Livros que marcaram minha infância

Tarefa difícil elencar somente alguns livros, se foram tantas as leituras que marcaram minha infância: desde os livros do Orígenes Lessa (escrevi sobre ele aqui), como Confissões de um vira-lata e o Memórias de um cabo de vassoura; ou a Vendedora de Fósforos, de uma coleção de histórias clássicas que eu tinha, com ilustrações incríveis que me faziam ler o livro milhares de vezes sem me cansar; ou ainda os primeiros gibis que ganhei, quando eu nem sabia ler e já inventava as histórias na minha cabeça, como a edição número 1 da Mulher Hulk.

Resolvi então listar os três primeiros livros que me vieram à cabeça, sem pensar muito:

1. O Reizinho Mandão

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Ruth Rocha foi uma de minhas autoras favoritas da infância. Este livro foi uma indicação da escola, mas continuei a ler várias vezes, mesmo depois de terminamos as tarefas sobre ele.

Eu gostava desse livro sobretudo porque eu odiava o personagem. Um reizinho mimado e autoritário, que vivia mandando as pessoas calarem a boca. De tanto ficarem caladas, as pessoas de seu reino um dia desaprenderam a falar.

O reizinho até gosta de falar sem ser interrompido, mas logo se enche de não poder conversar com ninguém. Quer consertar a situação.

Ele viaja ao reino vizinho, onde um velho sábio lhe diz que, para quebrar a maldição, ele precisa sair batendo de porta em porta e encontrar uma só criança que ainda saiba falar, porque ela diria o que ele precisa ouvir.

Essa é minha parte favorita. Um dia ele descobre uma menina escondida na casa de uma velha. Uma menina com maior cara de invocada, com mãozinha na cintura e tudo.

Quando o reizinho se irrita por ela não responder suas perguntas, ele começa a gritar. O papagaio do rei começa a gritar também, mas como ele só aprendeu a falar uma coisa, o que o papagaio grita é justamente “cala a boca, cala a boca”.

De repente, a menina fica brava, suas trancinhas se arrepiam e ela grita CALA A BOCA JÁ MORREU, QUEM MANDA NA MINHA BOCA SOU EU!

Essa foi simplesmente a primeira lição de empoderamento que eu tive, mesmo que eu demorasse muitos anos para entendê-la completamente. 

É incrível como mesmo depois de crescida essa história ainda tenha tantas mensagens interessantes, como o autoritarismo (na forma das leis bobocas e invasivas que o reizinho criava), a incapacidade de ouvir o outro e de lidar com opiniões diferentes, o direito da mulher à fala representado pela garotinha que reivindica a autonomia sobre a própria voz. 

Sem falar na estrutura narrativa super bem construída, no desfecho perfeito, na linguagem cativante de Ruth Rocha. E tudo isso com as ilustras lindas de Walter Ono.

2. O Grande Segredo

O que eu mais gostava deste livro, escrito por Marlene Serruya, era ter uma ordem de leitura pouco convencional. Era um livro estruturado em formato de jogo, meio RPG, no qual eu era a personagem principal e escolhia o que aconteceria na história. 

Havia um esforço bacana no livro para manter esse protagonista com o gênero neutro, já que seria lido por meninos e meninas. O difícil foi o ilustrador desenhar esse personagem, mas ok, ele fez o melhor que podia.

A história começava no capítulo 1. No final de cada capítulo, a autora dava duas ou três opções: se você quer fazer x, vá para o capítulo 32. Se você quer fazer y, vá para o capítulo 16. A ordem dos capítulos estava toda embaralhada, então você “navegava” pelo livro seguindo essas indicações.

Dependendo do que eu escolhia, eu avançava na história e me aconteciam coisas boas… ou eu me ferrava e acabava em game over. Eu esbarrei em vários becos sem saída até aprender as escolhas que eu deveria tomar para “zerar” o livro. Por isso, acabei lendo O Grande Segredo muitas, MUITAS vezes, mesmo depois de aprender o caminho “certo”.

Lembro do meu primeiro game over, quando meu pai leu a história pra mim pela primeira vez. Em um dos primeiros capítulos, a minha personagem caminhava por uma estrada que parecia não ter fim, já exausta de tanto andar. O narrador dava as seguintes opções: “se você acredita que essa estrada ainda vai dar em algum lugar, ainda que ela pareça não ter fim, vá para x. Se você duvida que vá chegar a algum lugar caminhando por ela, vá para y.” E eu: duvidei, claro!

Então uma mulher redonda (juro que ela é descrita assim), baixinha e cheia de verrugas começava a me seguir e a me encher o saco com um monte de questionamentos. Ela acabava me levando até a casa dela, de onde eu não conseguia mais sair. Fiquei andando em círculos, perdida para sempre, na casa dessa maluca. 

Quer dizer, o jogo acabou para mim porque ousei duvidar, como se questionar fosse uma coisa ruim. Sim, o livro é todo baseado nesse moralismo besta. Tanto que a história é sobre a protagonista ficar o tempo todo transitando entre duas estradas: uma chamada MEB e a outra, LAM. Mal e bem, ao contrário.

Isso levava o livro a ensinar umas coisas bem estranhas, para dizer o mínimo. Por exemplo, quando encontrei um velhinho barbudo no meio da estrada e ele me ofereceu uma pedra que me daria o poder de ouvir a natureza (haha, juro). Quando não aceitei, comecei a entrar no caminho ruim (porque aparentemente o velhinho é tipo deus). Hoje eu penso: véi? Eu vou lá aceitar pedra de um desconhecido no meio da rua? Vai que é crack?

Apesar disso, o livro era muito divertido. E eu adorava tomar o caminho do mal de vez em quando, dar umas vandalizadas, ver onde cada caminho ia me levar. Foi isso o que mais me marcou. Prova disso é que não consigo me lembrar de qual era o “grande segredo”, afinal. Mas dos game over nunca esqueci, como quando um gigante me prendeu dentro de um jogo de corrida de motos e eu fiquei presa lá para sempre. Esse dia foi massa.

3. Sozinha no mundo

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Eu amava os livros do Marcos Rey. Um cadáver ouve rádio. O mistério do 5 estrelas. O rapto do garoto de ouro. Era meu autor preferido da Coleção Vagalume, aqueles livrinhos que aposto também marcaram a infância de muita gente. Os livros do Marcos Rey eram todos de suspense, geralmente protagonizados por adolescentes que se metiam em mil e uma confusões.

Sozinha no Mundo vai nesse mesmo caminho: conta a história de uma garota de 14 anos que fica sozinha, perdida em São Paulo, depois que a mãe morre e o tio que ficaria responsável por ela desaparece.

Aí ela tem que se virar, né? Passa pela casa de estranhos, por uma pensão de moças, até pela casa de um aliciador de menores, chega a ser acolhida por um circo.

Essa história me chamava muito a atenção porque era uma menina, um pouco mais velha do que eu, tendo que lidar com uma ideia que me apavorava: sobreviver sozinha em um mundo hostil de adultos (pior: numa cidade assustadora como São Paulo!).

Todo adulto que cruzava o caminho de Pimpa eu ficava tensa: dava pra confiar naquela pessoa? Haviam pessoas boas e pessoas que pareciam querer ajudar, mas que poderiam ser perigosas. 

Como a moça esquisita que se dizia assistente social, uma mulher que era descrita sempre usando um “óculos redondos de aros de tartaruga”, que eu não fazia ideia do que significava, mas que não me ajudou a criar uma boa imagem dela. 

Ela perseguia Pimpa, dizia que tinha que levá-la ao juizado, apesar do juizado de menores ter autorizado a menina a ficar na casa de uma senhora que ela conheceu no trem, enquanto não encontravam o tal do tio Leonel. Mas Pimpa sempre conseguia fugir dessa doida e, se não me falha a memória, em uma dessas escapadas acabou parando em uma passeata feminista.

É com essa “assistente social” que Marcos Rey costura os mistérios do livro e segura o nosso fôlego a cada capítulo. No final, como todo bom livro de suspense, ele revela por que Pimpa corria perigo. Não falta aventura na vida dessa menina.

Sempre fui muito medrosa, então poder me projetar em Pimpa e viver essas emoções alucinantes foi interessante para me perguntar: o que eu faria nessa situação?

Imaginar como agir em situações adversas é algo que continuo a buscar na ficção até hoje.


Texto originalmente publicado na minha newsletter em setembro de 2014. Para receber as próximas edições, assine grátis:

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