Antídoto

Estar em isolamento é estar no meu elemento. Mais que uma restrição física, experimento o isolamento como um estado mental. De me voltar para dentro. Não é confortável, no entanto. Menos ainda quando o isolamento vem como medida para conter uma epidemia em escala global. Países fechados. Ruas vazias. Economia em colapso. Parece cenário de filme estrelado por Bruce Willis, mas é a realidade. Há tempos perdi a capacidade de me impressionar com o absurdo. O que me surpreendeu, no caso, foi a reação rápida. Sem pânico. Sem subestimar a gravidade da situação. Transmissão de informações corretas. Ações sendo tomadas. Pessoas dispostas a ajudar os mais vulneráveis. Indivíduos agindo pelo coletivo. Busquei as pessoas queridas, tentando alcançá-las à distância, para saber como estavam, como se sentiam. Estreitar os laços quando a situação exige isolamento. O que mais posso fazer? Seguir as recomendações, cuidar de quem eu conseguir. Será suficiente? Ouvir. Ficar em silêncio. Penso em Clarice Lispector, respondendo que o papel do escritor nos tempos atuais é o de “falar o menos possível”. Na intenção de ajudar ou na urgência de ter alguma opinião sobre o assunto do momento, começam a surgir discursos irresponsáveis. Alguns negacionistas, outros apontando dedos e distribuindo culpa, outros minimizando a seriedade, atribuindo causas energéticas e místicas, pregando pensamento positivo ou receitas mágicas como proteção contra uma ameaça que não pode ser detida com likes e compartilhamentos. Fogo é um instrumento que tanto pode nos salvar quanto nos destruir; assim também são as redes sociais. Ao mesmo tempo em que tanta conexão permitiu que a informação chegasse mais rápido, também deu espaço para a desinformação se disseminar. Leio um post da Juliana Gomes que dá vazão ao incômodo que me consumia: “esse lance das redes sociais terem nos possibilitado conhecer gente do mundo todo, trocar informações, aprender horrores, sair da bolha, é maravilhoso mesmo. Mas isso tem um custo também. O custo de todo mundo virar formador de opinião e especialista, mesmo em momentos como esse, onde é mais seguro voltar a atenção pros grandes jornais e pras instituições de saúde.” Não sou especialista, não sou autoridade. Postar não é o mesmo que ajudar. Postar não é o mesmo que resolver. Nem todo problema se resolve só com palco e holofotes. Pessoas com muita visibilidade são só pessoas com muita visibilidade, não super-heroínas. Sou tomada pela necessidade de recolher minha voz, com o sentimento de que não tenho nada a contribuir, de que já há ruído demais, de que outras pessoas já disseram muito melhor o que vale a pena ser dito. Ou talvez eu esteja experimentando um sintoma que aponta para a necessidade de usar a linguagem com mais responsabilidade. Ideias e informações também se espalham como vírus. Algumas, até mais fatais. Não faz muito tempo vimos o fanatismo se propagar com tanta rapidez e eficiência que ainda não fomos capazes de erradicá-lo; ainda estamos lidando com as consequências disso. Na época, escrevi que quando uma ideia danosa contamina mentes, o antídoto está na leitura, no diálogo, no pensamento crítico. A linguagem é uma tecnologia poderosa, mas ainda estamos longe de dominá-la. Teremos tempo de aprender antes que a próxima ameaça chegue? Enquanto escrevo, me sinto saudável (embora seja possível ser um vetor de transmissão mesmo aqueles que não apresentam sintomas). De qualquer forma, o vírus já se instalou na linguagem, no pensamento. Contaminou nossos assuntos. Virou meme. Metáfora. Leio num texto do psicanalista Contardo Calligaris: “considere a Europa se fechando diante dos refugiados africanos e asiáticos, e os Estados Unidos, diante dos refugiados das Américas. Considere a Inglaterra do brexit. Considere a volta de patriotismos abstratos mundo afora. Considere a estranha vontade de construir muros. Paira no ar uma nostalgia do lar, um suposto ‘amor’ da ‘nossa terra’, que é sobretudo medo do novo e do estrangeiro. A epidemia de coronavírus será, por um tempo, metáfora da resistência à ampliação do mundo.” Contaminada ou não, já experimento os efeitos psicológicos do vírus. O pensamento vai a mil, percorre caminhos vários, da angústia inexplicável à análise racional, e sacode ao passar pela lombada das especulações. Começo a perceber que o sentido aos poucos se perde. Por isso o silêncio. É isso ou tentar articular, em voz alta, que parece até que a epidemia nos forçou ao isolamento para nos mostrar a importância dos vínculos e da comunidade para sobrevivermos enquanto espécie; para mostrar a necessidade de melhorarmos nossa comunicação, de sermos mais honestos e diretos uns com os outros, de usar as palavras com mais responsabilidade; ou para escancarar as desigualdades que tornam insustentável este modelo de sociedade; ou para que pudéssemos rever nossa forma de viver, de consumir, de governar, de desenhar fronteiras e de lidar com quem é diferente de nós; para lembrar que, apesar de ultimamente ser demonizada por tantos lados, dos dementes que acreditam em Terra plana a gente supostamente bem-intencionada que prefere as pseudociências do momento, a Ciência ainda é a melhor ferramenta que temos para entender o mundo que nos cerca e nos oferecer uma saída. Mas é claro que a epidemia não está tentando nos mostrar nada disso. Vírus são indiferentes a nós. Não ligam se vamos entrar em colapso ou se vamos usar essa história toda como meio de transformação. Leio um artigo que me lembra que apocalipses piores já aconteceram. A gripe espanhola, epidemia que se espalhou em 1918, matou 50 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, os corpos se empilhavam nas ruas, decompondo-se a céu aberto. Epidemias vêm, epidemias vão. No Carnaval seguinte, os sobreviventes cantaram e dançaram, tomaram as ruas com carros alegóricos fazendo referência ao tema. Cem anos depois e aqui estamos enfrentando um desafio do tipo. Vírus diferente, talvez menos fatal que o daquela época. Mas também somos pessoas diferentes: nossa comunicação e conhecimento científico são bem mais desenvolvidos. Graças a isso, pudemos reagir mais rápido. Até o momento, estamos conseguindo atuar para minimizar os danos. Colocando em perspectiva, vivemos na melhor época possível. Gradativamente, avançamos. Com muito a trabalhar, com problemas sérios para resolver. Mas avançando. Rompo o silêncio para colocar os pensamentos em ordem, sem nenhuma pretensão de dizer o que deve ser feito, para qual direção devemos seguir. Não sou especialista, não sou autoridade. Eu nem sou daqui, estou só de passagem. Prever o futuro é impossível. As especulações prefiro guardar para a ficção. Então escrevo na tentativa de capturar esse momento, somente registrar, para que no futuro eu possa ler essa fotografia e me lembrar da vez em que ficamos isolados, todos juntos.

Beijos à distância,

Aline.

PS: se bater o tédio ou a ansiedade, você pode baixar, imprimir, rabiscar e colorir as ilustrações que coloquei nesse pacote com algumas das pessoas que mais me inspiram. O pdf de Pequenas Tiranias pode ser baixado de graça aqui.


Na manhã seguinte a ter enviado Uma Newsletter (assine) com o texto acima, deparo com o seguinte texto da escritora Toni Morrison, “No place for self-pity, no room for fear”, de 2015:

Não! Este é precisamente o momento em que artistas vão ao trabalho. Não há tempo para desespero, não há lugar para ter pena de si mesmo, não há necessidade de silêncio, nem espaço para o medo. Falamos, escrevemos, fazemos linguagem. É assim que civilizações se curam.

Assim como o fracasso, o caos contém informação que pode levar ao conhecimento – até sabedoria. Assim como a arte.

Toni Morrison

Obrigada mais uma vez, Toni.

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

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