Escuta não correspondida


cada pessoa é um universo inteiro


Ilustração de um homem de barba, usando gorro e cachecol, com olhar sério e sobrancelha erguida. O desenho é feito com traços simples de caneta preta.

Escuta é um tipo de transação nem sempre correspondida. 

A experiência de W. em colocar seus ouvidos à disposição confirma essa falta de reciprocidade. Não que para ele seja algum tipo de esforço: introspectivo, é do tipo que prefere usar as palavras como ganchos para puxar o que as pessoas trazem no peito. 

— Tem preferência por algum caminho? 

Quando as pessoas entram em seu carro, tendem a preferir a opção automática. A rádio que estiver tocando, o ar-condicionado está ótimo, pode seguir o mapa. Não pedem — ou sequer reparam — que o motorista vai com o botão da intuição ligada, atento a detalhes, gestos ou cenas ao alcance da visão que sirvam de faísca inicial a conversas que, ao contrário do GPS, vão por caminhos inusitados. 

Nessas jornadas, W. já escutou de tudo. Histórias de rompimentos, de lembranças da infância, de cidades de origem, de inseguranças em relação ao trabalho, de crises, de viagens inesquecíveis, de fases aventureiras da vida que acabaram e deixaram saudades. W. escuta com atenção até os choros calados, os silêncios impacientes, a respiração dos que respondem mensagens no celular. Faz perguntas quando há espaço, incentiva com seu interesse e assim a conversa vai longe. 

A corrida termina e a pessoa desce com a inexplicável sensação de que chegou a algum lugar além de seu destino final. Agradece com um punhado de estrelas e W. sorri, como se fosse um ser mágico que cumpriu o seu papel e pode desaparecer. 

Mas W. não some, nem sua habilidade da escuta. Tem a consciência de que tem um talento muito poderoso numa época em que há tanta gente querendo ser ouvida e poucas pessoas dispostas a realmente prestar atenção. Sabe que é bom nisso, que tem algo a oferecer: o seu interesse. Isso o faz sentir, às vezes, como aquele personagem de apoio nos filmes ou seriados cuja única função no enredo é conduzir o protagonista a algum lugar com perguntas que aprofundem seus dilemas. 

Quem dá atenção não tem a mínima garantia de que vai recebê-la de volta. W. já se ressentiu por isso, por ser solicitado como um Uber da atenção: seus amigos o chamam quando precisam, porque sabem que W. estará lá para ouvir, e descem assim que chegam onde queriam. O “tudo bem” ou “como você tá” não é sinal de interesse recíproco, mas apenas de uma introdução educada para um pedido ou desabafo que virá logo em seguida. Se chegam perto, W. já sabe, é porque querem se despejar em seus ouvidos; serem invadidos pelas questões dele, aí já é outra história. 

As pessoas andam tão autocentradas que é claro que vão ficando malucas, W. reflete. Não faz bem ficar tão preso dentro de si mesmo, ainda que o ar-condicionado esteja ligado e que esteja tocando a rádio de sua preferência. 

Mas W. não se importa mais com essa falta de reciprocidade. Entendeu que a escuta é parte egoísmo: ele sente um tipo de prazer na jornada de chegar à verdade da outra pessoa, essa pedra rara que nem sempre vai estar no que ela diz, mas nos seus gestos, em palavras que se repetem, na emoção ou na falta dela, no que é negado com veemência, nas elipses que ficam pelo caminho. 

Além disso, toda essa quilometragem rodada no interior de outras pessoas é um tempo que W. pode passar fora de sua cabeça – e assim toda angústia se dissolve devagar na constante percepção de que existe vida do lado de fora. 

Que não o escutem de volta; W. já se satisfaz em tornar seu tudo o que entra pelos seus ouvidos. Ele está sempre ao volante, afinal.


texto originalmente publicado em outubro de 2019


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Escritora e apresentadora. Conto histórias em livros e no podcast Bobagens Imperdíveis.

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