Meninas, vocês não têm que agradar ninguém

Felizmente, posso falar de adolescência como uma memória distante. Há muito atravessei essa fase de terríveis constrangimentos, sentimentos conflitantes, mudanças e erros. Muitos erros. Ainda não conheci alguém que não se lembre da adolescência com uma ponta de vergonha, exceto talvez por uma ou outra pessoa que ainda esteja nela. Dá saudade? Dá. E vontade de voltar àquela época onde tudo era descoberta, aventura e azaração? Nenhuma.

Transições são difíceis, especialmente aquela entre a infância e a vida adulta. E o que acredito que marca essa passagem, no caso da adolescência, é o sentimento de inadequação – que só existe porque, bem, é quando a gente percebe que precisa se adequar. Já temos idade o suficiente para entender como a sociedade funciona, mas ainda não temos vivência o suficiente para não sermos massacrados por suas regras e imposições. Então fazemos de tudo para sermos aceitos por algum grupo (nem que seja o grupo dos excluídos), para não pagar mico, para pertencer. Mais ou menos o que continuará acontecendo na vida adulta.

Isso se torna algo ainda mais difícil quando você é uma jovem mulher. Aliás, o que não é mais difícil sendo mulher, né? Você lá, cheia de hormônios querendo descobrir seu novo corpo, mas tendo que segurar a periquita porque disseram que você precisa se guardar para o cara certo (sempre um cara, afinal você é uma garota e só pode ser heterossexual, oras). Seu corpo ainda está mudando (e nunca vai parar de mudar, isso eu garanto a você) e já querem que ele se adeque a padrões rijos e a determinado peso para que você não receba o rótulo de feia.

Você recebe mil estímulos de todas as frentes dizendo a você para andar na linha. Para se conformar às regras criadas para fazer você sempre perder no jogo, não importa o que faça. Para odiar as garotas que são diferentes de você. Para sempre agradar os caras. Para adequar seu corpo. Para provar o tempo inteiro que você é bonita – e se é bonita, ainda ter que provar que não é só bonitinha. E tudo isso em um momento da sua vida em que você precisa escolher o rumo que sua vida tomará quando a idade adulta chegar. Não é nada fácil.

Então antes que você ache que esse texto vai ter alguma bronca ou lição de moral, deixemos esse assunto de lado e vamos conversar sobre livros. Porque se tem algo da adolescência que não saiu de mim é o meu gosto por boa literatura juvenil.

Recentemente li duas histórias protagonizadas por garotas. Frankie e Ira.

Frankie é uma jovem de 15 anos que está no segundo ano de uma espécie de colégio interno no norte de Massachusetts, nos Estados Unidos. Ira, com quase 15 anos, está no início do Ensino Médio em uma escola de São Paulo.

Frankie é criação de Emily Lockhart (detesto como o primeiro nome das autoras é abreviado na capa para esconder que são mulheres), do livro “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” e Iracema é criação de Clara Averbuck em seu mais recente livro, “Eu Quero Ser Eu”. Ambas as personagens são adolescentes, com personalidades bem fortes, suas histórias se passam no colégio, o que é de se esperar quando você é adolescente e só tem isso pra fazer da vida, e giram em torno da necessidade de adequação do qual falei ali em cima. Mas a semelhança entre as duas para por aí.

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Frankie estuda em um colégio interno tradicionalíssimo e super respeitado. Cheio de regras. Há uma passagem interessante no livro em que ela fala sobre o pan-óptico, descrito por Michel Foucault em “Vigiar e Punir”. O pan-óptico é um tipo de prisão projetada arquitetonicamente de forma a permitir que todos os prisioneiros sejam vigiados – sem que eles saibam se estão sendo ou não vigiados. Sabendo que estão sendo vigiados, os prisioneiros cumprem as regras automaticamente. Acaba que, graças a essa profunda paranoia criada na cabeça das pessoas, o mínimo de vigilância é necessário. É assim que ela se sente no seu colégio.

(e curioso notar o quanto a nossa sociedade se assemelha, em alguns aspectos, a um pan-óptico.)

Bem, então ela está nesse lugar onde todos sabem direitinho o seu lugar. Não só na hierarquia entre direção e alunos, mas também na hierarquia existente entre os grupos de alunos. Ela sabe que não deve sentar sem convite na mesa de almoço dos alunos mais velhos, que isso é uma espécie de transgressão. Ela se preocupa com as regras como um prisioneiro do pan-óptico se preocupa com a vigilância invisível, mesmo quando ela, deliberadamente, transgride alguma regra:

“Ninguém vai me castigar, Frankie disse a si mesma. Posso quebrar essa regra se quiser. (…) Havia uma parte de Frankie que se sentia como praticamente qualquer adolescente se sentiria naquela situação: constrangida. Ela desejava não ter quebrado aquela regra idiota. (…) Mas outra parte de Frankie estava curtindo o fato de ela ter (…) quebrado uma regra tão entranhada na mente de todos que nunca ocorreu a ninguém que não era, de fato, uma regra.” (p. 156)

Frankie transgride algumas regras, sim. Ela é questionadora o suficiente para fazer isso. Mas a autora se assegura de que isso não trará consequências drásticas e irreversíveis no destino da personagem – ser expulsa da escola, por exemplo.

Já Ira começa a história contando ter sido expulsa de sua escola anterior. Diferente de Frankie, ela não fica remoendo sua preocupação em não ser pega, em não fazer as coisas do jeito esperado. Ela simplesmente faz, ela simplesmente fala. Em um momento, ela conta sobre o bedel da escola que fica vigiando os corredores para evitar que os alunos matem aula. Sobre como ele olha torto para ela, como se estivesse só esperando o menor deslize para pegar no pé dela.

“Tem um monte de menina e de menino fazendo coisa errada naquela escola. Mas elas fazem cara de anjinho para Poletto, o Bedel, e ele compra. Eu não faço cara de nada pra ninguém. Eu odeio essa gente toda. Eu queria ficar em casa desenhando. Eu queria ser eu em paz.” (p. 27)

A ideia de quebrar regras é particularmente atraente para adolescentes (e a ideia de não conseguir controlar os adolescentes é o terror da sociedade adulta, vide rolezinhos), mas não é só isso que vejo nessas duas passagens específicas dos dois livros. Isso tem muito mais a ver com a preocupação em se adequar do que pode aparentar à primeira vista. Frankie e Ira repetem esse padrão (uma de preocupação e a outra de desapego) em outros aspectos, especialmente naqueles relacionados a garotos.

Frankie namora um rapaz popular na sua escola, o Matthew; Ira se interessa por um rapaz popular, do tipo “mauricinho”, o Bruno. Nas duas histórias, os dois rapazes representam um desafio para as protagonistas. É através deles que o elemento da “aceitação”, tão difícil na vida das adolescentes, é introduzido na história – embora Frankie e Ira lidem com isso de formas diferentes.

Frankie mede o tempo inteiro suas palavras para não aborrecer Matthew ou parecer imatura. Ela o admira, ela realmente é apaixonada por ele, apesar de ele tratá-la de forma tão paternalista e infantilizante. Parece que ele diz o tempo todo o quanto ela é bonita para colocá-la em seu devido lugar, o de enfeite. É claro que ela se irrita com isso. Ela quer ser reconhecida como uma igual.

Em certo ponto da história, ela descobre que o namorado faz parte de uma sociedade secreta de alunos – a Leal Ordem dos Bassês – e claro que ela não pode fazer parte porque o grupo não aceita meninas. É daí que partem as “altas confusões” do livro: Frankie quer mostrar para o namorado e para seus amigos que ela não é só uma garota bonita. Que ela é tão inteligente e ousada quanto qualquer um deles.

Então a personagem é movida por uma motivação feminista? Sim e não. As coisas que Frankie faz são realmente admiráveis e superam as expectativas rasas que o mundo espera dela como uma “princesinha”; mas tudo que ela faz, ela faz, na verdade, para ser aceita pelos garotos. Para obter DELES alguma aprovação. E é exatamente isso que somos ensinadas a fazer. O tempo todo. A usar o absorvente íntimo que a propaganda diz que vai atrair o olhar dos caras. A aprender as técnicas sexuais que vão enlouquecer os caras na cama. A não ser independente demais porque isso intimida os caras. Os caras. Os caras. Sempre os caras.

Ira, se pudesse, falaria para Frankie: “sai dessa”.

Aliás, me incomodou muito a forma como Lockhart mostrava, através do olhar da protagonista, como os caras daquele clube do bolinha eram tão mais espertos. Divertidos. Inteligentes. Leais. Ela faz isso o tempo inteiro, mas destaco um trecho:

“Os caras faziam guerra de pãezinhos e discutiam política. E fofocavam e falavam sobre esportes e inclinavam suas cadeiras tão para trás que parecia certo que fossem capotar – mas isso nunca acontecia. (…) A qualidade de Matthew que ela mais gostava era sua aparente imunidade ao constrangimento. Por exemplo, Alfa disse uma coisa tão ridícula no jantar que Matthew esguichou suco pelo nariz, molhando toda a camiseta. (…) Mas Matthew ficou de pé, ergueu os braços, vitorioso, e proclamou a si mesmo o ser humano mais nojento da Alabaster, desafiando qualquer um a provar o contrário. (…) Ela jamais teria imaginado que se sentiria atraída por um garoto que tinha acabado de esguichar suco pelo nariz, mas ela estava.” (pg. 102 e 103)

Em “Eu Quero Ser Eu”, os comportamentos juvenis tipicamente masculinos não são colocados em um pedestal:

“De onde estava, podia ver Bruno e seus asseclas fazendo suas piadas idiotas, suas brincadeiras de menino, seus soquinhos, suas demonstrações de virilidade adolescente.” (pg. 17)

Talvez por não ver os meninos como superiores, Ira não tenta ser aceita por eles. E é isso que acho tão incrível na personagem. Ela tem consciência de que ela não se encaixa, de que ela não é o que os garotos ou a sociedade esperam dela e nem faz questão de ser. Vejo que ela se incomoda com essa questão, afinal, ela pensa e reflete sobre isso o livro inteiro. Mas o que a incomoda não é o fato de não ser aceita, e sim a imposição de que ela precisa ser aceita. Ela se recusa a isso.

“Inadequada se sentia a sua avó. E a minha também. E algumas das nossas mães. E várias das nossas amigas. Que triste. As mulheres têm essa triste mania de querer agradarzinho. Na verdade eu acho que não é uma mania. Acho que elas foram ensinadas assim. Digo elas porque comigo foi diferente. Eu fui criada pra ser livre.” (p. 45) 

Claro que as duas, Frankie e Ira, quebram a cara no final do livro (e não vou contar, vocês vão ter que ler para descobrir). Mas errar faz parte de ser adolescente, especialmente porque os erros não vão deixar de acontecer na vida adulta e saber lidar com eles é fundamental.

Não acho que as duas sejam opostos; são apenas duas jovens que qualquer um de nós poderia conhecer (claro que Ira está mais próxima de nossa realidade, mas Frankie também é bem verossímil). São bem parecidas até. O que acho fundamentalmente diferente é a mensagem que cada história passa.

A leitura de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” é muito boa: o final de cada capítulo puxa você para a continuação da história, por mais que as atitudes de Frankie deem vontade de sacudi-la pelos ombros para que ela caia na real e pare de tentar ser aceita pelos caras. Você não precisa disso. Nenhuma mulher, independente da idade, precisa disso.

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Por isso “Eu Quero Ser Eu” é um livro raro. Ele fala o que, infelizmente, ninguém me contou na adolescência (e durante muito tempo da vida adulta, até eu conhecer o feminismo): você não tem que agradar ninguém. Você não tem que mudar o seu corpo, você não tem que medir a sua atitude, você não tem que usar determinadas roupas só para se encaixar no padrão. Não é você que está errada; é o mundo ao seu redor. Você não tem que se adequar.

Essa é uma mensagem muito poderosa para as garotas. Porque quando somos adolescentes, estamos tão mais vulneráveis ao bombardeio de mensagens que nos fazem sentir feias, inadequadas, erradas, inferiores.

E aí eu, que além de shippar* a Ira e sua amiga Roberta durante a leitura, imaginando como seria fofo se as duas formassem um casal, fiquei imaginando como seria legal se Ira e Frankie se conhecessem. Se a Frankie aprendesse com a Ira a desencanar e a ser mais livre, ela seria imbatível. Aliás, que legal seria se outras meninas, daqui, do mundo real, também conhecessem a Ira. E com ela descobrissem a ser mais elas – e menos o que a sociedade engessou como “mulher de verdade”.

*shippar: basicamente o que fazem os fãs de alguma obra de ficção (desde livros até seriados de TV) ao torcerem por um casal, que pode ter sido ou não estabelecido pelo autor ou autora. Gíria bem de adolescente, né? Mas, surpreendemente, só fui aprender essa palavra depois de velha, ainda que durante a adolescência eu tenha unido tantos casais inusitados na minha cabeça. Já shippei muito sem saber.

Fotografia da capa: Erfon Elijah // Flickr Creative Commons