A você que tem medo

Utopia e distopia não são lados opostos na moeda da especulação; aquela, que jogamos para cima para descobrir nossas chances de cair num mundo perfeito ou num mundo em ruínas.

Não é como se os dois mundos estivessem em disputa e, no final, um eliminasse o outro. Os dois mundos sempre existiram simultaneamente.

Tudo uma questão de ponto de vista: se para você uma distopia seria viver no meio de uma guerra civil, ou viver num mundo em que você é perseguido por ser quem é, ou ainda num mundo em que você não consegue ter o mínimo para sua sobrevivência, saiba que essas distopias já são a realidade para muita gente.

A distopia é aqui, agora. Mas a utopia também.

Temos todos os motivos para sermos pessimistas, e por isso distopias andam na moda. Escalada de discursos de eliminação do outro; esgotamento dos recursos do planeta; genocídio de populações inteiras; desigualdade social persistindo nas grandes cidades; tudo consequência direta da explosão populacional que a humanidade vive desde a revolução industrial. Mais gente, mais problemas.

Por outro lado, nunca vivemos tanto. Avançamos no combate a diversas epidemias, erradicamos por completo outras. Os índices de fome e analfabetismo vêm caindo gradativamente no mundo inteiro. Mapeamos nosso código genético, desvendamos vários mistérios sobre nossa natureza, sobre as outras espécies, sobre o Universo. Estamos em meio a um processo de descobrir e desenvolver soluções para evitarmos um colapso ecológico. Trouxemos para o debate as questões sobre igualdade racial e de gênero, com lentos mas preciosos avanços. O acesso à informação é mais amplo, o processo de produção de conhecimento nunca foi tão rápido. Mais gente, mais cabeças pensando em soluções.

Estamos vivendo na melhor época da humanidade. Basta olhar para trás e se perguntar: se não fosse hoje, eu preferiria viver em qual época?

Claro que, numa escala BEM maior, caminhamos para a extinção; mas calma que nem o apocalipse acontecerá de uma vez. Hollywood é que gosta de finais explosivos, que acontecem de repente; a vida real é bem mais lenta. Calma que ainda teremos tempo para assistir muitos seriados e ainda virão muitas gerações de pessoas fazendo coisas bacanas antes de tudo acabar.

Os ciclos vêm, os ciclos vão, a história nos mostra que a sociedade sempre funcionou assim – porque a própria natureza funciona assim. Virão os maus momentos, e pessoas que representam o pior tipo de ideia, mas ao MESMO TEMPO virão os bons momentos e pessoas capazes de ampliá-los.

Utopia precisa ser além de um cenário ideal, uma sociedade perfeita, um resultado que com muita sorte um dia alcançaremos. Precisamos construir pequenas utopias hoje, de forma contínua. Porque a grande utopia talvez nunca chegue, mas as pequenas utopias continuarão nos empurrando para a frente – apesar dos soluços de retrocesso, o avanço é o movimento inevitável da humanidade.

A verdadeira derrota, então, é olhar para o lado distópico da moeda e perder a capacidade de enxergar as pequenas utopias, especialmente aquelas que temos a capacidade e responsabilidade de criar. Aqui e agora.

Arte: Arianna Belotti

Mais sobre utopia

“Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte – a arte da palavra.”

– Ursula Le Guin, neste discurso.


Texto originalmente publicado em Uma Newsletter de outubro de 2018.

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Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

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