Sozinho com um coiote

Estou obcecada com um vídeo. O clipe de Elastic Heart, da Sia. Toda vez que assisto (e não foram poucas vezes essa semana), ele me emociona profundamente e não sei exatamente explicar por quê.

Certo, tem o Shia LaBouf dançando de cueca e a pequena Maddie que dança de forma sobrenatural e a coreografia é excelente e a música também é bem foda, mas. Não, é algo por trás disso tudo.

É a história.

Um homem preso numa gaiola com um coiote. Não se sabe como foram parar lá, apenas que aquela pequena fera é sua única companhia.

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Ele tenta se aproximar, fazer amizade com o companheiro apavorante que o acaso fez o favor de jogar na sua cela, tentar conviver pacificamente com aquele bicho sujo, desgrenhado, cheio de dentes.

Mas toda vez que tenta, o coiote ataca. Na gaiola, o espaço é limitado para fugir e pequeno demais para um bicho arisco conviver com outro bicho que precisa de algum contato para sobreviver.

Um toque, é só o que o peço, o homem diz. O coiote morde e uiva e dá patadas: não!

O homem tenta chegar perto enquanto o coiote está dormindo. O coiote: morde. O homem chega devagar. O coiote: morde. E se eu apenas estender minha mão e esperar que o coiote aceite meu carinho? O coiote se aproxima desconfiado, dá algumas fungadas naquela mão cheia de dedos, mas: morde!

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A solidão pode fazer as pessoas agirem de forma estranha – e o homem, desesperado com aquele isolamento, parte para cima do coiote. Os dois lutam. O homem fica muito ferido, mas parece não se importar. Que diferença faz morrer se a outra opção é não ter ninguém?

E quando a coisa vai ficar feia, o coiote simplesmente passa pelas grades da prisão e fica fora do alcance dos braços do homem. Sim, o coiote podia ter saído o tempo todo. Mas por que não fugiu antes?

Então fica claro. O coiote queria a companhia do homem.

Coiotes, assim como homens, também não suportam a solidão – ainda que a necessidade de conexão de um e de outro fossem, de alguma forma, incompatíveis.

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Do lado de fora, o coiote vê o humano definhar sozinho e de repente é acometido de grande compaixão. Ele volta para a gaiola e permite ser tocado e carregado.

Mas o coiote entende que aquela relação é impossível. O homem nunca será coiote (mesmo que arreganhe bem os dentes) e o coiote nunca será homem (mesmo que toque o rosto de alguém com delicadeza). Um precisa tocar, o outro morder. O coiote entende que o homem, para sobreviver, precisa sair dali e encontrar um igual.

Então o coiote, num inesperado ato de amizade, puxa o homem e tenta ajudá-lo a sair da gaiola. Mas nunca descobrimos se ele consegue.

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Nota 1: o clipe foi inspirado nesta performance, em que o artista Joseph Beuys se trancou sozinho com um coiote durante dias.

Nota 2: É sinal de uma sociedade doente o fato de tanta gente associar o toque, o contato físico, a algo necessariamente sexual. Talvez isso esteja nos afastando.

Nota 3: “lesbically i’ll trust no one” é o meu trecho favorito da música.

originalmente publicado na edição #51 da newsletter Bobagens Imperdíveis.

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

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