Menos espaço para a espera


cada pessoa é um universo inteiro.


Ilustração de uma jovem mulher agarrando um garoto pelo pescoço e rindo. Ela usa uma jaqueta folgada e ele usa uma camisa listrada. Ele olha para a frente, com a boca meio aberta. Ela olha para ele, sorrindo. Os dois tem os cabelos lisos, levemente ondulados e bagunçados.

G., 

mexendo numas caixas antigas, encontrei essa foto nossa. se liga na minha cara de moleque. você usando a jaqueta do teu pai. 

me veio o impulso de tirar uma foto da foto (meta-foto?) e mandar por mensagem, ou sei lá, postar e marcar você. a força do hábito, porque já tinha deletado os aplicativos tudo. pois é. sigo firme em desintoxicar das redes sociais. então resolvi escrever esse email. apesar de saber que você usa esse treco mais pra trabalho, tem algo de muito pessoal em escrever um email pra alguém. porque não tem uma empresa estimulando essa interação, talvez? 

lembra que nessa época a gente trocava cartas? achei algumas aqui. a gente trocava desenhos. eu te mandava figurinhas. você me escrevia no verso de papel de carta com uns desenhos tão bregas, G., puta merda. 

acho que essa foto foi tirada num fim de ano no sítio. 99? não tem o ano na foto. mas eu lembro de nessa idade já ter computador. a gente ficava boladão com o bug do milênio. o medo das máquinas paralisarem, de nada mais funcionar, de o mundo entrar em pane. por causa de um zero tudo ia acabar. o drama. enquanto hoje vivemos em meio ao apocalipse achando tudo normal e funcional desde que não caia o whatsapp. 

você me tratava como um irmão mais novo, eu te via como uma heroína. me salvou de altas. soube de tanta coisa antes mesmo dos meus pais. 

essa foto me trouxe todos esses momentos de volta. de quando as coisas eram mais simples, mas nem tanto. as cartas demoravam a chegar, as músicas demoravam a baixar, perder o filme no cinema significava esperar um ano até sair na globo ou nas locadoras, mas a gente era jovem, idiota e não tinha pressa. tava tudo bem esperar. 

a gente cresceu pra um mundo com menos espaço pra espera. o consumo imediato, a ansiedade de responder, fomo, essa porra toda. por isso tô deixando o celular de lado o máximo que posso. por isso vou clicar em ‘enviar’ e vou cuidar da vida.

um dia cê responde. um dia você escreve um email gigante filosofando mais em cima dessas paradas todas que eu escrevi, que sempre foi a sua arte. e eu vou esperar você mandar notícias suas, que sempre foi a minha. 

abraço no seu pescoço, 

C.


Texto originalmente publicado em agosto de 2019 em uma edição da minha newsletter.


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Escritora e apresentadora. Conto histórias em livros e no podcast Bobagens Imperdíveis.

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