Gente que lê tarot

Quem primeiro jogou tarot para mim foi um escritor, não um místico, embora um escritor também tenha o poder de conjurar monstros e mundos impossíveis. Tinha que ser o Tarrask, que jura que não é escritor, mas é muito bom em jogos de contar histórias.

O tarot era isso, percebi, enquanto ele costurava muito habilmente uma narrativa com as cartas postas sobre a mesa.

Anos depois, ganhei um deck de uma amiga e o tarot entrou na minha vida. Eu, cética. Apesar disso, tive que reconhecer o poder das cartas: é uma excelente ferramenta de autoconhecimento e de construção de narrativas.

Há dois mecanismos que considero importantes no tarot: a necessidade de formular uma pergunta (o que você quer saber das cartas) e a busca nas imagens, através da semiótica e da aleatoriedade, de um contato com o que ronda nosso inconsciente.

O processo de jogar luz sobre uma questão envolve trazê-la para o campo da linguagem. Transformá-la em palavras.

E o tarot, fui descobrindo, é uma linguagem. Daí seu poder revelador. As cartas recorrentes nas minhas leituras foram ganhando significado, espessura. Foi um processo de criar vocabulário. Uma alfabetização para o simbólico. Viro uma carta e pela ilustração puxo um fio de palavras, de significados latejantes, de histórias inteiras.

“As cartas falam”, conta esse ilustrador italiano num vídeo muito bonito que mostra o processo artesanal de desenhar as cartas. Mais um motivo para eu gostar de tarot: em cada arcano existe um cuidado artístico para criar uma ilustração cheia de histórias e ao mesmo tempo com a quantidade certa de lacunas para o leitor preencher com sua interpretação — como acredito que sejam também os bons livros.

O baralho que eu tenho é um dos mais populares, o Rider-Waite ou The Rider Tarot Deck, como está escrito na caixa. Apesar de ter recebido o nome de dois homens, Arthur Edward Waite, um místico, e William Rider, o editor, o baralho foi inteiramente desenhado por uma mulher: Pamela Colman Smith

Vale conhecer a história dela: quando a artista conheceu Waite em 1901, num rolê ocultista, ela já tinha um trabalho reconhecido e um livro ilustrado inspirado no folclore jamaicano. Waite contratou Pamela para ilustrar as 78 cartas, trabalho que ela completou em impressionantes 6 meses. Vida de ilustrador freelancer já não era fácil naquela época.

Fotografia de Pamela Colman Smith e suas ilustrações. Provavelmente de 1912.

Assim como os desenhos do tarot têm esse poder de abrir possibilidades (mais do que de fechar respostas ou de cravar destinos), os desenhos que pessoas muito antigas traçaram em pontos distantes no céu também contam histórias e carregam significados. A astrologia, outra linguagem na qual muita gente é fluente hoje, também dá conta de tentar organizar e dar sentido às nossas constelações internas.

A astrologia e a astronomia nem sempre foram coisas separadas, como Carl Sagan explica nesse vídeo. Foi a partir de Kepler que as coisas mudaram, quando ele descreveu matematicamente as leis fundamentais que regiam o movimento dos planetas. Ele foi o último astrólogo científico e o primeiro astrofísico.

Hoje entendo melhor que astronomia e astrologia não precisam concorrer, embora muita gente misture as coisas. 

Existe um mundo objetivo e um subjetivo, os dois bastante reais; a ciência nos ajuda a navegar pelo mundo objetivo, pela matéria, pelo que é biológico e físico e químico, a nos fornecer ferramentas para entender e manipular esse mundo para a nossa sobrevivência. O mundo subjetivo é aquele feito de linguagem, essa matéria mágica e poderosa, e esse mundo é só nosso, humano. Também temos ferramentas que nos ajudam a sobreviver e a navegar nesse mundo; entre elas, a arte, a astrologia, a literatura.

Acho perigoso desprezar a ciência, especialmente quando um movimento anti-intelectual já nos lança de volta ao obscurantismo, num processo que nos deixa vulneráveis à violência física e simbólica de instituições e pessoas em busca de poder.

Por outro lado, entendo porque tanta gente busque na astrologia, por exemplo, explicações para o mundo objetivo; porque a ciência não consegue explicar tudo, ou porque às vezes não entendemos o que ela explica. A falta de respostas me constrange tanto quanto a qualquer pessoa. Mas a ciência não consegue explicar tudo porque não é este seu papel. A ciência é cheia de lacunas, porque é nelas onde o conhecimento continuamente se constrói. A ciência aceita as lacunas. Está no seu DNA.

Como escreveu Carl Sagan no livro O mundo assombrado por demônios:

“Toda vez que fazemos autocrítica, toda vez que testamos nossas ideias no mundo exterior, estamos fazendo ciência”.

Ou seja, a ciência não deveria ser vista como algo tão distante de nós. A ciência é sobretudo uma forma de pensar.

O psicanalista Christian Dunker escreve, nessa edição da Bravo sobre pós-verdade: “A ciência, pelo menos a ciência moderna, depurou esta noção de verdade como revelação inabalável e a substituiu pela dinâmica do saber que sempre pode ser refeito, criticado e, portanto, aprofundado.” 

Por falar em psicanalistas, este texto relaciona astrologia e psicanálise, e já começa falando sobre a importância de nos debruçarmos sobre as perguntas. O autor faz um questionamento interessante:

“nos anos 50, os sociólogos Adorno e Roland Barthes realizaram pesquisas com colunas de astrologia de jornais e revistas. Ambos chegaram à mesma resposta: a astrologia de massa exorcizou o Real e deixou de ser uma abertura para o Oculto, o Onírico e o Imaginário. Essa é a astrologia que queremos? Um espelho que se propõe a ser realista e disciplinador?”

Perdemos muito quando tomamos a arte interpretativa (literatura aí inclusa) como fonte de verdades absolutas, como um modelo de regras fechadas e de respostas prontas, que aceitamos sem questionar.

Não deveria nos assustar tanto a possibilidade de fazer perguntas que ainda não temos a capacidade de responder – isso o tarot também me ensinou.


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Texto originalmente publicado na edição 36 da minha newsletter.Junte-se aos 4.000+ assinantes e receba Uma Newsletter grátis no seu e-mail:

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