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A maratona de escrever um livro

Texto originalmente publicado na edição #90 da newsletter Bobagens Imperdíveis, de novembro de 2015. No ano anterior, novembro de 2014, eu havia escrito a primeira versão do manuscrito daquilo que se tornou meu primeiro romance, As águas-vivas não sabem de si, publicado pela Editora Rocco. Neste texto, conto como foi esse processo.


Novembro de 2014: decido sentar minha bunda na cadeira por um mês para escrever um livro. Terminar uma história. Um romance inteirinho. O chamado veio ao lembrar do NaNoWriMo, um evento que propõe um desafio para escritores de todo o mundo: aguenta o porrete de escrever 50 mil palavras de um romance em um mês? 

Eu já sabia do NaNoWriMo, ou National Novel Writing Month, há um tempo, desde que o Tarrask me apresentou – e é claro que por esse motivo já associei o desafio com coisa que só gente doida topa fazer. Eu não havia participado ainda por falta de tempo e de ideia, porque achei que não ia conseguir, porque achei que era compromisso demais. Em 2014 finalmente resolvo aceitar o desafio, embora não muito convencida de que fosse ser capaz. Se der ruim, falo que pelo menos tentei, penso, já arrumando justificativas para meu hipotético fracasso. 

Opa, tenho o esboço de algo que um dia pode ser um livro. Uma história de um pessoal que inventa fazer uma pesquisa no meio do oceano, algo misterioso vivendo nas profundezas, mas nada muito definido ainda. Basicamente uns textos de estudo de personagem, uns rabiscos no caderno. E se eu tentar escrever 50 mil palavras disso? 

Posso guardar essa ideia pra desenvolver depois, com mais calma e tempo. Usar outra ideia para brincar de NaNoWriMo. Então olho para os esboços e penso: se não agora, quando? 

Percebo que a coisa é séria quando me inscrevo no site (é de graça participar). Vejo que preciso atualizar diariamente o status do meu projeto, inserindo o número de palavras escrevi no dia – e o site já calcula uma média de quanto eu preciso escrever por dia para conseguir cumprir a meta, quantos dias eu tenho, quanto falta para eu terminar. E ainda mostra tudo em um gráfico para você visualizar melhor.

o meu ficou assim 

Sinto a pressão. Fica muito mais difícil desistir de qualquer coisa quando há a cobrança. Se não externa, pelo menos dentro de você: tenho 1.600 palavras para escrever hoje!


Não se participa de um troço desses sem abrir mão de algumas coisas. As redes sociais foram as primeiras coisas a perderem espaço na minha rotina; Twitter e Facebook sugam nosso tempo, nossa disposição, fazem a gente cair num vórtice de assuntos desnecessários e tretas e comparações com os outros que acabam nos distraindo das nossas prioridades. 

Como um monte de gente gritando “ei, presta atenção em mim!”, “ei, olha esse gif aqui!”, “ei, fique indignada com isso aqui também”, pode me ajudar a escrever?

(e se há tempo para ficar olhando a timeline e vendo bobagens e arrumando discussões e interagindo na internet o dia inteiro, mas não há tempo para realmente CONSTRUIR algo, bem, talvez seja o caso de rever nossas prioridades) 

Construo um casulinho ao meu redor (o que já faço normalmente) e passo o dia escrevendo (o que também já faço normalmente), mas agora concentrando os meus esforços na história lá do oceano.

A verdade é que não faço ideia do que fazer com a história, tenho muito pouco da estrutura planejada nesse ponto, mas vou descobrindo à medida em que escrevo, sempre de olho na barra de progresso que me diz quantas palavras eu tenho que escrever por dia. 

Uso para escrever um programa chamado Scrivener, e essa maravilha me permite estabelecer “targets”: configuro a meta principal do projeto (50 mil palavras) e a meta diária, algo em torno de 1.600 palavras, mas posso aumentar ou diminuir essa meta de acordo com o que eu pretendo ou posso escrever no dia; ou seja, consigo ter realmente noção do quanto o meu trabalho vai progredindo, enquanto a barrinha vai mudando de cor, do vermelho para o verde – e que sensação gostosa é completar a barrinha de um dia de escrita! 

A sensação de avançar é o que mantém você avançando.

É como estar num jogo e SENTIR que você está passando de fase, desenvolvendo seus poderes, ficando mais forte para enfrentar o chefão. É se sentir guiada por um objetivo, pela sensação de conquistar coisas, sabe?

Somos como cãezinhos treinados que fazem coisas em troca de recompensas – o que é o trabalho se não isso?

A lógica de games me motiva bastante para continuar empenhada num objetivo: ver a barrinha se completando, ver o meu progresso aumentando, ir colecionando as badges, ir PASSANDO DE FASE. Eu falei que eles te dão badges? Pois é, o NaNoWriMo dá badges. São pequenos selinhos que você vai “desbloqueando” à medida em que atinge determinada meta: atualizou seu contador de palavras cinco dias seguidos? Ganha selinho. Escreveu 5 mil palavras? Ganha selinho. Escreveu 25 mil? Ganha selinho. É muito bom ganhar selinhos.

Os dias passam e nem sempre eu consigo superar a meta diária, aliás, quase sempre fico ABAIXO dela, o que significa que eu precisaria compensar no dia seguinte. É nesses momentos que bate o desespero. Mas aí tento manter em mente que o que estou escrevendo ali não vai ser a versão final, que depois de novembro vou ter tempo de melhorar a história, que não é pra ficar perdendo tempo com preciosismo e já tentar fazer a coisa perfeita de primeira. Escreva bêbado, edite sóbrio, já diria algum escritor depois da segunda taça de vinho.  

Então digo para mim mesma: fia, apenas escreva e pare de frescura. 

É quando lembro de um texto que escrevi em 2012, e não podia ser melhor o momento de lembrar que feito é melhor que perfeito, que o importante é fazer aquela ideia virar realidade de alguma forma. Não é hora de editar, é hora de escrever. 

O que importa agora não é deixar a história do jeito mais “acabado” possível, mas fazer ela seguir em frente, palavra após palavra após palavra, por mais que seja doloroso, por mais que você prefira que joguem uma partida de ping pong com seu fígado do que escrever mais 200 palavrinhas. Não importa o que aconteça, apenas cumpra a meta do dia. 

O desapego também me permite soltar mais o braço, escrever de um jeito que eu não escreveria normalmente, experimentar formas diferentes de contar a história e de desenvolver os diálogos, de encontrar soluções inusitadas, de fazer com que eu seja literalmente possuída pelo ritmo da RAGATANGA, quer dizer, pela voz narrativa que a história pede. 

O desapego me permite ser ridícula, e às vezes é isso que a gente precisa para conseguir avançar. Então, no fim das contas, é uma maratona MESMO, só que com obstáculos: é preciso desviar do que atrapalha, ir dosando o ritmo e o tempo, parando para se hidratar de vez em quando, ter a linha de chegada em mente e esperar não desmaiar antes do final.


É uma corrida, mas cheia de curvas – especialmente de altos e baixos. Meu processo foi mais ou menos assim: 

1. Hoje vou superar a meta! 

2. O contador não sai das 300 palavras, mas não é possível, parece que escrevi tanto hoje; 

3. Pesquisa, pesquisa, pesquisa; 

4. Hoje tenho que compensar tudo o que não escrevi ontem, eba. 

5. Meus personagens não querem conversar um com o outro, o que eu faço?? 

6. Tenho a sensação que já escrevi essa mesma frase há dois capítulos… WHO CARES 

7. Conto para o Marcos o capítulo que eu estou escrevendo, ele balança a cabeça e concorda, ou questiona “e se?”, e conversar me ajuda a colocar as ideias em ordem; 

8. Escrevo a parte da história que contei na noite anterior; 

9. Agora tá fluindo legal; 

10. Segundo dia seguido que supero a meta; 

11. Anoto uma ideia do que vai acontecer mais para o final da história; 

12. Pesquisa, pesquisa, pesquisa; 

13. Pausa para o café; 

14. Se os personagens estão discutindo e especulando sem saber o que fazer é porque tô ali juntinha deles, tentando descobrir também; 

15. Choro; 

16. Resolvo passar um final de semana na praia, achando uma puta irresponsabilidade ficar dois dias inteiros sem escrever nada; 

17. Ah, o mar. Mas chove; 

18. Volto e preciso escrever igual uma desgraçada para compensar os dias anteriores; 

19. Não vai dar tempo; 

20. Se eu desistir, ninguém vai ficar sabendo, certo? 

21. Choro mais um pouco; 

22. Foda-se essa merda; 

23. Opa, consigo alcançar a meta de novo; 

24. A história não está mais fazendo sentidoooooo la la ri la; 

25. “A busca está fadada ao fracasso”, Borges. Por que eu anotei isso mesmo? 

26. Pesquisa pra quê, dane-se a pesquisa, não há tempo para pesquisar, vou é inventar minha própria ciência; 

27. Playlist do oceano direto no Spotify; 

28. Não sou eu que escrevo, larguei o volante, mas quem está no comando? A história continua sozinha, se continuar desse jeito capaz de bater de frente com um muro, mas não posso parar agora, não posso pensar, havia uma meta em algum lugar, eu estava fazendo isso pra quê mesmo?, agora já não importa mais, é o ápice da ação, preciso ficar para ver o que vai acontecer, por algum motivo meus dedos se movem em teclas brancas, mas eu já não lembro por quê, alguém quer café? 

29. Choro com o último capítulo; 

30. Acabei. Acabei. Acabei, é tetraaaa!!


Em algum momento de um projeto, especialmente quando é algo novo, que exige um esforço tremendo e comprometimento diário, você fatalmente vai se encontrar com a irresistível vontade de DESISTIR E SAIR CORRENDO. 

Frequentemente, em praticamente tudo na minha vida, eu tenho essa vontade. Quero simplesmente largar tudo, jogar as coisas para o alto e não me incomodar em catar depois, enquanto grito “gastei dinheiro da minha vidaaaa, meu tempo, fazendo merda que nem vou conseguir fazer” – e me diz se você já não passou por isso também? 

Com o NaNoWriMo não é diferente. Teve dias em que acordei profundamente arrependida de ter entrado no desafio, não vendo motivos para continuar, achando uma grande bobagem, concluindo que ninguém ligaria se eu conseguisse ou não cumprir meu objetivo. 

É a mais pura verdade: ninguém liga. Todo mundo já está preocupado demais com as próprias neuroses e inseguranças para se importar com as suas. 

Porém, quando o sussurro da desistência é soprado em seu ouvido, este é o momento em que você tem a chance de definir quem você é. Porque não há segredo, formula mágica ou tutorial que torne as coisas fáceis, que faça você pular de nível e ir diretamente para o zeramento do jogo. Só uma coisa separa um esboço de uma história terminada: o fato de que alguém continuou escrevendo, apesar de tudo que apareceu no caminho, apesar de todas as possibilidades que essa pessoa teve de desistir. 

Porque sim, a desistência é uma possibilidade, é sempre uma opção. É possível desistir. Aliás, é a saída natural, é o esperado, é o que o seu cérebro vai pedir, porque ele sempre vai tentar evitar situações novas, que exijam esforço, que coloquem você em um estado de stress. Seu cérebro quer te PROTEGER desse tipo de atividade desgastante, é instintivo, é a inteligência na arte de sobrevivência, uma forma de poupar energia. Não adianta contar com o cérebro como seu aliado se ele vai ser o primeiro a jogar a toalha. Tudo vai funcionar para facilitar a sua desistência. 

Além disso, conseguir ou não terminar o NaNoWriMo ou o que quer que seja não me torna melhor ou pior; apenas alguém com 50 mil palavras a mais ou a menos. Então por que continuar?

São duas forças fazendo uma queda de braço dentro da gente: a vontade de fazer coisas e a vontade de desistir. Qual vai subjugar qual nessa disputa depende unicamente do lado que você resolver alimentar com a whey protein da sua persistência. Uma alimentação que precisa ser diária, constante, em doses crescentes, ou faz a vontade murchar, atrofiar, ceder. 

Na primeira página do meu caderno está escrita a seguinte frase, do escritor Rainer Maria Rilker: “O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita”. Por acaso, é o mesmo caderno onde comecei a esboçar a história que resolvo desenvolver no NaNoWriMo.

O tempo todo o maior motivo para eu continuar a escrever estava bem ali, na minha fuça. É difícil. O processo não é bonito. Mas, ao final de novembro, eu chego a algum lugar. Porque uma hora novembro acaba, e as 50 mil palavras também. 

A experiência do NaNoWriMo me trouxe muita coisa, inclusive alguns aprendizados que vou levar para vida. Por exemplo, agora sei que posso fazer esse tipo de maratona a qualquer época do ano, sem depender de um evento global como pretexto, porque sei o que esse tipo de projeto vai exigir de mim. 

O maior problema desses projetos que a gente se empolga pra começar mas acaba enrolando é quando são muito vagos, muito abertos, sem início, meio e fim. Tipo “ai queria tanto escrever um livro”, mas um livro é um troço que pode demorar anos, o que leva você a pensar “quando eu tiver tempo”, “quando sair do meu emprego”, “quando meu filho fizer 18 anos”, etc, etc, até deixar para um dia que nunca chega. 

É importante pensar em projetos como coisas que tem início, meio e fim. Em vez de deixar para escrever um livro “quando tiver tempo”, podemos começar pelas 50 mil palavras agora. Ou 25 mil. Ou 15 mil. Não importa. Mas definir uma quantidade e um prazo. Nada de “vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. É preciso estabelecer metas possíveis de alcançar, possíveis de quantificar. Assim conseguimos saber onde começa e onde termina, de quanto tempo vamos precisar, quanto esforço vai ser preciso dedicar. Início, meio e fim. 

Tão importante quanto se concentrar, é avisar as pessoas que te cercam que você vai precisar se concentrar. Avisar os amigos, a família, a pessoa com quem vivemos que vamos ficar desligadas do mundo por um tempo, e pedir para que elas tenham paciência, respeitem seu espaço, ajudem quando for preciso. 

(e te motivem a não desistir quando você está surtando, risos) 

Se for possível, transforme num jogo. Dá mais vontade de continuar quando é algo que você consegue visualizar como fases das quais você vai ter que passar para conquistar o prêmio final (que pode ser simplesmente a sua satisfação pessoal). Recompensas motivam, então é legal inventar algo que possamos ganhar a cada etapa que completamos, nem que seja uma coleção de post-its num mural, onde cada um representa cada capítulo que terminamos. 

Acima de tudo, aprendi a não descartar uma ideia como boba antes de escrevê-la (seja uma ideia de frase, de cena, de diálogo ou de história). Apenas depois de escrita é possível julgar se a ideia é boa ou uma completa perda de tempo. Boas ideias vêm sempre na ordem: escreva primeiro, julgue depois.

Boa escrita para você.


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Capa "As águas-vivas não sabem de si"

As águas-vivas não sabem de si é o romance que surgiu do processo narrado neste texto.

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

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