendi. O filme envolve, as cenas de luta são incríveis, a construção dos personagens ficou excelente (Mark Ruffalo destruiu como Hulk e sambou na minha cara por eu ter achado que ele não ia conseguir) e não me decepcionei com a participação da Viúva Negra na história, que acabou sendo mais importante do que eu imaginava. É claro que não fiquei 100% satisfeita: os primeiros segundos de Natasha Romanoff na tela me irritaram profundamente (quem assistir vai descobrir o porquê).

Mas o filme foi só um pretexto para eu escrever sobre a personagem que Scarlet Johansson interpretou tão brilhantemente (embora eu tenha demorado a me acostumar com a ideia; achava que Scarlet tinha muito mais a ver com Yelena Belova do que com a Romanoff, e, bem, eu nutro uma certa antipatia pela substituta da Viúva Negra).

Yelena Belova, a nova Viúva Negra

A ruiva Natasha Romanoff (ou Romanova) surgiu nos quadrinhos em 1964 e chuta traseiros desde então. Nasceu em Stalingrado e foi onde quase morreu, ainda bebê: nazistas atearam fogo à sua casa, e sua mãe, para salvá-la, arremessou-a pela janela. Assim parou nas mãos do soldado russo Ivan Petrovitch, que passou a protegê-la e treiná-la. Ela cresceu, desenvolveu suas habilidades e logo foi convocada para a KGB – pouco depois de receber a notícia que seu primeiro marido, o piloto de testes Alexi Shostakov, teria morrido em missão.

Treinada para ser letal, teve sua performance física aperfeiçoada quimicamente pelos russos e foi condicionada psicologicamente para ser essa espiã durona que conhecemos. Perita em artes marciais, atiradora de elite, hacker, estrategista, expert em espionagem, disfarce, infiltração, não há nada em que Romanoff não seja boa. Praticamente uma lenda na academia de espionagem Red Room. Isso até descobrir que era só uma das 27 agentes Viúvas Negras infiltradas durante a Guerra Fria – e a única que sobreviveu.

Demolidor: só um dos vários heróis que caíram na teia - e na cama da espiã.

Sua entrada no Avengers aconteceu só em 1967, e foi a 16ª a integrar o grupo. Mas essa vida heróica não faz muito seu estilo, e, na maior parte do tempo, é uma agente freelancer da S.H.I.E.L.D.

Por que a Viúva Negra é tão foda?

Ela é uma versão femme fatale do Batman. Não tem super poderes e sua maior arma é sua inteligência. Pode não ter a fortuna de Bruce Wayne, mas é uma lutadora tão escrota quanto ele, além do jeitão de poucos amigos, a atuação geralmente solitária e o gosto por roupas pretas.

"Apenas pense em mim como mais um dos caras maus. Porque, basicamente, é o que eu sou."

Mas, diferente do Homem Morcego, ela é coadjuvante na maioria das histórias. A Viúva Negra só ganhou sua própria série de quadrinhos em 1999, com Web of Intrigue. Em 2001, Romanova e a jovem espiã Yelena Belova protagonizaram o arco de histórias Black Widow: Breakdown. Em 2005, foi a vez de Black Widow: The Things They Say About Her (a que estou lendo atualmente).

Cena da melhor história da Viúva Negra

Mas sem dúvidas a melhor série da Viúva Negra foi Itsy-Bitsy Spider, de 1999. Escrita pela roteirista Devin K. Grayson e com o traço incrível do artista J.G. Jones, a história traz uma Natasha Romanoff em fim de carreira, escalada para uma missão no Oriente Médio, onde precisa descobrir sobre uma nova biotoxina que transforma soldados em exterminadores enfurecidos, que matam tudo e todos ao redor até definharem, consumidos pela droga, poucos minutos depois. O negócio é que os militares russos parecem interessados na droga, e enviam a espiã Yelena Belova para interceptá-la. É então que a velha Viúva Negra encontra-se com a nova Viúva Negra, e Natasha Romanoff confronta mais do que uma rival, mas uma crise de identidade. Recomendo altamente.

O que me entristece é que não basta a personagem ser tudo isso que a Viúva Negra é e ter um background riquíssimo, ela ainda estará em segundo plano no mundo dos quadrinhos, onde quase sempre é reconhecida como apenas mais uma gostosa.

Avengers: todos fazendo poses heróicas, enquanto a Viúva Negra mostra... a bunda. E se fosse o contrário?

E a vida para as super heroínas não está nada fácil. Quantos filmes, das atuais adaptações dos quadrinhos para o cinema, foram protagonizados por mulheres? Da Marvel, temos a Elektra – que, cá pra nós, não chegou nem aos pés das histórias em quadrinhos. Sem falar que o filme faz parte daquela safra de produções que cagaram todos os super heróis. Da DC, temos a Mulher Gato – outra personagem sensacional completamente desperdiçada. O filme é tão pífio que nem vale a pena comentar. Por outro lado, filmes com heróis (homens, claro) não param de ser lançados – e ganham até sequência (Homem de Ferro, só pra citar um exemplo).

Dos Avengers, todos os integrantes tiveram seu próprio filme, menos um. Adivinha qual? Sim, a Viúva Negra. E olha que eu tinha grande esperança da personagem ter um filme só dela (a própria Scarlet ainda espera isso). Mas quem sabe não role? A Scarlet Johansson fez um trabalho tão bem feito que voltou a alimentar minhas esperanças de ver a Viúva Negra estampando um cartaz de cinema – dessa vez sozinha e, espero, com uma pose menos sexualizada.

 

Leia também:

She Hulk

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 1

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 2

 

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Acredite neste livro

17 de April 2012 por Valek

Sempre falo da importância de ser crítico e de não acreditar em qualquer bobagem que se vê por aí, mas como leitora faço questão de ser crédula. Gosto de acreditar nas histórias bem contadas e já cheguei a dizer que alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores.

Quando me deparei com a história do Livro Infinito, escrita por Alex Luna, acreditei de tal forma que quase não acreditei que aquele texto seria o prólogo de uma coletânea de contos chamada Mentirinhas (à época). Tive o privilegiado acesso aos textos antes de serem publicados como Inverdades (com um subtítulo que considero perfeito: “pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom”).

De cara, você vai se deparar com algo curioso: todos os contos têm nomes de personagens mitológicos, deuses esquecidos, santos ou personagens bíblicos. Isso tem tudo a ver com o prólogo, em que somos apresentados a manuscritos que supostamente contêm a fórmula das histórias universais da humanidade.

A maior descoberta literária de todos os tempos aconteceu há mais de sete séculos, num mosteiro da velha Castilha. Depois de duas décadas copiando e traduzindo textos em latim, árabe e grego, o frei Giorgio Romano encontrou o esboço da Teoria do Todo Literário num manuscrito árabe. No texto, atribuído a um pensador da corte do grande sultão Harum al-Rachid, é levantada a hipótese de que todas as histórias são repetições de padrões, assim como as palavras são apenas repetições de letras. Para o autor do manuscrito, cuja identidade não foi identificada pelo monge, novos autores podem tentar recriar as histórias com novas roupagens, mas nunca conseguirão criar um texto original.

 

Judas

É sabido que as histórias se repetem, e não é de hoje, como mostram as infindáveis adaptações e remakes vistas no cinema: até a história de Jesus tem incríveis semelhanças com outros mitos ainda mais antigos. Em Inverdades, essas semelhanças são muito bem-vindas, mas nem sempre tão óbvias. Os títulos de cada história dão uma pista, mas às vezes é preciso pesquisar para entender qual é a relação dos personagens do livro com seus respectivos mitos.

Isso faz de Inverdades um livro cheio de easter eggs para serem desvendados. E essa experiência (altamente recomendável), de buscar o significado dos mitos em cada conto, faz com que as histórias não se encerrem ali. Não foram poucas as vezes em que recorri ao Google para pesquisar mais sobre os mitos e sempre me surpreendi: tanto por ter descoberto uma história que ainda não conhecia, quanto por ter encontrado uma engenhosa associação com as histórias escritas por Alex Luna. Você nunca ia imaginar, por exemplo, que a história bíblica de Jonas e a baleia pudesse ganhar contornos eróticos em um conto perturbador sobre bondage, dominação e sadomasoquismo.

Não se engane: não é história para crianças

É até difícil eleger uma inverdade favorita, mas gostei particularmente de São Jerônimo Penitente, a história de um velho ateu e moralista que morre e tem seus segredos mais pervertidos descobertos pelo seu neto. É aquela história gostosa de ler, especialmente pelo peculiar tom de humor que ela carrega, aquele típico de velhos ranzinzas que não veem graça em nada.

O velho, estirado no caixão, dormia o sono dos que já vão tarde. Pelo menos, era o consenso familiar. (…) Nunca estava bem-humorado e dizia sempre que o segredo de uma vida longa era querer que ela não durasse muito, porque se dizia pelos cantos, principalmente pela parte da família materna de Robson, que já era hora de o velho esticar as canelas. Claro está, odiar o sogro é um esporte nacional. Mais que isso, quase um imperativo categórico obedecido até pelos alienígenas, se acaso tivessem o infortúnio do casamento na sua civilização, teoricamente avançada.

Aliás, outro mérito do livro é ser um desfile de personagens com voz própria, que marcam cada conto com uma linguagem única. Você viaja com rebeldes pelo ambiente agreste do sertão em Judas, passa pelas desventuras da imigrante Núbia nas ruas de Lisboa em Chih Nu, e chega até Roma, falando italiano com o cientista Daniele, em Galatéia. Personagens com tanta profundidade que têm até textura.

Nem Colombina ficou de fora

Tão admirável quanto a habilidade narrativa de Alex Luna é o seu empenho, cara e coragem de publicar seu livro de forma independente. Se você é dos que escrevem, fica a inspiração: fazer literatura não depende de nada, a não ser de você mesmo. Se você também é dos que leem, fica a dica: Inverdades é uma ótima leitura.

 

Como comprar

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“Ah, mas eu não tenho Kindle, mimimi”

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Calvin & Haroldo por crianças mais críticas

19 de January 2012 por Valek

Esta semana, uma revista de fofocas publicou em sua matéria de capa que é absurda a lei que tornaria obrigatório o ensino de filosofia nas escolas. De acordo com a revista, um país que vai mal em disciplinas como matemática e ciências não deveria se empenhar em ensinar filosofia, que, como todos sabemos, é apenas uma forma de “aumentar a pregação ideológica de esquerda”. Claro. Mas não vou nem entrar nessa questão. O fato apenas me lembrou que, além de eu ter tido uma péssima formação de filosofia no colégio público onde estudei, eu tenho ali, na minha prateleira de quadrinhos, o que considero uma das maiores obras filosóficas do nosso tempo: as tirinhas de Calvin & Haroldo, de Bill Watterson.

Calma. Antes de você sair em defesa de um grande pensador e de me julgar uma ignorante por essa afirmação, deixe que eu explique. A ligação dos quadrinhos com a filosofia começa com o nome dos personagens. Calvin e Hobbes (do original, em inglês, traduzido por aqui como Haroldo) foram inspirados, respectivamente, no teólogo John Calvin e no filosófo inglês Thomas Hobbes. O primeiro defendia a predestinação e o segundo acreditava na tendência da natureza humana à guerra. Um easter egg interessante plantado por Watterson, talvez porque ele não resista a uma boa ironia – o que, aliás, percebemos em todas as histórias.

O grande mérito dos quadrinhos é trazer grandes (e pequenas) questões existenciais em histórias divertidas, cativantes, inteligentes, sarcásticas e o mais importante: acessíveis a todos. Crianças podem ler. Adultos podem ler. E ambos vão gostar. Enquanto Calvin brinca com Haroldo na neve, finge ser um dinossauro, teima com seus pais ou ainda arruma formas de não fazer seu dever de casa, ele te leva a questionamentos intrigantes e você está pensando naquilo sem nem perceber.

Ele não ensina filosofia. Mas os livros de Calvin e Haroldo estão cheias de teorias, conclusões e perguntas incômodas nas quais vale a pena pensar e até expor suas crianças a elas, sem medo. Questionamentos do tipo: “O que os animais vão fazer agora que derrubaram a floresta para construir casas?? Céus, o que as pessoas iam achar se os animais passassem um trator nos bairros e plantassem novas árvores?” Outro bom exemplo está aqui:

"Vocês não me ensinaram nada exceto como manipular cinicamente o sistema. Parabéns."

 

A inteligência das tirinhas de Watterson também está na construção dos personagens. Haroldo é só um tigre de pelúcia, mas tem mais sensatez que muita gente de carne e osso. Calvin é um garoto com uma grande imaginação e uma cara de pau maior ainda. Isso faz com que seus pais (que não têm nome nos quadrinhos) precisem devolver com argumentos razoáveis as teimosias do filho. O que nem sempre é possível: às vezes eles precisam gritar para mostrar ao Calvin quem são os adultos ali.

Calvin parece um garoto impossível de existir. Mas em tempos de tanta facilidade de acesso à informação, e em que todo mundo nas redes sociais está pronto para desferir opiniões sobre tudo, é natural que nossas crianças tenham a mesma inclinação do personagem para o debate. E aí não adianta vencê-las falando mais alto. As crianças esperam de nós, adultos, argumentos convincentes que respondam às questões levantadas pela inocência e imaginação tão próprias delas. Ou que, pelo menos, tenhamos a sensibilidade de pensar sobre o assunto se não soubermos a resposta. E uma dessas questões é: estamos preparados para criar filhos com esse senso crítico?

Mas talvez a tal revista esteja certa em achar absurda a ideia da filosofia ser ensinada como português ou matemática. Crianças questionadoras acabam ficando iguais ao Calvin: terríveis.

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O último livro do ano

29 de December 2011 por Valek

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A primeira coisa que fiz quando terminei de ler o livro do Alex Castro, Onde Perdemos Tudo, foi procurar sobre Jácome Gol. Um escritor que tem forte influência sobre o último conto do livro, A Falta Que Nos Fazem Os Figos, além de ser autor do livro Quando Morrem Os Pêssegos, que dá nome a outro conto. De acordo com o próprio Alex, Gol é “um autor brasileiro menos conhecido”, mas desconfiei mesmo assim. Alex é daqueles escritores que levam a ficção ao extremo. É admirável e, ao mesmo tempo, assustadora a forma que ele faz você acreditar em qualquer coisa que ele escreva.

Alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores. É o que a gente espera quando pega um livro para ler: que o escritor consiga sustentar sua mentira durante as quinhentas e oitenta e cinco páginas e além. Onde Perdemos Tudo não tem tudo isso, claro. É uma leitura rápida, por ser um livro curto e agradável. E também não é nenhuma mentira: as histórias falam sobre algo que é bem real na vida de todos.

Essa veracidade das histórias, mais do que o tema da coletânea de contos – a perda, foi o que me chamou a atenção. Poderia jurar que conheço o personagem-narrador do conto A Morte do Meu Cachorro. Além do mais, o livro já começa com um conto onde eu mesma sou uma personagem. Na verdade, é a dedicatória.

Querida Aline,
Espero que tenha chegado bem. As crianças já estão na cama. Eu saí pra comprar cigarro e já volto. Por favor, não esquece de tirar o lixo e passear com a Lulu. Devo voltar antes das onze. Te amo. Do seu marido, Alex. SP, 23/11/2008

E é assim, com relacionamentos que se acabam, despedidas, mortes e outras perdas que o livro continua. Encaramos, de uma só vez, as situações mais difíceis de se encarar. Muitas pessoas – a quem eu indicaria fortemente a leitura deste livro – não conseguem lidar com a perda. Não aceitam, não superam, não se desapegam. Acabam se perdendo. Porque, apesar da evidente contradição, a vida não está completa enquanto não perdemos algo. O emprego, o cabelo, os amores, os amigos, o dinheiro, a vergonha, a fé, uns quilinhos, os pais, as chaves de casa, o último capítulo da novela, a virgindade, o ônibus, o jogo, a vez, as vistas, os dentes. Ser adulto é isso: engolir o choro e aprender a perder. Sobre essa maturidade, Alex Castro escreveu A Morte do Meu Cachorro, que começa assim:

A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro.(…) Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam. Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.


Também vemos, neste e no conto com o mesmo nome do livro, a diferença entre o fim de uma amizade e de um relacionamento amoroso. Amores, como o de Ramiro e Jáque, terminam de forma dolorosa, mal-explicada e abruptamente, deixando no lugar um passado incômodo e um presente confuso. Amizades não precisam terminar de fato pra gente saber que acabou. A vida se encarrega de distanciar as pessoas antes que elas percebam que a vida delas se descruzaram e, mesmo que se cumprimentem sem ressentimentos de ex-namorados, já não têm mais assunto. “Será que não percebem o quão ameaçador é o silêncio de quem já disse tudo, de quem já partilhou tudo?” Mas só porque essa perda acaba sendo mais natural que a outra, não significa que seja mais suportável. Afinal, a morte também é uma perda bastante natural.

Certamente, o tema rende. Quem sabe não sai um segundo livro com mais contos? Enquanto isso, fico no aguardo do lançamento, previsto para 2012, da reedição de Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol.

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Keep calm and just write

10 de July 2011 por Valek

Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).

Your mind, a wild monkey

Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).

A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.

Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.

O que eu vejo: só texto

Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.

Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.

Ommwriter from hs&co on Vimeo.

Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.

O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.

Escrevam bastante.

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