Tudo na manteiga

Uma expressão que amei aprender em alemão é “alles in Butter”. Algo como “tudo na manteiga!” para dizer que está tudo certo. Mas soa meio antigo, como um “tudo supimpa!”

Uma das origens prováveis veio da Idade Média: na época, derretiam a manteiga e mergulhavam nela objetos preciosos e frágeis, como pratos ou enfeites de vidro. Com o frio, a gordura endurecia, servindo de camada protetora para transportar esses tesouros sem que sacudissem, se chocassem uns com os outros e se quebrassem. Mais ecológico que plástico-bolha. Quando a mercadoria chegava ao destinatário, para dizer que a carga estava inteira, os entregadores diziam: tá tudo na manteiga, chefe!

Não sei se a história é verdadeira, mas achei maravilhosa. Fiquei imaginando o trabalho de desengordurar todos esses pratos recém-chegados, mas todo mundo feliz da vida porque pelo menos chegaram inteiros.

O tempo passa, a tecnologia e os métodos de transporte mudam, mas algumas ideias são passadas adiante e permanecem, envoltas na manteiga das palavras. Pensando bem, me trouxe uma paz observar que as coisas que vivemos hoje são, na verdade, repetições meio fora de lugar de outras muito antigas:

“Caralho. Galera. Andar à toa. Amo que expressões que a gente usa e soam tão jovens vêm da época das navegações. Um bando de náufragos mesmo. Não dizem que naquele tempo as pessoas se guiavam pelas estrelas? Hoje as estrelas que buscamos para orientar nossos caminhos estão numa tela, em nossas mãos. Ainda emitem luz, mas há controvérsias se estão nos levando para algum lugar.”

— Do meu texto “Caralho, galera

Continuamos navegando, veja só. E usando outros tipos de manteigas para embalar nossas ideias e sentimentos, tudo o que queremos fazer chegar do outro lado. Alguns usam memes, outros usam arte, outros usam links. Qualquer coisa que crie uma conexão, que ligue uma coisa à outra, uma ideia em outra ideia, alguém a outra pessoa.

Na barra de ferramentas do editor de textos, de repente percebo o quanto o ícone para link, um troço tão digital, vem de algo antigo: os elos de uma corrente. A internet é extremamente náutica.


Texto originalmente publicado na minha newsletter Uma Palavra, em maio de 2022.

“Mound of Butter”, pintura de Antoine Vollon, 1875

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