Para onde vamos com tanta pressa

O ano só acaba mesmo quando a TV diz que acaba. No meu relógio era 00:00 assim, redondinho, mas me pediram para esperar, abraço agora não, que a Globo ainda está fazendo a contagem regressiva.

Alguns marcos são importantes demais para deixarmos na mão de gente comum, com relógios tão imprecisos (meu ano, por exemplo, tinha acabado há tempos). Precisamos de algo seguro e oficial como uma voz de jornalista contando do 10 a 1, para ter certeza de que, agora sim, podemos dar as boas-vindas a um novo kit de 365 dias.

Por isso tão simbólico que a TV, no último dia do ano, transmita uma corrida de 15 km, cuja reta final é uma ladeira íngreme, subida puxada. Não é fácil nem para quem está na frente. O segundo colocado atravessou a faixa de chegada e logo em seguida vomitou. Não mostraram no replay.

E eu pensando que já teria caído no chão toda vomitada e cagada bem antes disso.

Correr meia-maratona é mais sobre resistência do que velocidade. Claro, eles e elas correm rápido pra caramba. Não sou muito boa de matemática, mas tenho alguma noção aritmética para calcular que nem fodendo eu conseguiria correr 15km em 40 minutos.

Ser rápida faz a diferença, mas o mais importante é conseguir manter uma velocidade por mais tempo. É sobre ser consistente.

O ano em seu último dia do calendário e eu onde? Na frente da TV filosofando sobre meia-maratona, essa grande metáfora para o ano que acabava. 

As pessoas PRECISAM ver um herói ou heroína cruzar a faixa de chegada para assim terem a sensação de que, junto com eles (geralmente quenianos), também chegaram a algum lugar, apesar de todos exaustos, suados, massacrados pela jornada.

E, se está na TV, podemos acreditar. Parece mais real.

Boa parte do primeiro dia do ano passei na estrada. Eram 1000km para enfrentar, com um dos prêmios mais gratificantes já inventados: voltar pra casa. Mais filosofagem. Marcos, que estava ao volante, observou que pegar a estrada não era uma questão de acelerar para chegar mais rápido; mas de manter uma velocidade constante por mais tempo.

Era tempo, não km, que estávamos atravessando.

Motoristas experientes e maratonistas devem saber que a pressa não ajuda muito. Consistência, por outro lado, é o verdadeiro combustível: fazer algo por tempo o suficiente, mantendo o ritmo, inevitavelmente vai nos levar a algum lugar.

Na vida eu estava com os pés, os dois, metidos no acelerador. Sem nem saber porque corria tanto; ou, melhor, sei sim: porque o sentimento de estar atrasada sempre me acompanhou. Feito o coelho da Alice, sempre atrasado, atrasado, tenho que correr, atrasado para um compromisso.

Quando comecei minha jornada, vi que precisava correr porque me sentia sendo deixada pra trás, especialmente porque é mais difícil se manter na mesma linha dos melhores quando você não começou no pelotão de elite que sai na frente. 

Não é uma corrida justa. Não existe esforço extra que possamos injetar no passo para compensarmos a distância que se abriu entre nós e os primeiros colocados.

Tantos anos tentando recuperar esse tempo perdido, acumulados em experiências que não pude ter ou oportunidades que não cabiam a mim, me levaram mais rápido apenas à exaustão.

Porque nos aproximamos da linha de chegada apenas para descobrir que não chegamos a lugar algum, que há mais caminho pela frente, que estamos atrasados, atrasados, temos que correr, mais rápido, mais rápido.

Sei lá, pessoal. Eu já estou andando há um BOM tempo e ainda não encontrei esse lugar mágico e glorioso reservado aos vencedores, àqueles que CHEGARAM LÁ. Beleza, saí da minha cidadezinha; não me pareceu o suficiente. Conquistei independência financeira; mas sempre se pode ganhar mais, né? Me formei; ainda não era o suficiente. Mudei de carreira; vishe, só o começo. Meu nome se tornou conhecido; mas não o suficiente. Lancei um livro; não o suficiente. Inventei meu próprio trabalho; não o suficiente. Fiz um bocado de coisas e ainda: NÃO. O. SUFICIENTE.

Então pera lá, muita calma. Para onde estou tentando ir, para início de conversa? Que sucesso é esse que parece existir apenas na viseira inatingível do meu horizonte?

Foi quando me dei conta que até então eu não tinha uma definição exata e mensurável do que significava para mim o SUCESSO.

Ter dinheiro? Quanto? Ter seguidores? Quantos? Ter reconhecimento? De quem? Pra quê? O que acontece quando a gente consegue SUCESSO? Uma repentina sensação de que temos tudo resolvido e agora está tudo bem, não precisamos ir a mais lugar nenhum? Sucesso é pra onde a gente vai curtir os frutos do nosso trabalho e ficar numa boa? Existe ficar numa boa, sem precisar buscar mais nada?

Quando a gente sabe que chegou lá? Onde é LÁ?

A aposentadoria parecia o mais próximo dessa ideia de chegar a algum lugar: você trabalha a vida inteira, fez sua contribuição à sociedade e pronto, agora pode descansar. Não sei você, mas a maioria dos aposentados que conheço trabalha até hoje.

(pensando bem, atualmente a aposentadoria me parece uma ideia tão distante e intangível quanto a de SUCESSO ou a do paraíso cristão)

A 100km/h na estrada é que tive a súbita percepção de que eu não precisava mais me preocupar em acelerar. Talvez eu já tivesse feito o suficiente. Vim de longe, muito longe, tão longe que eu já perdia de vista meu lugar de origem. Isso não é o suficiente?

Você sabe que a idade tem um pouco a ver com isso quando começa a se identificar com Almir Sater cantando “ando devagar porque já tive pressa”; ou talvez seja a maturidade de entender, enfim, que consistência é mais importante que velocidade. De qualquer forma, é a idade quem me diz: “sério, ‘cê não precisa mais provar nada pra ninguém.”

Não sei se preciso chegar a UM LUGAR para dizer que pronto, agora sim, consegui. Sucesso, defini, não se trata de cruzar a linha de chegada (que talvez nem exista), mas de conseguir manter o ritmo. Manter-se no caminho. Precisa mais que isso?

Essa ideia de SUCESSO faz sentido pra mim. Especialmente quando lembro que essa jornada não é bem uma corrida com um pódio no final. Não estou competindo com ninguém; estou sozinha, como cada um está sozinho em sua própria jornada.

A velocidade e a linha de chegada quem define sou eu. E até a contagem regressiva tomei de volta. Não vai ser a TV nem ninguém quem irá me dizer quando vou poder começar a percorrer o próximo ciclo – ou quando deve ser a minha hora de chegada.

Foto: minha. Algum lugar no meio de Minas.

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Texto originalmente publicado em 5 de janeiro de 2017 na minha newsletter. Receba mais textos como esse diretamente no seu e-mail. Assine grátis:

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