Fazer por mais tempo

Parte 4 de 5 de “Conversas de Papel”, uma série de textos com minhas reflexões sobre a vida na escrita e sobre qual é o meu papel nisso tudo.

Escritores escrevendo sobre escrever é um fenômeno muito mais observável do que dentistas escrevendo sobre ser dentista, ou tripulantes de voo escrevendo sobre as dificuldades e questões relacionadas ao ofício. É uma espécie autocentrada demais essa da qual faço parte. Mas confesso que escrever sobre escrever às vezes é inescapável; não por uma questão de excesso de ego, mas por uma carência gigante. Falta de respostas. Porque diferente de tantas outras profissões, as respostas não parecem tão dadas, de fácil acesso, para quem se aventura nesse negócio de ser artista.

Sinto que estou escrevendo ao vivaço o Manual de Como Ser Aline Valek Uma Artista Independente no Brasil do Século 21. Acrescento cada parágrafo com o custo dos meus erros, experimento na prática o que significam coisas que na teoria parecem muito bonitas e coerentes. Eu testo valendo, em tudo que faço. E escrever acaba servindo para registrar esse processo que se dá fora dos textos, com as minhas escolhas e ações.

Por isso, sinto que só falar sobre escrever acaba atrapalhando. Fica no caminho. Sem falar no termômetro de tédio apitando forte. Mas pelo menos ajuda a desembaçar os outros obstáculos que aparecem durante a trajetória. Já escrevi sobre isso nos textos anteriores da série: há a pressão por se enquadrar em expectativas e rótulos, há os percalços no caminho de ganhar dinheiro, há a tentação de ser uma celebridade. São obstáculos porque atravessam o caminho do que realmente importa: fazer. 

Há poucos dias, num debate com alunos de editoração e jornalismo da USP, surgiu a pergunta sobre como viver de escrita se é tão difícil chegar no mesmo patamar de autores consolidados — e citaram o nome de alguns, que estão com frequência sob o holofote da mídia, ou são reconhecidos bestsellers, ou são aqueles consagrados por prêmio, crítica ou uma audiência absurda.

Pensei um pouco, peguei o microfone e enfim tomei a palavra: “Vocês já assistiram Rocky?”

Eu achava que conhecia a história de Rocky, que claro que já tinha visto o filme (tão velho, tão clássico!) embora não lembrasse de muita coisa. Faz pouco tempo, decidi assistir (por consequência, maratonei toda a série de filmes) e descobri que, na verdade, eu conhecia apenas as cenas mais clássicas. O treino pelas ruas da Filadélfia, a música de superação, os socos nas peças de carne dentro do frigorífico, os ovos crus tomados de guti-guti. Até em Persépolis fizeram uma paródia. Eu conhecia Rocky como um símbolo de superação, não como personagem. Assisti o filme. Fiquei surpresa. Era uma história de emoções muito refinadas. Sylvester Stallone surpreende como roteirista, diretor e ator; além disso, ainda faz flexão com um braço só. É um filme de brucutu com diálogos shakespearianos.

O primeiro filme apresenta Rocky em sua essência mais rochosa: um cabeça dura de coração mole. Ele é um jovem que atua como capanga para uma máfia local. Sua profissão é bater nos outros, cobrar dívidas, trabalhar para o crime e usar jaqueta de couro, mas ele é um cara muito sensível, quase ingênuo, apaixonado pela moça nerd que trabalha no pet shop. Ele tem tartarugas de estimação, sabe. E não acho que essa informação esteja na história por acaso.

Ele chega a fazer algumas lutas de boxe profissionalmente, mas não consegue ir muito longe como atleta. Até que um dia Rocky acha que vai fazer um bico de sparring para Apollo Creed, um grande boxeador e atleta-celebridade, mas descobre que foi escolhido para lutar contra ele no ringue, real oficial. Apollo fica muito interessado no nome do “Garanhão Italiano” para preencher a vaga de azarão que lutasse contra ele. Espetáculo para promovê-lo como atual detentor do cinturão, tudo parte do show business. Precisavam de um “lutador de quebrada” e Rocky se encaixava perfeito no papel.

Dos motivos para eu amar esse filme está a inexistência de um vilão, de um antagonista que precisa ser derrotado. A vida é o principal adversário e todos os personagens no filme estão em sua própria busca por reconhecimento, atenção e sustento. Rocky, como tantos de nós, só quer pagar as contas, ficar abraçadinho com o mozão e fazer o que gosta, o que o motiva, aquilo no qual é bom.

De repente, um grande desafio pelo caminho. Entrar no jogo em pé de igualdade com gente grande. Ele sabe que não tem chances de superar Apollo, mas treina como o diabo, dedica-se o máximo que pode. De fato, ele perde a luta (embora na versão dublada em português a luta seja dada como empate, olha que absurdo). Rocky perde, mas dá trabalho a Apollo, o grande campeão, que vence por decisão técnica, não por nocaute. O italiano de quebrada desconhecido continuou de pé. Todo quebrado, mas de pé. 

Bem antes de entrar no ringue, Rocky já havia definido seu objetivo com a luta: ele não queria vencer, queria aguentar os 15 assaltos sem ser derrubado. Só isso. No final, conseguiu.

Não por acaso o título deste filme é “Rocky, um lutador”, e não “Rocky, o vencedor”.

Sei que Rocky é um prato cheio para discursos motivacionais dignos dos coachs mais fervorosos. Superação, acredite no seu potencial, no pain no gain, o pacote todo. Mas a mensagem que ele me transmite é justamente sobre se desprender dos discursos vazios da vitória e do sucesso como objetivo-mor e focar no fazer, sobretudo na resistência necessária para continuar fazendo

De volta aos estudantes, concluí que ser artista era basicamente isso, pelo menos na minha experiência. Minha luta não é para chegar nesse tal Olimpo de escritores, alcançar um patamar habitado por poucos, tornar-se um fenômeno. Minha luta é para escrever pelo máximo de tempo que eu conseguir. 

Questão de saber para onde direcionar minha energia. Minha única certeza é que só vou ficar mais velha, então ter essa sabedoria vai ser cada vez mais importante: prefiro investir minha energia para manter as engrenagens rodando do que para tentar alcançar esse tal Olimpo, que nem sei se existe. E se existe, como sei que cheguei lá?

Como já escrevi numa newsletter:

“Como saber que finalmente somos Pessoa Foda™? Quando chegamos aos 10k seguidores? Quando ganhamos uma plaquinha prateada de uma empresa de mídia gringa? Quando acumulamos 1 milhão de reais aos 22 anos? Quando vendemos dezenas de milhares de livros? Quantos metros uma fila de autógrafos precisa ter para não ser um lançamento deprimente? Quantas vitórias é preciso acumular? De quanto está o placar? Quem está anotando os pontos?”

Fico com o que posso dizer que é real: o trabalho sendo feito, com consistência, ano após ano. Porque tudo que eu fizer nesse tempo em que conseguir ficar de pé (ou sentada) escrevendo será algo que vou poder dizer ser meu

Olhar para trás e ver tudo o que consegui produzir, apesar das dificuldades e limitações, é algo que me deixa muito contente. Porque por essa trilha vejo pequenas e contínuas evoluções, vejo onde cada escolha foi me deixando. Trabalho então para deixar a Aline do futuro satisfeita com o volume de produção que estou criando agora.

Dessa perspectiva, desaparece a noção de que estou atrasada ou que falta muito para eu alcançar quem quer que seja. Imersa no objetivo de continuar fazendo, a comparação é apenas comigo mesma e com as possibilidades que ainda não explorei. Porque para continuar fazendo algo, às vezes é preciso encontrar outras formas de fazer.

Fiz isso quando me mantive na escrita por um ano apenas criando zines. Continuo a escrever agora, momento em que produzo um podcast. Lancei livro por editora, e depois independente. Escrevi contos, criei quadrinhos. Quando ficar difícil e de novo eu sentir que talvez eu deva desistir, sempre posso, antes de tomar qualquer decisão, recorrer à pergunta: o que ainda posso fazer de diferente para continuar na escrita? O que posso fazer para ficar mais um round de pé?

É fácil ser contaminada por uma ânsia geral de chegar logo ao topo. Cada um com suas lutas e desejos. A minha tem mais a ver com permanência. Como as tartarugas de estimação de Rocky, que caminham devagar, mas vivem muito. Seres persistentes, mas sobretudo com uma casca bem dura para aguentar as pancadas da vida. Assim como o próprio personagem, que conseguiu se manter numa longa jornada até se tornar o velho vivido (que já levou muito soco na moleira) capaz de dar aquele clássico conselho em Rocky Balboa:

“A vida não é sobre o quão forte você bate, mas sim sobre o quão forte você pode apanhar e continuar em frente. É sobre o quanto você pode aguentar e ainda assim seguir adiante”.

Perceba que ser um vencedor e ostentar um cinturão dourado, por mais que tenha acontecido a Rocky, nem entra na conversa. O reconhecimento pode até vir, mas como consequência natural de um trabalho bem feito. Às vezes por sorte. Ou às vezes nunca virá! Acontece. O problema de validar nosso trabalho por símbolos externos a nós, que necessariamente vem de um outro (público, crítica, pares), é que, quando esse reconhecimento vem, pode até nos dar alguma satisfação, mas quando não vem, pode arruinar nossa motivação e nos fazer pensar que deu tudo errado, game over.

Por outro lado, quando me dedico ao objetivo de continuar fazendo, quero dizer que vindo ou não o reconhecimento continuarei o meu trabalho. O que me move está em outro lugar.

Nesse ponto é onde o papo começa a ficar perto demais do discurso motivacional de empreendedor de palco, eu sei. Mas não consigo arrumar outro meio de colocar essa situação, a não ser como uma postura muito pessoal. E preciso escrevê-la mais como lembrete a mim mesma do que como tentativa de convencer quem quer que seja. 

Talvez eu volte a esse texto quando estiver cansada demais de andar, andar e andar e não ver onde isso está me levando. Tudo o que preciso ler nesse momento é que não estou nessa para encontrar um lugar de chegada, mas para me manter andarilha. Assim como, enquanto escrevia esse texto, deparei com esse lembrete que escrevi num caderno, não lembro quando: 

“É fácil continuar fazendo enquanto está dando certo. O verdadeiro desafio é continuar fazendo mesmo quando dá errado”.

Venho de longe. Não vejo problema algum em caminhar mais.


Esse texto não foi revisado em sobriedade.

Arte da capa: “Tartaruga”, Aline Valek, marcador de texto sobre papel.


Série “Conversas de papel”

1. Forasteira nas fronteiras da escrita

2. Problemas de concordância: escrever e ganhar dinheiro 

3. A escritora que querem comer viva 

4. Fazer por mais tempo <- você está aqui

5. Em breve


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