Eu vivo de escrever. É o meu trabalho, é o que faço para pagar as contas. O que não é nada fácil, especialmente porque não é um trabalho valorizado – isso quando as pessoas entendem que é um trabalho. Sei que ilustradores, atores, músicos e outros profissionais que trabalham com o imaterial vão se identificar com o que tenho a dizer a seguir: a pior coisa desse trabalho é ter que aturar gente que acha que é ok trabalharmos de graça.
***
Um dia eu já trabalhei como publicitária, em agência de propaganda. Tem uma coisa nesse mercado que me dá canseira só de lembrar: concorrência. É um negócio que funciona assim: para ganhar a conta de um cliente, várias agências concorrem entre si para apresentar ao cliente o seu trabalho. O cliente analisa vários quesitos, como estrutura da agência para atendê-lo, questões técnicas, orçamento e o trabalho criativo, usando essa avaliação como base para escolher qual das agências contratar. A questão é que a agência faz um imenso esforço e cria uma campanha completa para mostrar ao cliente. Se perde a conta, a agência trabalhou de graça. Se ganha, é maravilhoso, mas raramente essa campanha que ela apresentou na concorrência vai para a rua de verdade. Se não for completamente descartada para criar outra do zero, essa campanha terá que sofrer alguns ajustes. É mais trabalho.
Foi lendo esse texto sobre o ponto-cego das concorrências que me motivei a escrever este post. O autor põe em xeque esse modelo de negócio em que ninguém ganha: a agência (especialmente as menores), que mobiliza todo um esforço, equipes e recursos de graça; os criativos, que apesar de receberem seu salário independente de ganharem ou não a concorrência, serão exauridos por fins de semana e noites viradas para entregar o trabalho, para depois ficarem com a sensação de terem trabalhado em vão; e os clientes, que apesar de terem à disposição várias ideias de graça, serão, de certa forma, enganados, já que isso não dará a ele a real noção de como será o atendimento no dia a dia.
E, ainda assim, isso continua a ser feito.
Isso acontece com a publicidade porque o trabalho de criação não é algo material, palpável. Se o governo quer contratar uma empresa para construir um viaduto (algo bastante concreto), ele não pede para cada empresa construir um viaduto para então decidir qual será contratada. Nesse caso, a empresa apresenta orçamento, projetos, quesitos técnicos. A contratada sim, constrói o viaduto.
Ao meu ver (porque aqui só posso dar a minha opinião e a de mais ninguém, caso isso não tenha ficado claro), a campanha publicitária é o viaduto das agências, assim como o texto é o viaduto do escritor. E tem gente que não vê problema em pedir para que a gente construa um viaduto em um fim de semana sem pagar nada por ele.
***
A percepção de que o trabalho criativo/imaterial não tem tanto valor leva ao famigerado discurso da visibilidade. Ilustradores e ilustradoras (especialmente em início de carreira) já ouviram muito esse discursinho: “Faz uma ilustra para minha empresa, vai ser bom para o seu portfólio! Vai te dar visibilidade!”. Às vezes, essa visibilidade pode ser um investimento interessante, conduzir para projetos que vão compensar financeiramente (já aconteceu comigo algumas vezes), mas, na maioria das vezes, é só alguém querendo explorar você.
Tenho uma historinha polêmica sobre isso. Na faculdade (me formei em publicidade), tivemos um trabalho que era produzir um filme de 30 segundos e o cliente era a própria faculdade. O professor, para “incentivar” a turma, disse que o trabalho com a maior nota seria veiculado na TV. Eu, que tenho que ser chata e questionadora, perguntei: “e se o aluno não quiser?” O professor sequer tinha considerado essa opção; via como uma oportunidade para o aluno “expor o seu trabalho”. A questão é que a maioria das pessoas no meu grupo já trabalhava em agência, inclusive eu. Um dos integrantes trabalhava para uma agência que atendia a faculdade concorrente; ou seja, isso podia dar problema depois. Além do mais, eu já era paga para fazer esse tipo de trabalho em uma agência (como redatora) e não fazia sentido fazer o mesmo trabalho de graça para a faculdade. Fazer o trabalho pela nota, tudo bem. Mas não aceitamos que o trabalho pudesse ser veiculado. Resumo da ópera: o professor ficou puto com a gente, perdemos nota e o trabalho que ganhou a melhor nota acabou não sendo veiculado.
O que achei uma pena mesmo foi, no próprio curso de Publicidade e Propaganda, ensinarem que o nosso trabalho não vale nada. O problema não está só no mercado; está, também, na sua formação.
***
Vez ou outra aparece alguém querendo me pautar: “Aline, você poderia escrever sobre (insira tema nada a ver aqui)” ou “Você poderia ter escrito esse texto dessa forma, em vez dessa”. Se é sobre um tema que eu não teria vontade de escrever normalmente, se ela vem me pedir para escrever algo como se ela fosse minha cliente, e não minha leitora, eu suponho que a pessoa esteja me brifando para um trabalho pago, certo? Respondo com um: “ok, te passo um orçamento”. A pessoa não me responde mais.
Eu escrevo de graça para o meu blog, para meus projetos pessoais ou projetos que tenho com amigos. Mas eu escrevo sobre o que eu quero, do jeito que eu quero, no meu tempo.
Se você quer que eu escreva algo para você, sobre o que você quer, do jeito que você quer, é só me pagar e terei o maior prazer. Inclusive, sou bastante rápida e não tão cara quanto você imagina. Se precisar, é só me explicar sobre o trabalho e me pedir um orçamento.
Agora, o que eu escrevo de graça, não tenho o menor problema em disponibilizar de graça. Em breve vou disponibilizar 3 ebooks de contos meus para download gratuito e deixo os textos desse blog à disposição para as pessoas reproduzirem em seus blogs, trabalhos de faculdade ou cartões de aniversário para a mãe, desde que para fins não-comerciais. Explico sobre as condições para usar meus textos aqui. É sério: podem usar os meus textos. Spread the word.
***
Acredito que foi através da Clara Averbuck, uma escritora foda que muito admiro, que descobri esse vídeo, de um roteirista reclamando da cara de pau das produtoras de Hollywood que, vira e mexe, pedem para os roteiristas fazerem algo de graça. “Eu não daria sequer uma mijada sem ser pago por ela”, diz Harlan Ellison:
Para finalizar, pego emprestada a frase de Cacilda Becker (acho) para fazer um apelo: “não me peça de graça a única coisa que tenho para vender”. Só porque você não pode pegar com as mãos uma coisa, como você faz quando vai fazer compras no supermercado, não significa que essa coisa não tenha valor.
Aí que estou de bobeira na livraria (sempre vou à livraria para matar o tempo, não para comprar livros) e encontro o Sonhei que a neve fervia. Ouvi muita gente falar desse livro, mas não conhecia ainda trabalho da autora – só mesmo o blog e uma peça adaptada de seu romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leites. Ela até estava na plateia, mas como na época eu ainda não sabia who the fuck is Fal Azevedo, eu não fui lá dar um abraço nela e dizer: “cara, você é demais”. Porque hoje em dia eu faria isso, sem dúvidas.
Nem estou tão acostumada assim a ler não-ficção, mas a linguagem do livro é uma delícia. Cheguei até a sentir que eu estava, sei lá, invadindo a privacidade dela por estar lendo coisas tão íntimas. Por outro lado, eu me sentia parte do que ela estava narrando. Uma pequena amostra de porque me identifiquei tanto com a Fal:
Minha mãe tem um lance esquisito com telefones tocando: ela atende. Meio da refeição, meio do filme, conversa, aflição pra fazer xixi, nada detém minha mãe ou a impede de, neuroticamente, tirar aquela porra do gancho e mandar um “Oláááá!” (sim, ela atende o telefone assim). Não passa pela cabeça dela deixar aquele treco tocar até derreter. Oh, não, jamais. Ela tem que atender, é mais forte que ela. Eu? Pufffff. Na grande maioria das vezes, nem sei onde o telefone está. E não, nem me dou ao trabalho de olhar quem é no visorzim cagueta. Não quero atender. Quando eu estou ocupada, quando eu não estou ocupada, de noite, de dia, o fixo, o celular, o dos outros, no meio do trânsito, eu não quero atender. Nunca, ninguém. Não quero falar no telefone. Não quero falar. Simples assim.
Outro trechinho genial (nem preciso dizer que me imaginei nessa cena):
Prédio comercial é uma armadilha para pessoas como eu, que já sou tonta na vida normal. Dentro duma multinacional, sou meu próprio Peter Sellers. Saí no andar errado duas vezes. No escritório chique do cliente idem, na frente duma secretária que parecia feita de biscuit, derrubei um cinzeiro, na sala do cara (num carpete desta grossura) derrubei um copo d’água, gaguejei para dizer meu nome, e, quando saí e entrei no táxi, não sabia pronde ia.
– Para onde vamos?
– O senhor espera só um pouquinho preu me lembrar?
Quer dizer, Mundo Real 10, eu 0.
Enfim, a Fal é uma gostosura. Sonhei que a neve fervia é um livro de angústias, mas também de risos. É um livro escrito na base de “drops” (pequenos trechos sobre coisas diversas na vida da narradora, como os trechos acima) e pequenas conversas, que juntas formam uma conversa única, cheia de mineirices como “procê”, “cousa e tale” e “pronde”. Como não amar?
É um pouco chateada que escrevo este texto. Desde o início do ano parti numa trip literária, louca para colocar em dia minha leitura, ler os livros que nunca tive tempo para ler, conhecer novas histórias, buscar referências. Daí que todo mundo me falava do Kerouac, que eu precisava ler, que eu ia gostar, que era essencial, que On The Road era o tipo de livro que mudou a vida de muita gente e essa coisa toda – tive que considerar o livro para a minha lista, e olha, eu estava ansiosa para ler. Tão ansiosa que, quando não encontrei o On The Road na livraria, considerei levar Os Vagabundos Iluminados. Mas lembrei do que o Marcos sempre diz quando vamos pela primeira vez a alguma hamburgueria: não inventa moda na hora de fazer o pedido, pede o hambúrguer básico que geralmente é a especialidade da casa. Resolvi não arriscar com Kerouac, e como todo mundo só falava de On The Road, tinha que começar por ele.
O negócio é que eu não gostei. Foi um caminho de 461 páginas difícil de percorrer – e é tão difícil para mim admitir isso. Tudo bem, a gente acaba encontrando autores que não gosta, histórias com as quais não se identifica, isso acontece, a vida segue. Mas eu fiquei me perguntando: o que aconteceu entre nós, Jack? O que faltou para as coisas darem certo, para rolar aquela química? Foi algo que eu não entendi, Jack? Talvez seja só que, não me leve a mal, você não faz o meu tipo.
Não estou dizendo que foi uma merda. Foi muito inspirador conhecer o livro que, reza a lenda, foi datilografado furiosamente em vinte dias, em um único rolo de papel. Invejo você, Jack. E foi esse manuscrito em rolo que foi recusado por vários editores antes de finalmente ser publicado, com diversas alterações, em 1957. A versão que eu li, a original, é descrita pela editora como “mais selvagem” e também mais crua. O livro inteiro é um único parágrafo, como uma pista em linha reta, sem curvas, que você precisa seguir com atenção porque se você desviar o olhar por um segundo você se perde ou bate de frente com o caminhão que vem do outro lado.
O livro, dividido em cinco partes, conta a história de Jack atravessando o país (o dele, claro) e vivendo ao deus dará. Só nessa brincadeira, ele foi da costa leste a costa oeste, e de volta para a costa leste umas três vezes – e, depois, da costa leste ao México. Apesar da exaustiva descrição dos percursos das viagens (fiquei tão cansada como se estivesse, de fato, viajando com eles em um carro velho), há momentos interessantes e personagens que valem a pena. Jack mandou muito bem nos trechos em que narrava shows de jazz – tinha ritmo, energia, e a música é algo muito difícil de transmitir só com a escrita. Coisa que ele conseguiu. Mas quem segura a história mesmo é Neal Cassady (ou Dean Moriarty, dependendo da versão que você leia). O cara é um porra louca, imprevisível, parece um cão abobalhado: tudo o excita e sua energia parece não acabar “sim, sim, simmm!”. Pegar no volante o deixa tão feliz quanto um cão agarrar um belo osso. Neal foi o que pulsou e brilhou em meio a uma história que, pelo menos ao meu ver, foi sobre o mapa dos Estados Unidos da América.
cena do filme
On The Road tem sim seus pontos positivos – não nego. Mas não consegui me encantar por ele. Talvez seja por uma questão de contexto (e eu estaria fora dele). A liberdade e o desapego podem ser um tema muito mais interessante para quem está justamente do outro lado da coisa, buscando esse escape em um livro porque é o que não tem na vida real. Ou, por outro lado, um livro sobre pegar a estrada pode gerar grande identificação com quem gosta de fazer isso e o faz com frequência. É claro que existem vários fatores para alguém gostar ou desgostar, mas o que quero dizer é que um livro não é “gostável” por si só. O mérito de um bom livro é metade do escritor – e a outra metade, do leitor. Você pode até ter uma visão diferente da minha e gostar, quem sabe. Estou com o livro aqui à disposição.
Jack, não foi dessa vez. Fica para a próxima, ok? Agora você me dá licença: vou ali voltar para o Bukowski – o único vagabundo do qual consigo gostar.
Sempre falo da importância de ser crítico e de não acreditar em qualquer bobagem que se vê por aí, mas como leitora faço questão de ser crédula. Gosto de acreditar nas histórias bem contadas e já cheguei a dizer que alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores.
Quando me deparei com a história do Livro Infinito, escrita por Alex Luna, acreditei de tal forma que quase não acreditei que aquele texto seria o prólogo de uma coletânea de contos chamada Mentirinhas (à época). Tive o privilegiado acesso aos textos antes de serem publicados como Inverdades (com um subtítulo que considero perfeito: “pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom”).
De cara, você vai se deparar com algo curioso: todos os contos têm nomes de personagens mitológicos, deuses esquecidos, santos ou personagens bíblicos. Isso tem tudo a ver com o prólogo, em que somos apresentados a manuscritos que supostamente contêm a fórmula das histórias universais da humanidade.
A maior descoberta literária de todos os tempos aconteceu há mais de sete séculos, num mosteiro da velha Castilha. Depois de duas décadas copiando e traduzindo textos em latim, árabe e grego, o frei Giorgio Romano encontrou o esboço da Teoria do Todo Literário num manuscrito árabe. No texto, atribuído a um pensador da corte do grande sultão Harum al-Rachid, é levantada a hipótese de que todas as histórias são repetições de padrões, assim como as palavras são apenas repetições de letras. Para o autor do manuscrito, cuja identidade não foi identificada pelo monge, novos autores podem tentar recriar as histórias com novas roupagens, mas nunca conseguirão criar um texto original.
Judas
É sabido que as histórias se repetem, e não é de hoje, como mostram as infindáveis adaptações e remakes vistas no cinema: até a história de Jesus tem incríveis semelhanças com outros mitos ainda mais antigos. Em Inverdades, essas semelhanças são muito bem-vindas, mas nem sempre tão óbvias. Os títulos de cada história dão uma pista, mas às vezes é preciso pesquisar para entender qual é a relação dos personagens do livro com seus respectivos mitos.
Isso faz de Inverdades um livro cheio de easter eggs para serem desvendados. E essa experiência (altamente recomendável), de buscar o significado dos mitos em cada conto, faz com que as histórias não se encerrem ali. Não foram poucas as vezes em que recorri ao Google para pesquisar mais sobre os mitos e sempre me surpreendi: tanto por ter descoberto uma história que ainda não conhecia, quanto por ter encontrado uma engenhosa associação com as histórias escritas por Alex Luna. Você nunca ia imaginar, por exemplo, que a história bíblica de Jonas e a baleia pudesse ganhar contornos eróticos em um conto perturbador sobre bondage, dominação e sadomasoquismo.
Não se engane: não é história para crianças
É até difícil eleger uma inverdade favorita, mas gostei particularmente de São Jerônimo Penitente, a história de um velho ateu e moralista que morre e tem seus segredos mais pervertidos descobertos pelo seu neto. É aquela história gostosa de ler, especialmente pelo peculiar tom de humor que ela carrega, aquele típico de velhos ranzinzas que não veem graça em nada.
O velho, estirado no caixão, dormia o sono dos que já vão tarde. Pelo menos, era o consenso familiar. (…) Nunca estava bem-humorado e dizia sempre que o segredo de uma vida longa era querer que ela não durasse muito, porque se dizia pelos cantos, principalmente pela parte da família materna de Robson, que já era hora de o velho esticar as canelas. Claro está, odiar o sogro é um esporte nacional. Mais que isso, quase um imperativo categórico obedecido até pelos alienígenas, se acaso tivessem o infortúnio do casamento na sua civilização, teoricamente avançada.
Aliás, outro mérito do livro é ser um desfile de personagens com voz própria, que marcam cada conto com uma linguagem única. Você viaja com rebeldes pelo ambiente agreste do sertão em Judas, passa pelas desventuras da imigrante Núbia nas ruas de Lisboa em Chih Nu, e chega até Roma, falando italiano com o cientista Daniele, em Galatéia. Personagens com tanta profundidade que têm até textura.
Nem Colombina ficou de fora
Tão admirável quanto a habilidade narrativa de Alex Luna é o seu empenho, cara e coragem de publicar seu livro de forma independente. Se você é dos que escrevem, fica a inspiração: fazer literatura não depende de nada, a não ser de você mesmo. Se você também é dos que leem, fica a dica: Inverdades é uma ótima leitura.
Como comprar
Basta clicar aqui e comprar o livro na Amazon, em edição para Kindle.
“Ah, mas eu não tenho Kindle, mimimi”
Você sabia que dá pra baixar o Kindle pro seu pc ou mac? Eu também não sabia. Pois é, dá para fazer o download gratuito aqui. Depois, é só aproveitar a leitura. :)
A primeira coisa que fiz quando terminei de ler o livro do Alex Castro, Onde Perdemos Tudo, foi procurar sobre Jácome Gol. Um escritor que tem forte influência sobre o último conto do livro, A Falta Que Nos Fazem Os Figos, além de ser autor do livro Quando Morrem Os Pêssegos, que dá nome a outro conto. De acordo com o próprio Alex, Gol é “um autor brasileiro menos conhecido”, mas desconfiei mesmo assim. Alex é daqueles escritores que levam a ficção ao extremo. É admirável e, ao mesmo tempo, assustadora a forma que ele faz você acreditar em qualquer coisa que ele escreva.
Alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores. É o que a gente espera quando pega um livro para ler: que o escritor consiga sustentar sua mentira durante as quinhentas e oitenta e cinco páginas e além. Onde Perdemos Tudo não tem tudo isso, claro. É uma leitura rápida, por ser um livro curto e agradável. E também não é nenhuma mentira: as histórias falam sobre algo que é bem real na vida de todos.
Essa veracidade das histórias, mais do que o tema da coletânea de contos – a perda, foi o que me chamou a atenção. Poderia jurar que conheço o personagem-narrador do conto A Morte do Meu Cachorro. Além do mais, o livro já começa com um conto onde eu mesma sou uma personagem. Na verdade, é a dedicatória.
Querida Aline,
Espero que tenha chegado bem. As crianças já estão na cama. Eu saí pra comprar cigarro e já volto. Por favor, não esquece de tirar o lixo e passear com a Lulu. Devo voltar antes das onze. Te amo. Do seu marido, Alex. SP, 23/11/2008
E é assim, com relacionamentos que se acabam, despedidas, mortes e outras perdas que o livro continua. Encaramos, de uma só vez, as situações mais difíceis de se encarar. Muitas pessoas – a quem eu indicaria fortemente a leitura deste livro – não conseguem lidar com a perda. Não aceitam, não superam, não se desapegam. Acabam se perdendo. Porque, apesar da evidente contradição, a vida não está completa enquanto não perdemos algo. O emprego, o cabelo, os amores, os amigos, o dinheiro, a vergonha, a fé, uns quilinhos, os pais, as chaves de casa, o último capítulo da novela, a virgindade, o ônibus, o jogo, a vez, as vistas, os dentes. Ser adulto é isso: engolir o choro e aprender a perder. Sobre essa maturidade, Alex Castro escreveu A Morte do Meu Cachorro, que começa assim:
A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro.(…) Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam. Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.
Também vemos, neste e no conto com o mesmo nome do livro, a diferença entre o fim de uma amizade e de um relacionamento amoroso. Amores, como o de Ramiro e Jáque, terminam de forma dolorosa, mal-explicada e abruptamente, deixando no lugar um passado incômodo e um presente confuso. Amizades não precisam terminar de fato pra gente saber que acabou. A vida se encarrega de distanciar as pessoas antes que elas percebam que a vida delas se descruzaram e, mesmo que se cumprimentem sem ressentimentos de ex-namorados, já não têm mais assunto. “Será que não percebem o quão ameaçador é o silêncio de quem já disse tudo, de quem já partilhou tudo?” Mas só porque essa perda acaba sendo mais natural que a outra, não significa que seja mais suportável. Afinal, a morte também é uma perda bastante natural.
Certamente, o tema rende. Quem sabe não sai um segundo livro com mais contos? Enquanto isso, fico no aguardo do lançamento, previsto para 2012, da reedição de Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol.
Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).
Your mind, a wild monkey
Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).
A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.
Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.
O que eu vejo: só texto
Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.
Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.
Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.
O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.
Sem dúvidas essa foi a descoberta que mais me impressionou nesses últimos dias. Na verdade, sempre fico impressionada quando vejo que tal escritor ou tal poeta também já escreveu para a propaganda, como é o caso por exemplo, de Olavo Bilac e até do autor de Como a Starbucks Salvou a Minha Vida.
Foi no livro de outro redator, Roberto Menna Barreto, que encontrei o nome de Orígenes Lessa. À primeira vista, é um nome esquisito. Mas para mim, é muito familiar. A sensação foi de cruzar na rua com um velho conhecido. E o que ele estava fazendo ali, afinal? No início da carreira de Barreto na publicidade, Lessa era ninguém menos que o redator mais foda da JWT, lá pelo final dos anos 50.
Nunca vi sequer uma peça publicitária dele. Mas a sua escrita eu conheço desde bem antes de saber que existia a profissão de redator. Ele já figurava nos meus livros escolares e foi o autor de dois dos livros que marcaram a minha infância: Memórias de um Cabo de Vassoura e Confissões de um Vira-Lata. Geniais. Claro que a bibliografia dele é bem mais extensa, incluindo contos, romances, ensaios e até reportagens.
Daí que o cara volta, comigo já adulta, e mostra que ainda tem algo importante para me ensinar. Dessa vez, não na matéria de Português; mas em Propaganda.
No início do livro “Criatividade em Propaganda”, Roberto conta como foi começar na carreira de redator em uma grande agência. Fala dos bloqueios, dos erros, dos jobs que viravam pesadelos. Não conseguia produzir. Até que um dia, Lessa chegou puto na agência. Tinha acabado de ler um excelente conto do jovem redator, publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil. Não conseguia entender como alguém capaz de escrever algo daquele tipo não conseguia escrever nada que prestasse durante o expediente. Roberto ficou desesperado. Explicou que tentava seguir as regras, mas eram tantas!
Então Orígenes Lessa responde com o que considero uma grande verdade. Reproduzo abaixo:
Roberto, propaganda… é uma merda! O melhor anúncio não vale um bom conto ou um bom poema. A não ser para o imbecil que anuncia e para o imbecil que compra! Propaganda serve sabe para quê? Para se ganhar dinheiro mais fácil. Para se ter tempo! Tempo de escrever, de ler, tempo de produzir coisa séria!
Sabe o que é propaganda, rapaz? Olhe para este lápis. Você tem de fazer um anúncio sobre este lápis. Você fixa este lápis e rebusca na cabeça o que você pode dizer – não importa o que, nem como – capaz de levar o cara que vai ler a comprar este lápis. Você tem de convencer o sujeito, só isso!
E pensando bem, ver as coisas simples assim ajuda bem mais na criação do que acreditar que fazemos anúncios ou as pessoas morrem. Não foi por acaso que Lessa se tornou o redator mais importante da JWT. Ou um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.
Não é sempre que posso, mas gosto bastante de ler contos e textos enquanto desbravo esse mundão velho sem porteira da blogosfera. Já vi de tudo: desde os mais talentosos (devidamente favoritados em uma pastinha especial no meu GReader) até aqueles que… bem, às vezes nem o layout salva. Percebo que falta maturidade. Saber ortografia e gramática nem sempre é o problema; são pessoas que sabem acentuar e construir frases minimamente inteligíveis. Mas convenhamos: escrever bem exige mais do que dominar o português.
Aí eu vejo uma galera cheia de potencial, mas escrevendo textos rasos, pouco criativos. Dava para ir muito além. Mas texto após texto, os vícios de linguagem se repetem. Só pra citar um exemplo, o uso de pronomes pessoais durante a história inteira. Chega uma hora que você nem sabe mais quem está falando: nenhum personagem tem nome. Parece uma tentativa de disfarçar que a história é sobre o próprio autor, mas não é diário, não. É arte, literatura conceitual, emoção pura. E aí fica claro que algumas pessoas não conseguem ir muito longe: só escrevem sobre o que gira em torno da própria vida. Sim, essa é uma fonte de referência importante, mas não é a única. E como é a mais acessível, a mais segura e aquela com a qual a pessoa mais se identifica, ela não procura outras formas de contar histórias. Fica na zona de conforto.
Essa é a parte onde entra uma das coisas mais importantes que eu aprendi desde que comecei com isso de ser redatora. Em um dos primeiros exercícios do curso de Redação que fiz, o professor (na época era o André Barreiros) passou um exercício onde cada um escrevia em um pedaço de papel o tema sobre o qual mais gostava de falar. Depois ele pedia para trocar esse papelzinho com o colega ao lado, e para espanto geral da sala, pedia para desenvolver um texto sobre o tema do outro. A dinâmica era para incomodar mesmo.
Você fica ali, olhando para o papel, sem saber o que escrever. Você é forçado a isso. Escreve sôfrego, vê que não é tão fácil, e no final acha tudo uma merda. E então percebe que quando precisa escrever sobre algo que não gosta, tem que pesquisar sobre isso. Ler outros textos sobre o assunto, que em outra ocasião, você dificilmente leria. Precisa abandonar preconceitos. Experimentar. Esse exercício é o fórceps da escrita: abre sua mente à força. No fim do processo, sua imaginação também se expandiu.
Redação publicitária é isso. Mas acredito que esse exercício seja importante para quem cria romances, ficção, fantasia, etc. Daí podem surgir personagens novos e enredos surpreendentes – até para quem escreve. É um exercício que ajuda a quebrar bloqueios, e no mínimo, você já tem um texto para publicar em seu blog e não deixá-lo desatualizado por mais de um mês (sorry galera, final de semestre!).
Se você escreve, essa é minha dica: levante essa bunda preguiçosa do conforto dos textos de sempre e vá explorar o desconhecido com a sua escrita. Desafio é o que não vai faltar. Mas se faltar, tem o PSV Site Crônicas, que vai estar cheio deles para você não deixar de praticar. Vai por mim. ;-)
Alguns defendem que evoluímos do macaco; outros acreditam que os homens surgiram do barro e as mulheres de uma costela. E tem até quem acredita que viemos parar neste mundo após cair de um cometa. Em geral, os humanos discordam sobre sua própria origem. Mas temos que concordar em uma coisa: contar histórias é algo que os humanos fazem muito bem desde o começo.
Quer um exemplo? O livro bíblico Gênesis. Apesar de escrito por uma galera tão antiga quanto andar sobre as duas patas, ainda hoje arrebata milhões de leitores (com o perdão do trocadilho cristão). É de dar inveja a qualquer bruxinho mirim.
E quando vi na livraria a adaptação para quadrinhos desse famoso livro, fiquei louca para ler. Segurei meu ímpeto consumista e tive a sorte de descobrir que meu amigo Doug já tinha o livro. Peguei emprestado e devorei em uma noite e uma manhã.
Robert Crumb fez um trabalho genial ao adaptar LITERALMENTE as passagens bíblicas para os quadrinhos. Não “enfeitou” a história com simbologias, metáforas ou interpretações. Tá tudo lá, ipsis literis.
Eis Robert Crumb
“Todas as outras versões em quadrinhos da Bíblia que vi contêm passagens com narrativas e diálogos completamente inventados, numa tentativa de ‘modernizar’ e deixar mais ‘dinâmicas’ as velhas escrituras”, conta ele no prefácio. Como procurou manter-se fiel à versão original, traduzida por Robert Alter, a linguagem é cansativa. Tem trechos repetitivos, alguns deles truncados com um monte de nomes próprios difíceis, e a narrativa é seca, rápida e crua. Mas suas fabulosas ilustrações conseguem deixar a leitura deliciosa.
Não é muito difícil saber do que se trata a história. Afinal, o protagonista é o personagem mais adorado do planeta. E não estou falando do Calvin, que em matéria de sabedoria e carisma ganha de lavada do todo-poderoso.
"É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos." Calvin
Quanto a Deus, foi interessante reparar em como se desenvolveu e se relacionou com os demais personagens ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, está no centro da narrativa e tudo se faz de acordo com a sua vontade. Quer dizer, os humanos parecem sempre inclinados a contrariá-lo. Talvez isso explique seu mau-humor: não existe um quadro sequer em que Deus esteja sorrindo.
Mais ou menos depois do incidente com a Torre de Babel é que ele passa a aparecer menos; de vez em quando se dá ao trabalho de falar com seus escolhidos através de sonhos ou delírios. Isso mostra que quanto mais pessoas e clãs vão surgindo no mundo, mais as pessoas ficam voltadas para as complexas relações umas com as outras. Todos ocupados demais com suas próprias questões, mas sem deixar de usar deus como justificativa pra tudo. Igualzinho hoje.
(Ah! Esse episódio da Torre de Babel me deixou impressionada e revela um aspecto importante do cara: estavam lá os humanos construindo um baita monumento para fortalecer seu espírito de união. Uma coisa linda. E Deus faz o quê? Pirraça. Ele pensa: “Eita ferro. Um povo que fala uma só língua pode fazer o que quiser! Nem pensar que eu vou deixar.” E aí vocês já imaginam o que acontece.)
A mesa do criador
Felizmente, o livro é um desfile de personagens mais interessantes do que esse. Mas não fiquei surpresa ao perceber que a narrativa acompanhava apenas os patriarcas, embora as personagens mulheres fossem mais fortes e decididas, donas do seu próprio nariz e capazes de gerar viradas impressionantes na história (a exemplo de Rebeca e Raquel).
Dentre os patriarcas, o que mais me impressionou foi Jacó (depois chamado Israel). Trabalhou como um condenado 20 anos a serviço de Labão, pai de Raquel. Foi enganado e explorado pelo sogro, que não queria deixar que ele voltasse para sua terra com suas duas esposas. Jacó pede para que pelo menos tenha suas próprias provisões. Então faz um acordo com Labão: ele trabalha mais alguns anos cuidando do rebanho, e todas as ovelhas negras e cabras malhadas ficam como seu pagamento. Labão aceitou, lógico. Era muito mais comum nascerem cordeiros brancos e cabras negras. Aí Jacó utiliza a genética a seu favor: separa os animais mais saudáveis para cruzar perto do bebedouro onde cravou estacas com listras. Dessa forma, nasciam crias com manchas. E então começa a fazer os animais listrados e fortes cruzarem entre si, criando um rebanho especial. Ok, fora a parte das estacas, é pura ciência.
Além disso, a história está cheia de putaria explícita, estupros, sanguinolência, saques, pelo menos dois genocídios promovidos por Deus, desavenças mortais entre irmãos, duas filhas que engravidam do pai, e até um pai que quase mata o próprio filho em sacrifício ao seu deus. Não falta emoção, pode ter certeza.
Enfim…
Sodoma antes do genocídio
Espero não ter ofendido ninguém, afinal, essa é minha análise do ponto de vista literário. Como aspirante a escritora e amante da leitura, reconheço no livro Gênesis uma história riquíssima. Foi ali que os hebreus depositaram as histórias sobre a origem do seu povo, e a meu ver, usaram o recurso da fantasia por dois motivos: a) não tinham conhecimento para explicar, de forma racional e científica, os acontecimentos e fenômenos ao seu redor, ou como e porque as coisas e pessoas eram do jeito que eram; e b) esses elementos sobrenaturais deixaram a história mais legal, oras. Ou se Edward não fosse um vampiro (ok, há controvérsias), você acha que existiria uma legião de adolescentes enlouquecidas pela saga?
Você mede um sucesso literário pela quantidade de leitores entusiastas que a obra gera. E nesse quesito, a Bíblia não tem nem comparação. Impressionante como os caras conseguiram fazer uma história resistir milhares de anos, chegando para milhões de pessoas. E mais: conseguir, nos dias de hoje, um cara tão foda como Robert Crumb para ilustrá-la.
Isso de ser redator não é para quem gosta de escrever. E para a gente começar a conversar, você precisa ter bem claro na cabeça que uma coisa é ser redator; outra é gostar de escrever. Acontece de alguém entrar nessa e pertencer aos dois conjuntos (nossa, eu não uso esse termo desde as aulas de matemática na primeira série). Mas uma hora, esse alguém: a) de tanto ser redator, deixa de gostar de escrever; ou b) por gostar tanto de escrever, desiste de ser redator. Bem, estou há pouco tempo na profissão. Então tudo o que posso dizer é que ainda estou na fase de ser redatora e gostar de escrever.
Por que são duas coisas bem diferentes? Basicamente, gostar de escrever significa tesão. É aquele prazer em criar as próprias histórias, dar vida aos seus personagens, escrever o quanto e o quê vier na telha. Claro que envolve boas doses de sofrimento e angústia criativa. Mas ainda assim, você faz pelo seu prazer. Algo bem egoísta mesmo. Foda-se as regras, estruturas e técnicas. Quem gosta de escrever, escreve primeiro para si mesmo.
Redator não: escreve sob demanda. Escreve o que o cliente quer, muitas vezes sobre coisas que não gosta, e às vezes nem entende. Precisa ser inteligente, criativo, surpreender. Mas precisa ser persuasivo sempre. E para isso, precisa seguir algumas regrinhas. Claro que envolve a mesma angústia criativa. Muitos tem tesão pela coisa. Mas é bem diferente: você está escrevendo porque é o seu trabalho.
É meio que como ser puta. Ok, todo publicitário é meio puta, por motivos óbvios (aquela velha piadinha: passamos o dia abrindo as pernas para o cliente, sempre chegamos tarde em casa e nossos pais não sabem direito qual o nosso trabalho). Imagine que o seu trabalho é transar a semana inteira, mas prazer mesmo você sente quando transa nas horas de folga – porque quer, quando quer, e com quem quer. Ah, viu só? Quando relaciona com sexo, fica mais fácil de entender.
A vontade de falar sobre isso surgiu quando conheci o blog de uma dupla de redatores. Adorei cada um dos textos. Curtos, precisos, engraçados, uma delícia de ler. E mesmo se eu tivesse chegado ao blog sem saber que era escrito por dois colegas de profissão, eu saberia de cara.
Primeiro, porque estava super bem escrito. Apesar de conhecer ótimos blogs, acho cada vez mais difícil encontrar blogueiros que saibam escrever (atenção, outro ponto importante: saber escrever, gostar de escrever e ser redator raramente são conjuntos que se cruzam).
Outra coisa foi reconhecer em todos os textos cada um dos recursos que o redator usa em seu trabalho. As tais regrinhas da persuasão, sabe? Tudinho ali. É nessas horas que acho uma merda ser redatora. Eu podia simplesmente rir com o texto e achar legal, como a maioria dos leitores fazem. Mas não: leio analisando, como quem disseca uma rã. Aí consigo ver, claro como a água, o mecanismo por trás do texto. Não tem muita graça ver um show de mágico quando você também é um. Fico mais preocupada em entender o truque do que admirar a mágica. “Hm! Olha lá, olha lá! Tá usando retórica aristotélica!” Claro que o texto não deixa de ser bom, mas você entendeu.
É nessa hora que eu me preparo para receber algumas pedradas, mas preciso desabafar. Um texto de blog elaborado assim, para atingir seu público de forma deliberada, do jeitinho que a publicidade ensina, perde boa parte de sua personalidade. Aquela personalidade bem própria de quem gosta de escrever. De quem escreveu pelo tesão, pela necessidade de satisfazer primeiro a si mesmo, para só depois se lembrar (caso se lembre) de que depois alguém vai ler aquilo (caso alguém leia). Coisa de blog raiz, blog moleque. Um texto sem essa personalidade soa profissional demais.
Entendo que hoje em dia, blog é mais do que forma de expressão: também é profissão. Cada blogueiro tem um objetivo, e o de muitos é ganhar dinheiro – nada mais justo e digno. Mas a tal da personalidade dos textos é o maior indicativo de sucesso de um blog “monetizável”, não acham?
Já um texto com estrutura persuasiva está vendendo algo – no mínimo uma ideia. Mas se o texto está lá, supostamente para oferecer o prazer da leitura, e não tem o objetivo de vender nada, ou me convencer de alguma coisa, por que raios foi escrito dessa forma tão publicitária? Assim, só para me convencer que é bom? Esse esforço é desnecessário. Um texto bom não precisa da persuasão para me convencer disso.
Claro que essa é uma visão bem particular de quem está imersa o tempo inteiro em títulos, textos de apoios, e todas as fórmulas publicitárias de escrever. Quando saio da agência, tiro o jaleco de redatora e abro a gaveta dos personagens e das histórias malucas. Imagino que seria deprimente viver o tempo inteiro como redatora. Seria como trabalhar na cozinha do McDonald’s, e ao chegar em casa, preparar um baita Big Mac no jantar.
Aqui eu procuro escrever algo diferente do que preenche a minha rotina na agência. Se quiser ler títulos, recomendo que procure um anuário de propaganda.
Cada post que escrevo é um parto. Em parte, porque sou a leitora mais crítica deste blog. É difícil chegar em algo que me agrade. Também é difícil porque não tenho uma fórmula pronta a seguir. Vou sendo guiada pela tal angústia criativa, e como você já deve ter percebido, não me importo nem um pouco se o texto vai ficar muito grande nesse processo.
É isso mesmo. Lamento dizer, mas a última coisa com a qual me preocupo é em agradar você. Embora seja muito gratificante saber que tenho tantos leitores que leem até o último ponto dos meus textos quilométricos, e ainda me dão feedbacks incríveis, não é essa a minha maior motivação.
Anota aí: no dia em que eu passar a escrever só para o público gostar, pode saber que terei saído da intersecção entre quem é redator e quem gosta de escrever. Nesse dia, eu vou ser mais ou menos como uma puta bem profissional: o que já me deu tanto prazer vai ser só o meu trabalho.