Masculinidade, um traje fora de moda

Prólogo.

Existe um velho autoritário e amargurado que grudou no nosso mundo como um parasita. Ele se alimenta de canudinho da tragédia das mulheres e, se não pode explorar o sofrimento e a agressão contra essa parte da população, ele definha. Seca até os ossos.

Ele testemunhou incontáveis gerações humanas passarem pelo mundo que ele fez de hospedeiro. Sim, ele é muito velho.

Mas uma coisa que ainda não contei para vocês é que ele se camufla muito bem. Só assim conseguiu passar tanto tempo entre nós. Ele não é muito forte (se qualquer mulher o questiona, ele se treme de medo e mija nas calças), mas compensa sua fragilidade com sua malandragem. Ele tem o dom de se camuflar para parecer que faz parte da paisagem. Para que as pessoas olhem para ele e o vejam como algo natural.

O patriarcado, esse velho mesquinho, tem várias táticas para deixar as coisas em seus devidos lugares. Ele tem pavor de mudanças; especialmente se o que mudar for o papel que ele gosta de atribuir às mulheres. E uma de suas primeiras estratégias foi usar o seu talento de mestre dos disfarces para criar um traje especial. Uma roupa que deu aos homens, de forma que pudesse consolidar o seu domínio sobre este mundo.

 

masculinidade

A alfaiataria.

O patriarcado é um alfaiate muito reconhecido, embora só saiba costurar um tipo de roupa.

Ele criou um uniforme para que pudesse identificar seus aliados, os caras que o ajudariam (mesmo sem saber) a propagar suas ideias cafonas. Vestir, literalmente, a camisa do patriarcado.

Para criar este uniforme, o velho usou e abusou da fita métrica e da tesoura: estabeleceu a medida certa do que ele considerava um “homem de verdade” e cortou fora tudo que não se encaixava dentro desse conceito. Ser forte, dominante, não se deixar levar por sentimentos, não chorar, ser o provedor e, o mais importante, ser hétero. Mas tão, tão hétero que tivesse até nojo de tocar em outro homem. Tão, tão hétero a ponto de ver mulheres apenas como corpos disponíveis para sexo.

“Não assobiar para mulher na rua, gostar de coisas femininas, admirar o corpo masculino, falar de amor: tudo coisa de viado!”, disse o patriarcado enquanto riscava um sofisticadíssimo caimento homofóbico e misógino para o uniforme.

Não bastasse tudo isso, ter um pênis também era primordial para se encaixar nesse modelito. “Homem de verdade sem pau? Onde já se viu?”, resmungou o patriarcado enquanto costurava um botãozinho de transfobia. Porque, tão importante quanto ter um pênis, era se gabar dele. Dotar aquele órgão sexual de uma aura mística e até de individualidade, como se fosse uma pessoa – mais pessoa do que as mulheres que o patriarcado sempre desprezou.

Ao arrematar os últimos pontos, o patriarcado olhou orgulhoso para o uniforme que acabara de criar e o chamou de masculinidade.

“Vai ser um sucesso.”

 

A última moda.

Não foi difícil vender esse traje como a moda da estação: quem se vestia com o uniforme da masculinidade recebia algumas vantagens direto da mão do patriarcado. Logo, usá-lo passou a ser sinal de status. Os homens que não usavam esse uniforme eram vistos como inadequados, viravam piada.

O uniforme atraiu também pela versatilidade: dava para usar em casa, no trabalho e até para sair com os amigos. Essa moda atravessou épocas: o traje era passado de pai para filho, de filho para neto e assim por diante. Os pais já providenciavam uma versão miniatura para o enxoval do recém-nascido. Era um orgulho ver um menino desde cedo aprendendo a usar direitinho o traje herdado de seu pai machão!

Embora não fosse uma roupa de super-herói, a masculinidade fazia com que os homens vestidos com ela se sentissem poderosos. Superiores. Como acreditar que encher a cara de bebida era a prova de que honravam aquele uniforme – e depois dirigir bêbado, porque é coisa de “macho”. Não levar desaforo para casa. Usar a violência para se afirmar. Não aceitar um “não” de uma mulher, porque homem que é homem faz o que quer. Mostrar, nem que fosse na base da força, quem mandava em casa. Quem mandava no corpo da mulher. Quem mandava no mundo.

Era justamente o que o velho alfaiate queria.

 

O sufoco.

Os homens vestiram a masculinidade por tanto tempo que passaram a vê-la como algo natural, como algo que fazia parte de ser homem. Eles se esqueceram que a masculinidade foi uma invenção. E, da mesma forma que foi costurada, podia ser descosturada até virar apenas fiapinhos.

Algumas pessoas perceberam isso e começaram a questionar o uniforme. Pediam para que os homens se livrassem daquela coisa horrorosa. Muitos deles, satisfeitos com as vantagens que recebiam por vestir a masculinidade, não aceitaram tal afronta. Defenderam a masculinidade como se estivessem defendendo a própria identidade, a própria existência. Sentiram-se vítimas de uma terrível opressão – embora fossem as mulheres que continuassem a ser massacradas todos os dias. Eles não percebiam que aquele uniforme os deixavam tão ridículos quanto a birra de um garoto mimado quando a mamãe fala que não vai preparar o seu leitinho, que se ele quiser, ele que faça.

Alguns homens libertaram-se das amarras da masculinidade. Viram que era possível ser homem de outra forma. Viram que podiam criar o tipo de homem que eles mesmos queriam ser – e que não era obrigatório ser um babaca, atrair-se só por mulheres, gostar só de coisas de “macho”, não saber cozinhar ou não fazer as tarefas domésticas porque é “coisa de mulher”. Então perceberam o quanto a masculinidade era sufocante. Não era só um uniforme: era uma prisão.

O patriarcado arrancou os cabelos de ódio. Babou e gritou. Tentou convencer os homens de que a masculinidade ainda estava na moda, embora lá fora o traje estivesse sendo picotado em mil pedacinhos.

Ele contou mil mentiras e se revirou para fazer os homens acreditarem que PRECISAVAM da masculinidade. Muitos homens compraram essa conversa fiada. Eles estavam dispostos a defender a masculinidade com dentes, punhos, editoriais em revistas masculinas e até tiros – porque essa coisa, assim como o próprio patriarcado, só precisava de defesa porque era frágil como o ego de quem a usava.

A masculinidade, assim como o patriarcado, estava com os dias contados.

Este texto é a continuação de “Recado para as Inimigas” e parte integrante da coleção “Fábulas de um Mundo Antiquado” com historinhas para ensinar aos jovens desde cedo a merda que é o mundo atual (e com desenhos legais para colorir).

Fotografia da capa: Graham Campbell // Flickr Creative Commons.

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

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