Resenhas rápidas: merdas acontecem

Dark

série, 2017
dir. Baran bo Odar

Uma mistura de viagem no tempo com casos de família. Em alemão. Paleta de cores onde o amarelo é a única que não te deixa deprimido. Nas duas primeiras temporadas, uma história que não teria acontecido se os jovens ficassem quietos em casa em vez de ir pegar friagem na chuva. Mas de nada adiantaria voltar no tempo para não deixar as merdas acontecerem, porque aí é que elas acontecem mesmo. Tem jovem teimoso (Jonas, estou falando com você), tem criança fodida da cabeça (oi Mikkel), tem velho doido (todos) e tem jovem que embiruta (adivinha qual). Para não ficar perdido na história ou na dúvida “que ano é hoje”, só colocar na cabeça uma coisa: as pessoas não mudam.

Moral: se viajar no tempo, use camisinha.

Bacurau

filme, 2019
dir. Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Num Brasil dividido entre Norte e Sul, gringos armados se instalam nos arredores de uma cidadezinha no oeste pernambucano para caçar seus moradores. Para reconhecer o território, eles têm a ajuda de um drone vestido de disco de voador, uma carioca e um paulista, que juram que são brancos e não parte daquele mesmo povo escurinho; levam pipoco made in usa para lembrar que também não valem nada. Já os gringos levam pipoco porque não esperavam que o povo do Bacurau pudesse reagir de forma tão violenta, e a história tem o efeito catártico de lembrar que o brasileiro é um povo acima de tudo carniceiro. O povo de Bacurau é ligeiro pra resolver os problemas na bala, mas ainda não consegue resolver questões mais básicas, como o abastecimento de água e votar em políticos melhores, que façam mais que comer puta, se vender pra gringo e abastecer a cidade com comida vencida.

Moral: a moça bem que avisou pra você dar um pulinho no museu, né, branco burro?

Sapiens: uma breve história da humanidade

livro, 2015
Yuval Noah Harari

O que esse livro faz muito bem é ligar os pontos e apresentar os fatos que aprendemos, em geral, de forma dispersa e fragmentada, como parte de uma mesma timeline. Com isso, ele consegue mostrar novas perspectivas sobre coisas que a gente tinha como certezas; por exemplo, a Revolução Agrícola, em vez de um grande avanço que permitiu a humanidade se estruturar como civilização, foi um péssimo negócio, que até fez com que a gente vivesse mais, mas de forma pior (sendo babá do trigo, coisa que o homo sapiens não foi feito para fazer). No final das contas, é um ótimo embasamento para pessimistas: reforça que a gente não sabe o que quer nem o que está fazendo, não temos ideia de pra onde vamos, exceto que vamos todos morrer. Mas que tudo bem, afinal, a humanidade é uma parte insignificante do Universo e não é porque somos seres de linguagem que somos mais especiais e merecemos fugir da extinção. Ela chega pra todos.

Moral: não tinha a menor condição disso aqui dar certo.

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

1 comments On Resenhas rápidas: merdas acontecem

  • Lá pelos idos de 2007 fiz uma brincadeira semelhante só com obras da literatura, em blog já desativado, na seção Flagrantes Literários. A brincadeira: um resumo radical em duas partes, a primeira contando a situação básica da história, e a segunda o seu desenvolvimento e o desfecho.

    O modelo de resenha instantânea era a história de “Ulisses”, de James Joyce: “Um homem sai para passear por Dublin. Nada acontece com o personagem, e o autor resolve brincar de escrever.”

    As outras nove:

    “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa: “Riobaldo conta sua vida de jagunço e sua relação com Diadorim para um estranho. Descobre que tudo é o que é, e também o seu próprio oposto”.

    “Budapeste”, de Chico Buarque de Hollanda: “José Costa tem uma vida dupla de escritor-fantasma miserável, no Brasil e na Hungria. Para compensar seus sofrimentos, o Escritor de Todas as Histórias, Deus, o torna famoso”.

    “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado: “Gabriela enlouquece Nacib e Ilhéus com a sua sensualidade livre. Nacib primeiro casa com Gabriela e depois com seus chifres, feliz da vida”.

    “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino: “Eduardo Marciano e seus três amigos farristas marcam um encontro para dali a 15 anos. Eles não vão, ele se encontra”.

    “Hamlet”, de William Shakespeare: “Um fantasma conta a Hamlet que seu tio, atual marido da mãe, matou seu pai para tomar-lhe o trono. O atormentado Hamlet cria a carnificina-dominó, mas é a última peça a cair”.

    “Estorvo”, de Chico Buarque de Hollanda: “Um homem-câmera paranoico e desprovido do senso de moral descreve tudo que vê, sem nada sentir. A história acaba, mas ele continua descrevendo a história”.

    “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert: “A leitura de romances faz Emma desprezar o marido chato e a vidinha do campo. Cai na gandaia, trai o marido, endivida-se e mata-se com arsênico, único ato original de sua vida”.

    “Angústia”, de Graciliano Ramos: “Um funcionário público, pobre, solitário e amargurado, enlouquece por ciúmes da amada Marina. Enforca o rival que a engravidara, e descobre que a catarse da escrita atenua a culpa dos assassinos.”

    “O Alquimista”, de Paulo Coelho: “Santiago parte numa jornada espiritual em busca de sua alma. Ao final, consegue algo ainda melhor: torna-se rico”.

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