32 curiosidades sobre trazer um livro ao mundo

Publicar um livro de forma 100% independente é um verdadeiro laboratório de criação e de produção. Pode não ser algo para todo mundo, mas eu amo trabalhar em todas as etapas do processo. Aqui vou contar algumas curiosidades sobre fazer um livro do zero com as próprias mãos, tal qual um Rodrigo Hilbert da literatura, a partir da minha experiência com a publicação do meu último livro, Bobagens Imperdíveis para ler numa manhã de sábado.

Seguro um exemplar de Bobagens Imperdíveis para ler numa manhã de sábado. Ao fundo, é possível ver uma caixa cheia deles.

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Foi a primeira vez que publiquei um livro que não é inteiramente de ficção. Só não digo que é de não-ficção porque acabei colocando um pouquinho de ficção também, hehe. O livro é um compilado dos melhores textos dos primeiros anos da minha newsletter, e eu sabia que meu principal desafio seria a edição.

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Escrevi os textos publicados nesse livro ao decorrer de 3 anos, produzindo um texto inédito toda semana. Isso resultou num material bruto de 200.340 palavras para transformar num livro. Não é segredo: se você escreve com regularidade, mesmo que pouco, no final de um período você terá material suficiente para compor um livro.

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“Já está tudo escrito, falta pouco pra publicar!” Não se engane! Editar é um trabalho importante, que exige muito. É pegar esse material bruto e conseguir extrair o melhor dele. Valorize demais o trabalho do editor, jovem.

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Escrevi sobre literatura, ciências (um dos meus temas favoritos!), política, internet, comunicação, cinema, quadrinhos, criei personagens, contei histórias de ficção. Essa variedade de temas e formatos me deixou doida na hora de selecionar e editar. A partir do que eu tinha, eu poderia montar um livro sobre qualquer coisa. Tanta liberdade pode ser esmagadora.

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A versão final do livro tem 22.028 palavras. Enxuto!

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Do anúncio de que a newsletter Bobagens Imperdíveis viraria um livro até o lançamento houve um intervalo de 3 anos. A ideia era lançar no mesmo ano que sairia o romance As águas-vivas não sabem de si — na época sem nome ainda —, mas eu ainda lançaria uma porção de zines e escreveria mais um romance até voltar a trabalhar na publicação do livro de Bobagens. 

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No meio do caminho, tudo muda! A ideia era que o livro fosse um compilado com mais de 150 textos; depois, achei mais interessante fazer uma seleção de textos que pudesse ser lida numa sentada só.

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A capa também sofreu uma metamorfose com o tempo. O esboço da capa quando surgiu a ideia do livro, em 2015, comparado com o que viria a ser a capa real:

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Faz parte do processo as ideias surgirem aos poucos e se modificarem no meio do caminho. Um dia, praticando caligrafia, escrevi sem compromisso a frase “as bobagens mais imperdíveis para perder uma manhã de sábado”. A manhã de sábado não apareceu por acaso: era o momento da semana em que os leitores recebiam no email uma nova edição da newsletter. Quando escrevi a frase no meu caderno, percebi que era uma ótima ideia: “é isso! O livro de Bobagens vai ser feito para ser lido numa manhã de sábado!” e isso direcionou todo o meu trabalho na edição a partir daí.

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Todo o trabalho de edição e revisão foi feito no mesmo programa que uso para escrever meus romances, o Scrivener. Com ele consigo ter uma visão bem ampla do conteúdo e reorganizar com facilidade a ordem dos textos. Scrivener, me patrocina!

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Os textos passaram por tantas rodadas de edição e revisão que perdi a conta. Mas o primeiro passo foi jogar no Scrivener os textos de todas as edições da newsletter e depois reler tudo, marcando com etiquetas aqueles textos que eu queria no livro, os que eu não queria, e os que talvez pudessem entrar.

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Depois de definir os textos vencedores, cortei sem dó. Trechos desnecessários, repetições, advérbios em excesso, palavras sobrando. Começo a definir um padrão e entender o que precisa ser reescrito. Experimento formas de fazer com que aquele texto soe melhor e se aproxime o máximo possível do que eu queria dizer quando escrevi. O texto nunca sai perfeito de primeira e precisa ser lapidado muitas vezes até ganhar forma!

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Ajuda demais nesse momento de edição: ler em voz alta. Quando leio em voz alta, consigo entender como melhorar o texto. Se soa bem, está bom. 

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Outra forma de catar errinhos e trechos a serem melhorados: mudar a fonte do texto e reler. Quando o texto se apresenta de uma forma que nossos olhos não se acostumaram ainda, fica mais fácil detectar problemas. Os errinhos moram nesses cantos que nos acostumamos tanto a olhar que acabam ficando invisíveis. Revisar o texto impresso, depois de tudo diagramado, é a varredura final para capturar o máximo de erros, typos e ajustes a serem feitos na diagramação. Apesar disso, sempre pode passar uma coisinha ou outra.

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Como nem só de letrinhas são feitos os livros (pelo menos alguns deles), depois que defini os textos que seriam publicados (uma seleção mais puxada do que o top 4 do Masterchef), reli tudo para decidir qual texto pedia por uma ilustração. Listei e defini quais textos teriam desenhos e quais ganhariam um trecho em caligrafia.

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Organização foi importante? Demais! Por mais que nem tudo saia como o planejado — sempre deixo espaço para o processo me surpreender — organizar um cronograma com as tarefas de cada etapa é sempre essencial para me fazer caminhar até o fim do processo — e chegar lá com algo pronto, que é o objetivo que me move. E como eu amo cumprir prazos, minha nossa.

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Foi numa manhã de sábado, caminhando no parque, que tirei a foto do céu que mais tarde eu usaria para compor a arte da capa. A caligrafia foi feita à mão, e envolveu muitas tentativas até chegar numa versão que me agradasse. Depois juntei tudo no Photoshop e fiz os ajustes finos na composição até chegar ao resultado que você já viu.

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Nem tudo é trabalho artístico nesse processo de fazer livro: teve a parte de preencher planilhas, fazer orçamento, contato com gráficas, calcular custos para compor o preço, subir ebooks para as lojas, cadastrar isbn, pagar fornecedores. Preciso confessar que essa parte burocrática do trabalho é a que mais me faz passar nervoso. Mas faz parte.

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Há várias formas de financiar um livro independente, mas optei pela pré-venda. O livro já estava quase pronto — na fase de diagramação — quando disponibilizei na minha loja para pré-venda. Assim os leitores já podiam comprar o livro e a grana que entrasse me ajudaria a pagar o custo da impressão da primeira tiragem. Meus leitores são firmeza demais, então em poucos dias consegui vender a quantidade necessária para cobrir os custos. 

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E se não fosse o suficiente? Planejar é também levar em conta as possibilidades menos otimistas. Nesse caso, eu daria um jeito de completar o custo de impressão, mas o livro sairia de um jeito ou de outro. Eu estava mentalmente preparada para a ideia do prejuízo. Porém, como o planejamento deu certo, consegui até fazer um marcador de páginas especial para acompanhar o livro e agradecer pelo apoio.

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O lado bom de fazer a divulgação por conta própria é poder pirar. O importante é arrumar formas criativas de chamar a atenção do público. Coloco meu lado publicitária para trabalhar com total liberdade e crio peças doidas como essa, que normalmente seriam vetadas pelo cliente, mas que atingiram meu objetivo, deixaram gente surtando nos comentários do post e até causaram um certo auê na minha família:

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Mais importante que usar esta ou aquela ferramenta, é usar a ferramenta que nos deixa mais à vontade. E me dou muito bem diagramando no InDesign. Chega a ser divertido, e talvez eu goste tanto dessa parte porque é quando vejo o livro de fato virando um livro.

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Diagramar o ebook (versão epub e versão Kindle) é um processo que exige algumas rodadas de ajustes e testes, mas nada muito complicado, já que é possível exportar diretamente do Scrivener. Sim, do mesmo arquivo que usei para organizar e editar o livro já saiu o ebook. Scrivener, me patrocina!

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Fechar livro no final do ano é uma correria só. A moça da gráfica estava mais ansiosa que eu com o envio do material. E eu quase respondendo o email com “palma, palma, não criemos cânico. Tenho tudo friamente planejado!” Fechei tudo a tempo de a gráfica conseguir imprimir e me enviar os livros antes das festas de fim de ano. Eu conseguiria fazer as entregas antes do prazo que eu tinha planejado!

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Assinar e embalar os livros foi uma verdadeira maratona. Preparei toda uma mise en place, com os livros, marcadores e brindes de um lado, os envelopes com os endereços já impressos de outro. Tirava o livro da embalagem, escrevia a dedicatória, juntava o livro com os brindes impressos, colocava dentro do envelope e começava de novo. Foram uns cinco dias fazendo isso.

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Suei? Fiquei com o pulso dolorido? Dor nas costas? Sim, sim e sim. Mas essa parte é uma delícia. O livro está pronto, estou escrevendo para pessoas queridas, leitores que me acompanham há anos, nomes tão familiares que até me sinto íntima para escrever dedicatórias ridículas. Então eu posso ter me emocionado e me exaltado em algumas assinaturas? Talvez, talvez.

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Meu segredo de beleza é chegar aos Correios com os pacotes na primeira hora da manhã. Pouca fila, os atendentes estão bem-humorados e dispostos, então o processo de postagem não é tão sofrido. Como sou uma heavy user dos serviços postais, meus pacotes são preparados conforme as regras e padrões, para não ter erro. Numa das entregas a atendente dos Correios até me elogiou, dizendo que os CEPs estavam certinhos. “É um milagre, muitas vezes as pessoas colocam CEPs inválidos, preciso buscar no sistema para corrigir”. E eu, muito feliz com o elogio, precisei acrescentar: “meus leitores é que são o máximo e digitam o endereço certinho, eu só trabalho aqui!”

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“Você ainda vai ter que mandar os códigos para todas as pessoas?” a atendente ficou chocada quando eu disse que sim, ao pegar o cupom quilométrico que ela tinha acabado de imprimir. Porém tenho a serenidade no olhar de quem organiza todos os pedidos de livros em planilhas bem organizadas. Inserir os códigos de rastreamento e mandar para os leitores não é tarefa tão complicada. Planilha é tudo, planilha é vida. Sem as planilhas, e não é exagero dizer isso, esse livro não teria saído.

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Subir o ebook para as lojas: na Amazon (pelo Kindle Direct Publishing) foi o processo mais rápido e fácil. Em um dia o livro já estava disponível para o Kindle. Na Loja Kobo (pela ferramenta Writing Life), deu mais trabalho. Foram várias tentativas com o sistema dando pau — não subia a capa de jeito nenhum —, e depois de cadastrado o livro ainda passa por um processo demorado de análise antes de ser disponibilizado na Loja Kobo. No iTunes continuo empacada na parte burocrática do meu cadastro, que, aliás, é a etapa mais complicada em todas as plataformas (já que envolve transferências internacionais). Uma vez com a conta funcionando direitinho, o processo fica mais suave.

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Livros da pré-venda entregues: não é o fim do processo, mas o início de outro trabalho. Agora os livros começam a chegar na mão dos leitores. As palavras começam a ser lidas, digeridas, espalhadas. Aos poucos. Meu trabalho continua: parafraseando Emicida, sou a única embaixadora do meu trabalho na face da Terra. Preciso continuar espalhando, divulgando, levando o livro até as pessoas, sem medo de soar repetitiva. Quem publica de forma independente precisa assumir com entusiasmo essa etapa tão importante; afinal, um livro só está completo quando alguém o lê.

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O livro está disponível na minha loja e comprar pela internet é jovem, é fácil, e o livro chega assinado no conforto da sua casa. Mas também carregarei alguns exemplares comigo para onde eu for, e em breve levarei essa belezinha para feiras e eventos. Publicação independente quase nunca conta com a distribuição nacional em livrarias de grande porte, então fazemos de tudo ao nosso alcance para que nossos livros cheguem às pessoas, praticamente no mano a mano. Criatividade também é necessária nessa etapa!

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Ao compartilhar essas curiosidades sobre como foi fazer o livro de Bobagens de forma 100% independente (ou, como também gosto de dizer, “juntando cada átomo desse livro com minhas próprias mãos”), minha ideia foi mostrar que 1) dificuldades existem, mas não são impeditivas se você está realmente empenhado em publicar. Criatividade não se limita a escrever bem e fazer desenhos legais, criatividade se trata de resolver problemas; 2) dificilmente o resultado do seu processo vai ser exatamente conforme você idealizou lá no início, mas isso não é motivo para frustração. O processo leva tempo, muita coisa muda no meio do caminho, o resultado pode não sair de acordo com o planejado e isso é normal; 3) lançar um livro independente pode exigir que você faça muitas coisas que você não domina muito bem, o que pode ser assustador, mas, bem… isso é basicamente a vida adulta. Bem-vindo ao clube e não deixe de se divertir no processo!


Obrigada por ter lido até aqui. Espero que essas curiosidades possam ter sido úteis de alguma forma!

Tem alguma dúvida? Crítica? Quer compartilhar curiosidades sobre o seu processo? Tem macetes que tornariam meu processo melhor (quero!)? Escreva nos comentários ;)


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1 comments On 32 curiosidades sobre trazer um livro ao mundo

  • Meu coraçãozinho num guenta de tanto orgulho por você ser tão foda assim. Vou me repetir e dizer o quanto admiro o teu trabalho, tua personalidade, teu modo de ver a vida… Ainda bem que você existe, Aline! <3

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