Por quê, Carolina?

Escrever tem sido quase impossível. Navegar na tormenta, sem remos. Até que no caminho aparece uma placa mais nítida apontando uma direção, estampada numa parede vermelha, na forma das palavras de Carolina Maria de Jesus:

“Devemos escrever a realidade. A verdade. Revelar os fatos que corrompem um país”.

Quando leio isso, sinto o peso de uma voz que me puxa de volta para a realidade. Que me faz lembrar dos porquês. Ainda bem estava escrito numa parede e não deu para ignorar.

Visito uma exposição pela primeira vez depois de um longo tempo e fico feliz que tenha sido essa. Sentia falta dessas leituras em espaços tridimensionais. De poder ler fora de ordem, de me afastar e me aproximar. Descubro vários ângulos novos. Ali posso ver outras dimensões da autora — como mãe, como cantora, como criativa. Ouço sua voz. Leio trechos escritos com sua própria caligrafia. Vejo suas fotografias, como se fosse uma invasora vasculhando suas gavetas.

Algo ali me prendeu mais a atenção. Primeiro, um vestígio de tristeza que senti nas suas palavras depois de ter alcançado a experiência de ser uma autora sucesso de vendas, conhecida internacionalmente. Não sei se tristeza ou frustração. Apareceu em alguns cantos, como num dos textos escritos à mão, onde contava que, nos diários que deram origem ao livro Quarto de despejo, escrevia para não pensar em suicídio em meio ao seu cotidiano brutal na favela. Mas, depois que publicou o livro e veio o sucesso, disse se sentir decepcionada.

Fico com um ponto de interrogação incomodando. Com o que Carolina se decepcionou? 

Tento imaginar como foi para Carolina em tão pouco tempo de uma invisível na sociedade se tornar tão conhecida, tão lida. Tão interpretada. Ganhar dinheiro e viajar para vários países e conhecer artistas e aparecer em filme e ver seu nome se tornar enorme. 

Decepção porque a solidão continuava? Ou porque o sucesso não fazia sumir o racismo? 

O que aconteceu, o que realmente sentiu, tudo tão fora de alcance. Às vezes nem toda uma coleção de registros dão conta de dizer toda a verdade. Então a gente se agarra aos fragmentos como uma boia salva-vidas possível e segue viagem.

fotografia em tons de sépia de Carolina Maria de Jesus, mulher de pele negra, vestindo roupas extravagantes de Carnaval, com tecido brilhante cheio de penas, um colar de pérolas, e um chapéu no mesmo material, com o nome CAROLINA escrito em lantejoulas. A autora segura o chapéu com a mão esquerda e olha pra cima.

A outra coisa que me chamou a atenção foi um ensaio fotográfico em que ela aparece vestida para o Carnaval, toda brilhante. Aquelas mãos de escrever verdades também costuravam fantasias. Personagens saídos de sonhos, que brilhavam com luzes elétricas ou lantejoulas. A fotografia cristaliza na minha mente a imagem de uma mulher que não se continha pela realidade, que desejava mais dela. É com isso que quero ficar.

“Eu sou igual a agua, se faz um dique impedindo o seu curso ela vae evoluindo-se e transpõe”

— Carolina Maria de Jesus

Escritora, ilustradora, ilusionista. Conto quem eu sou um livro por vez.

Sliding Sidebar

Receba novos posts por email

Saiba em primeira mão quando tiver leitura nova por aqui, beibe

Visite minha loja

Apoie

Minha central de newsletters

Assine grátis

a newsletter mais legal da galáxia todo sábado no seu e-mail

Gosta do que escrevo?

faça uma doação marota

Curte, curte

Compre o e-book Pequenas Tiranias
Compre o e-book Pequenas Tiranias